Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Grace Jones ao vivo em 1994

Getty Images

Não um, nem dois, nem sequer três. Foram quatro os concertos de Grace Jones em Portugal antes do NOS Alive... e deram que falar

Grace Jones vem esta sexta-feira a Portugal para um concerto no NOS Alive que chegou a ser comunicado como a estreia absoluta da diva no nosso país. Contudo, nos anos 90, a artista passou por cá para quatro espetáculos, cujo cariz sexual intrigou os jornalistas. Uma história esquecida que se conta aqui

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Inicialmente apresentada como estreia em Portugal, a atuação de Grace Jones no NOS Alive será, na verdade, a quinta da artista no nosso país.

Nos anos 90, a cantora nascida na Jamaica esteve em Matosinhos, no Algarve e na Amadora (em abril de 1991) e na inauguração de um espaço à beira-Tejo, em Lisboa (em novembro de 1995).

O caráter sexual dos espetáculos intrigou os jornalistas destacados para cobri-los; n' A Capital de 19 de abril de 1991, a chamada de capa avisava: “Grace queima em Matosinhos”.

Na reportagem, Rui Tentúgal escrevia que Grace Jones dera um espetáculo “inesquecível” para cerca de 500 pessoas, na discoteca Cais 447.

“Depois do que ali foi visto e ouvido tornou-se opinião unânime que Madonna é uma santa e 'O Império dos Sentidos' um filme casto. 'Miss' Grace Jones elevou a tamanho nível a líbido da assistência que foi consagrada em vida como diva da voz quente como couro ('Warm Leatherette') a rainha do sexo sem fronteiras, credos, raças ou tento na língua”.

Na companhia de dois bailarinos, Grace Jones entrou em palco depois da uma da manhã. Inicialmente vestida com lantejolas e com o rosto “coberto por uma máscara com plumas”, a cantora parecia-se, cerca das três da manhã, com “um ser andrógino, com corpo e voz de mulher, penteado, bigode e patilhas de homem. 'Pareço um homem', dizia enquanto apontava para o rosto, mas 'sinto-me mulher', e passava a mão pelos seios descobertos”.

Segundo a reportagem d' A Capital, ao longo do espetáculo Grace Jones “contou detalhadamente experiências sexuais; (...) simulou orgias com os bailarinos e outros convidados; deixou o público apalpar-lhe o traseiro e beijar-lhe as pernas; conversou sobre música para defender a honestidade do play-back; (...) 'cravou' cigarros e cerveja; nunca desfaleceu, apenas abrandou para trocar de roupa. A música foi desde sempre apenas uma pequena parte de Grace Jones”.

Antes do primeiro encore, a estrela “continuou com as provocações levadas ao ponto de meter várias vezes o micro na boca, apareceu em topless, descreveu as suas aventuras com o namorado de uma amiga, enquanto os três viam televisão, e foi cantando. No segundo encore pôs a sala a cantar em coro com 'Warm Leatherette' e foi convidando para o palco todos os que usassem casacos de couro ou cabedal. Acederam quatro entusiasmados rapazes, um dos quais apenas tinha um cinto de couro, mas que se esforçou por melhorar o visual descendo as calças e dançando em cuecas até ao fim da música”.

No final, uma espectadora “exigiu subir ao palco, não para adorar Grace Jones mas para conhecer os bailarinos. Grace propôs de imediato que os que os quatro fizessem uma orgia no palco, mas não passou da intenção”, rematava Rui Tentúgal n' A Capital.

Depois de Matosinhos, Grace Jones tocaria no Forum D. Pedro, em Vilamoura, e na Dancetaria Lido, na Amadora.

Quatro anos mais tarde, Grace Jones voltava a Portugal para atuar na inauguração de um espaço em Lisboa: o Rock City.

Na capa, A Capital escrevia em manchete: “Muito Sexy Pouca Graça”, dando conta de um “espetáculo onde abundou o sexo, mas faltaram a qualidade musical e o bom gosto de estar em palco”.

