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João Gilberto

“Vi-o chorar como uma criança”. João Gilberto em Portugal por João Gobern

O mais experimentado dos jornalistas portugueses de música escreveu no Facebook sobre João Gilberto, pouco depois de ser conhecida a notícia da morte do ícone da música brasileira. Este é a memória dos seus concertos em Portugal

João Gobern

Vi-o chorar como uma criança a quem tivessem destruído o brinquedo favorito. Disse, várias vezes: “Isso não podia acontecer comigo aqui, logo aqui...”. Foi logo a seguir ao primeiro dos concertos que deu no Coliseu, em junho de 1984. Acabou com vaias quando ele decidiu abandonar o palco muito mais cedo do que a espera e a expectativa exigiam.

Acontece que ele era mesmo um perfeccionista obsessivo e, já depois do ensaio geral, uma qualquer luminária decidiu mudar a localização da orquestra e, dessa forma, infringiu as regras, rígidas, de um cantor que não perdoava esse tipo de 'subversões'. Em pranto, ele estava sentado no banco de trás de um Citroën, o mesmo em que já tinha passeado - comigo à pendura, para sempre privilegiado - por Lisboa. O calor era condizente com a chegada dos Santos Populares mas nem assim ele abdicava de camisa com gravata, colete, casaco e sobretudo. Da mesma forma que não perdia de vista o seu saco de remédios. Cantarolou, com uma insistência muito própria, alguns versos de algo que decidira somar ao alinhamento dos seus clássicos: 'Uma Casa Portuguesa'.

João Gilberto no Coliseu dos Recreios em junho de 1984

João Gilberto no Coliseu dos Recreios em junho de 1984

Arquivo A Capital/IP

Eu tentava não deixar escapar uma só das suas observações, sem me atrever a tomar nota e ainda menos a gravar. Umas semanas antes, tinha ficado quase três dias inteiros na recepção do prédio carioca em que ele habitava, na 'cobertura'. Porquê? Porque tinha viajado de Lisboa para o Rio, com a promessa de uma entrevista. Ninguém me avisou que, na sua já longa carreira, ele só tinha cumprido três... Com 23 anos e o Rio inteiro para descobrir, desisti da 'missão impossível' e fui em busca de outros 'alvos' - Simone, Djavan, as meninas e os meninos da Blitz.

No dia em que ele voou para Portugal, eu estava à espera dele na Portela. Com uma garrafa de Vinho do Porto (de 1931, ano do seu nascimento) e com um recado: o de que ia perdoar não esquecer o falhanço da missão que me tinha levado ao outro lado do Atlântico. Talvez fosse por tudo isto que tinha acabado 'convocado' para o passeio e, agora, estivesse ali a testemunhar o seu dramático desconsolo. Só me lembrei de o recordar que ainda havia mais noites de Coliseu e que tudo podia acabar bem.

No segundo show, ele vingou-se (povo em delírio e dois-encores-dois de alguém que não gostava de voltar ao palco para extras), passou do apupo para a apoteose, e eu, outra vez na plateia, gozei bem essa desforra.

O bilhete do espetáculo de João Gilberto a 7 de junho de 1984 no Coliseu dos Recreios

O bilhete do espetáculo de João Gilberto a 7 de junho de 1984 no Coliseu dos Recreios

No dia 10 de Junho de 1984, em que ele fazia 53 anos, fui 'mobilizado' outra vez - devia seguir quanto antes para o Hotel Penta, porque ele queria falar... Foram cinco horas a ouvi-lo, e nem sempre a falar: tocou violão, cantou... Tudo. Sem exageros, saí dali nas nuvens.

Antes e depois destes episódios, mantive dois rituais: no primeiro dia de férias e no dia do meu próprio aniversário, a primeira cantiga é sempre dele - que escreveu tão poucas mas que soube dar a cada uma das que abordou uma versão definitiva -, do homem que, para cantar, usava um sorriso na voz. Vai continuar a ser assim. Em nome de João Gilberto Prado Pereira de Oliveira.