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The Cure no Estádio José de Alvalade, Lisboa, 28 de junho de 1989

João Tabarra/Arquivo BLITZ

O primeiro concerto dos Cure em Portugal foi há 30 anos. Estava encontrada “a noite mais longa” dos grandes palcos portugueses dos anos 80

28 de junho de 1989. O maior espetáculo do ano em Portugal, o “superconcerto”, o verdadeiro acontecimento. A duas semanas do regresso ao nosso país, recordamos a histórica (e longa) estreia de Robert Smith e companheiros por cá, recebida com um misto de entusiasmo e desconfiança pela imprensa da época

Estamos em 1989. “Disintegration”, o oitavo álbum dos Cure, é conhecido há pouco mais de um mês e a banda de Robert Smith, com cerca de uma década de discografia viva, vem mostrá-lo ao Estádio José de Alvalade, futuro palco dos maiores concertos em Portugal na primeira metade dos anos 90 (os Cure abriram as portas, seguiram-se vultos como Rolling Stones, David Bowie, Tina Turner, Dire Straits, Genesis, Bryan Adams, Elton John, Guns N' Roses, Michael Jackson, Bruce Springsteen, Depeche Mode, U2, Metallica, Prince e outros só nos quatro anos seguintes).

O jornal BLITZ dedica-lhe a capa da edição de 20 de junho - naturalmente, Robert Smith a ilustrá-la -, traçando no seu interior um 'estado da nação' da banda inglesa. As antevisões na imprensa são, contudo, pouco consensuais no que diz respeito ao impacto atual dos Cure. O entretanto extinto semanário 'O Jornal' apelida a vinda dos Cure de "o tão esperado concerto do ano". "Durante três horas, esta banda inglesa vai seduzir o público, vai fazê-lo dançar, vai fazê-lo pensar. Se só hoje decidiu não faltar a este espectáculo, prepare 3000$00". O Expresso, por sua vez, não poupa a banda inglesa, arrasando "Disintegration": "estamos perante um dos seus piores registos fonográficos, uma colecção de lamúrios incessantes e um mutismo patético ao nível da produção e da escolha dos temas". Sentencia: "Tudo isto é equivoco, tudo isto é miséria e ninguém quer que tudo isto seja um fado. Que sejam absolvidos os que, contra as perspectivas da organização do concerto, não encham as bancadas de Alvalade".

The Cure na capa da edição de 20 de junho de 1989 do jornal BLITZ

The Cure na capa da edição de 20 de junho de 1989 do jornal BLITZ

O 'Se7e', na pena de Miguel Cunha, é informativo e efusivo. "A data portuguesa do 'Prayer Tour', que verá a primeira parte preenchida por Shelleyan Orphan, acontece no Estádio de Alvalade, cujos portões abrirão uma hora e meia antes da actuação, com começo previsto para as 22 horas. Na sua deslocação a Portugal, os Cure fazem-se acompanhar por uma comitiva de 52 pessoas, incluindo médico, cozinheiro, cabeleireiro e muita gente mais. Oito camiões TIR transportarão o material. Os bilhetes (...) não são baratos, mas espectáculos assim acontecem uma vez na vida. Esta é a vez".

O bilhete do concerto

O bilhete do concerto

Também puxando o lustro à história do grupo, 'A Capital' chama a atenção para a heterogeneidade do público esperado em Alvalade, dando Rui Miguel Abreu a entender que os Cure já se transformaram num grupo de massas. "Prevê-se a plateia mais sui generis que alguma vez se viu em Portugal, com punks da velha guarda, 'darks' pós-modernos, betinhos do [Centro Comercial] Amoreiras e excursionistas de todo o país. Vai ser um festival de t-shirts".

"Disintegration", novamente, é tema sensível: o atual colaborador da BLITZ reforça que, apesar de a imprensa rotular "o disco como sendo péssimo (...), daí a ser rechaçado vai um longo passo, que é o passo que separa o grupo de Smith da mediania reinante no atual universo pop".

No dia do concerto, 'A Capital' traz à capa a montagem do palco do espetáculo. Chegando às bancas da parte da tarde, o diário lisboeta teve oportunidade de encontrar nessa manhã fãs dos Cure a tentar marcar lugar para o concerto "doze horas antes do início previsto". "Eles eram as testemunhas silenciosas da azáfama de montagem do palco, dos sistemas de luzes e de som que decorriam em bom ritmo", pode ler-se. Entretanto, adianta-se que a banda "estará em repouso absoluto até meio da tarde num hotel de Lisboa".

The Cure na capa de A Capital, edição de 28 de junho, dia do concerto em Lisboa

The Cure na capa de A Capital, edição de 28 de junho, dia do concerto em Lisboa

Um dia depois, a reportagem deste verpertino assinala que este terá sido "um dos mais extensos concertos de rock que Portugal já assistiu até à data", terminando quando já passava da uma e meia da manhã. Com o apoio de 20 mil espectadores, "uma audiência muito heterogénea", os Cure "voltaram ao palco por três vezes", culminando um espetáculo que, refere João Gobern, "oscilou entre o pop mais dançável já registado pelo grupo e as suas canções de tendência claramente mais depressiva, que acabaria por ocupar uma parte substancial do alinhamento". Para o jornalista, este pingue-pongue entre estilos "acabou por juntar aquilo que é essencial na obra dos Cure a alguns momentos notoriamente supérfluos".