Lá dentro, Rita Bertrand é implacável, começando a sua reportagem da seguinte forma: “O espetáculo é degradante. Uma figura andrógina, com o físico a denunciar que já passou dos 40, a rebolar-se pelo chão ou de cócoras a esfregar o sexo com a língua de fora e soltando uivos e gritos primitivos sobre a batida minimal da música de dança”.

Às duas da manhã, perante um público “já animado pela circulação grátis de todo o tipo de bebida”, Grace Jones entrava em palco “com uma cabeleira acrílica prateada sobre as orelhas. A capa vampiresca que agitava como asas de um morcego acentuava-lhe o ar irreal, de personagem saída de um filme fantástico. (...) Quatro bailarinos semi-nus acenam esperando a descida da 'diva' sexual”.

“Com um biquíni de 'gola alta' que lhe tenta esconder a aparatosa barriga, Grace Jones desce finalmente para cantar 'Slave to the Rhythm'. Tira a capa e levanta o vestido, com o rabo para o ar numa provocação monstruosa. De cabeça para baixo, grita desenfreadamente. Os movimentos são eróticos e as pessoas esfregam os olhos para garantir se é mesmo verdade o que vêem. O rosto da artista é de alguém enlouquecido ou, pelo menos, num estado alucinado”, reportava Rita Bertrand, acrescentando que Grace Jones “assassinou” 'La Vie En Rose', de Edith Piaf; envergou um body de conotação sado-masoquista e, durante 'Sex Pride', reproduziu “flexões sexuais (...). Duvidamos que ela tenha realmente algum orgulho, sobretudo quando se coloca de gatas, de rabo espetado e rosto transfigurado pela maquilhagem e pelo suor”.

No final, recebe de alguém um copo de champanhe e um ramo de rosas vermelhas. “Ela está feliz e o público incendiado pela tentação orgíaca que Grace Jones provoca”, concede Rita Betrand.

Também n' A Capital, o espaço Rock City era descrito como tendo capacidade para 300 pessoas sentadas e mais de mil em pé, além de dispor de uma esplanada de 350 lugares.

Uma semana antes, os sócios do Rock City explicavam ao mesmo jornal o convite a Grace Jones. “É uma vedeta de renome internacional que se identifica com a nossa imagem. Além disso, como já estava na Europa, mais precisamente em Bruxelas a rodar um filme, o cachet é menor do que se a trouxêssemos diretamente dos Estados Unidos. Vamos pagar-lhe cinco mil contos, além de despesas de hotel, viagens e alimentação”, revelava à Capital Rui Dantas de Figueiredo.

A quarta atuação de Grace Jones em Portugal mereceria ainda uma breve nota na Visão de 23 de novembro.

“Rossy de Palma, senhora de uma penca notável e [de uma] dentuça soberba, veio apresentar o último filme de Almodóvar. Grace Jones -- que ainda não sei se é uma mulher ou um estivador -- veio inaugurar o novo bar-restaurante Rock City, coisa grande, no meio dos destroços do Cais do Sodré, a beijar o rio. OK, venham mais que estas já papámos”, gracejava António Risco.

Grace Jones atua no NOS Alive a 12 de julho, no palco Sagres.

O NOS Alive é um dos festivais em destaque na edição especial da BLITZ, dedicada aos festivais de verão, que se encontra nas bancas ao preço de €4,90.

Capa da BLITZ Especial Festivais 2019

Capa da BLITZ Especial Festivais 2019

100 páginas profusamente ilustradas com tudo o que importa saber sobre os grandes nomes que vêm a Portugal este verão e a informação pormenorizada sobre um vasto leque de festivais para todos os gostos.

Pode contar com entrevistas, perfis e retrospetivas sobre os 'figurões' do verão nacional, dos Cure a Lana Del Rey, passando por New Order, Slipknot, Vampire Weekend, Sting, The Roots ou Anitta.