Sublinha-se "a longa ausência de concertos de estádio em Portugal com um grupo deste nível", o que terá - acredita Gobern - favorecido a resposta do público, "facto sensível na quantidade de excursões que chegaram a Alvalade vindas de toda a parte do país - Porto, Leiria, Coimbra, Algarve". Presentes estiveram "desde os incondicionais dos primeiros tempos dos Cure, vestidos de cores escuras e em muitos casos imitando o penteado e as pinturas habituais de Smith, aos que descobriram a banda já na versão mais 'fácil' (a que corresponde aos álbuns 'The Top', 'The Head on the Door' e 'Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me')".

"Três horas entre dança e depressão": o título de 'A Capital' de 29 de junho de 1989

"Três horas entre dança e depressão": o título de 'A Capital' de 29 de junho de 1989

Às 22h45, os Cure sobem ao palco e, "para gáudio de uns e apreensão de outros", começam o seu concerto com três temas lentos, dois dos quais de "Disintegration". Falamos dos futuros clássicos 'Plainsong' e 'Pictures of You', que "davam o mote para um dos extremos da noite, preto e depressivo". À espreita, uma "reviravolta" operada por 'Kyoto Song', 'A Night Like This' e "o primeiro momento de delírio, entregue a 'Just Like Heaven'". Gobern reforça a ideia de "ambivalência", detetando no alinhamento contrastes entre "frio e quente", "preto e a cores". Depressão e dança.

The Cure no Estádio José de Alvalade, 28 de junho de 1989

The Cure no Estádio José de Alvalade, 28 de junho de 1989

João Tabarra/Arquivo BLITZ

Depois de 'Fascination Street', a "febre voltou a subir com um segmento de luxo": 'Charlotte Sometimes', 'The Walk', 'A Forest' e 'In Between Days'. Após a primeira saída de palco, Robert Smith vem satisfeito: "tinha aprendido uma palavra em português. O único problema esteve na pronúncia", dado que uns entenderam 'Eusébio' e outros 'assobio' [na verdade, foi mesmo 'Eusébio', como esclarece o áudio em baixo, aos 15 segundos]. Para os três encores - que perfizeram uma hora de concerto -, os Cure trouxeram êxitos pop como 'Lullaby', 'Close to Me', 'Let's Go To Bed' e 'Why Can't I Be You'. Para mais perto do final ficaria a obrigatória 'Boys Don't Cry'. Terminada 'Faith', estava encontrada "a noite mais longa" dos espetáculos portugueses (Gobern emparelha-o com o concerto de Lou Reed no Dramático de Cascais, em 1980), uma autêntica "maratona".

Condicionado pela periodicidade semanal, o 'Se7e' só a 5 de julho publica a sua 'leitura dos acontecimentos', não demorando contudo o crítico Miguel Cunha a realçar a importância do concerto: "esta data vai ficar marcada a ouro na memória dos apreciadores locais de música urbana: 28 de Junho de 1989. Local do evento: Estádio de Alvalade".

Os maiores elogios seguem para o desconchavado mas magnético Robert Smith. "Ele ainda canta para ouvir o choque da sua voz contra a casca das árvores velhas do fundo da floresta, ainda grita e se expõe como uma criança indefesa, ainda não transformou os shows dos Cure numa mecanizada encenação de emoções", regista o repórter do 'Se7e'. "Ali continua a haver emoção. Não o conseguiram até agora convencer que os rapazes não choram. E ele, sem verter lágrimas, deixa a alma chorar. A música sai-lhe do corpo, e a chave da empatia está aí. A do sucesso também. É com elas que os Cure (e Mad Bob é os Cure) nos abrem o coração. Como a 28 de Junho, numa noite para não esquecer", conclui-se.

Reportagem do concerto dos Cure em Lisboa na edição de 4 de julho de 1989 do BLITZ

Reportagem do concerto dos Cure em Lisboa na edição de 4 de julho de 1989 do BLITZ

Refletindo sobre certezas (um espetáculo de profissionalismo inatacável) e dúvidas (serão estes os Cure que queremos?), a reportagem BLITZ retrata um concerto 'dividido'. "Como um qualquer homem-aranha, Robert Smith construiu uma teia invisível que deixou no ar um misto de saudade e ódio", escreve Tiago Baltazar. Talvez inconcebível à distância de trinta anos, "Disintegration", o então recente LP da banda, volta a ser motivo de desconfiança: "predizia o período morno gerado, em certa parte, pela ignorância dos adeptos recrutados na sua fase mais pop". Os Cure, escreve o semanário de cultura jovem, "deixaram um lastro de profissionalismo e sofisticação e um latente apetite entre multidões de fãs, clientes de pop, para lhes pregar a partida com momentos musicais mais lentos e tristes", colocando o público entre o "lume da chama pop" e uma "bancada de mármore fria".

Robert Smith é apelidado de "grande marioneta (...), personagem de ficção no conto fantástico que ele próprio criou". "Na fase mais preta do concerto", prossegue Baltazar, "havia povo a dar o seu ânimo como perdido. Queria hits, não aquelas exibições amarguradas. Queria emoções fortes. Transformar o relvado numa pista de dança. Os Cure, apesar de terem todos os trunfos pop nos bolsos, queriam defender a fase do culto".

Dividindo as opiniões da imprensa destacada para o espetáculo, este foi um concerto que o BLITZ considerou "complicado de engolir", uma vez que "deixou em aberto a questão do caminho a seguir". Querem os Cure "ser um grupo de salas pequenas ou de estádios de futebol, de culto ou de multidões?", interroga o jornalista. Trinta anos depois, com o futuro desse concerto de 1989 atrás de nós, podemos responder de forma cabal: os Cure conseguiram ser ambos.