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Falámos com o arquivista de Prince. “O cofre-forte de canções está atualmente num espaço de alta segurança, à prova de acidentes”

Com uma dimensão mítica, o arquivo de Prince – o chamado ‘The Vault’ – é uma mina de surpresas que só o tempo nos dará a conhecer. Falámos com Michael Howe, o homem que o conhece por dentro. Dia 21 chega “Originals”, um novo mergulho numa gigantesca fatia da obra ainda por descobrir

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Com uma dimensão mítica, o arquivo de Prince – o chamado 'The Vault' – é uma mina de surpresas que só o tempo nos dará a conhecer. O músico vivia numa casa que tinha estúdios de gravação e até mesmo um palco onde podia dar concertos e ensaiar com a sua banda e convidados. Gravava quando queria, o que queria e com quem queria... E todo esse mundo de gravações ficou ali registado.

Depois da sua morte a organização daquele vasto arquivo foi uma prioridade para aqueles que agora gerem o seu legado. Aos poucos têm começado entretanto a surgir os segredos ali guardados. Houve um tema extra dos tempos de “1999” a surgir num 'best of', depois uma reedição de “Purple Rain” com extras. Seguiu-se um single com a maquete de “Nothing Compares 2 U”, o original da canção que Prince compôs para Sinéad O’Connor. E em 2018 finalmente foi editado um primeiro álbum póstumo de material inédito. Juntando gravações de uma sessão noturna gravada em 1983 “Piano & A Microphone 1983” foi como mergulhar na intimidade do processo criativo de Prince, recordando um momento para apenas piano e voz que ficou então registado numa fita.

Agora é a vez de “Originals”. Sai dia 21 e juntará 15 versões originais, na voz de Prince, de canções que ele mesmo fez para nomes como as Bangles, Sheila E, Vanity 6, os The Time ou Jill Jones, entre outros... A BLITZ falou com Michael Howe, o arquivista que tem trabalhado o conjunto de gravações guardadas no 'The Vault'. E é ele quem nos faz uma visita guiada (ao que pode mostrar) daquele vasto arquivo cheio de possibilidades de exploração...

O que é exatamente o arquivo The Vault? Era mesmo uma sala, uma casa-forte?
Tal como hoje existe, é basicamente um repositório de todo o material audiovisual de Prince. Gravações áudio, vídeo, discos rígidos... Todo o tipo de gravações analógicas e digitais, que representam o legado gravado de toda a sua carreira. Tem hoje uma localização física em Hollywood, ou seja, em Los Angeles...

Mas costumava estar de facto em Paisley Park como se dizia?
Estava em Paisley Park, sim. Mas saiu dali para Los Angeles em finais de 2017. E atualmente está num espaço de alta segurança, climatizado, à prova de oscilações ambientais, à prova de acidentes naturais...

Estava já organizado quando foi parar às suas mãos?
Havia alguma organização, havia uma inventariação e etiquetas... Mas a maioria do material não estava organizado de modo a que pudesse ser consultado sem um contexto específico. Por isso tivemos de montar o puzzle. As fitas gravadas têm etiquetas, mas nem sempre estão absolutamente corretas nem refletem sempre detalhadamente o que nelas existe. Foi preciso passar por todas, ouvir tudo, e determinar se cada fita tinha o que ali era suposto estar ou se tem antes algo completamente diferente ou algo a mais face ao que estava registado.

Esse foi então o primeiro passo?
Sim... Em alguns casos, foi. Na verdade, estamos a tratar tanto da organização como da preservação de todo o processo arquivístico, seguindo o mais possível uma ordem cronológica.

Prince, “Originals”

Prince, “Originals”

Prince vivia numa casa que era um complexo de estúdios, com um palco a meio. Por isso, podia gravar o que entendesse, com quem entendesse e quando entendesse... Deve por isso haver um pouco de tudo no arquivo...
É correto, sim.

Ao ter de decidir o que possa ser eventualmente editado em disco é quase como ter de lidar com uma infinidade de possibilidades.
É, de facto.

Então como são tomadas as decisões?
Pode ser um processo muito complexo que tentamos tornar o mais simples possível olhando para uma série de possibilidades ao mesmo tempo. Ver quais possam fazer de um ponto de vista estratégico. E não falo apenas do ponto de vista comercial, mas também se o que estamos a fazer tenha calibre suficiente para refletir favoravelmente o legado de Prince e o possa promover. Para poder servir a sua obra de uma forma que ele mesmo exigiria e que todo aquele corpo de trabalho merece. Muitas vezes, as ideias emergem assim dessa variedade de possibilidades e são depois discutidas internamente entre um grupo muito restrito de pessoas. E se estamos todos alinhados e concordamos que temos algo que atinja esses patamares de exigência, então começamos a juntar as peças... É um processo muito ponderado e discutido. Nada é impulsivo ou espontâneo.

As decisões que tomaram até aqui acrescentaram, de facto, ideias antes não exploradas na discografia de Prince. Como o disco de voz e piano editado no ano passado...
Esse disco era como que estar a ouvir o Prince a pensar em voz alta... Tudo aconteceu em tempo real e o que ali escutamos é um homem a criar naquele momento, naquele local... Há uma linha de pensamento que dura 22 minutos de seguida. Depois vira a fita a grava mais duas canções. Por isso o que temos no disco é um registo do que aconteceu realmente no estúdio naquela ocasião. Não sei o que mais ele possa ter feito naquela noite, antes ou depois. Mas naquela sessão foi aquilo...

Fala depois com os técnicos e engenheiros de som com quem Prince trabalhou para saber mais detalhes sobre o material gravado, condições em que surgiu?
Falo regularmente com eles. Parte da minha missão é a de envolver tantas pessoas quanto o possível, tentando juntar as que ali estavam na altura. E todos têm sido extremamente prestáveis, muito entusiasmados...

Este novo disco tem um conceito diferente. São também canções já conhecidas. Mas nas vozes de outros...
A ideia começou, na verdade, com a edição, ainda no ano passado, de 'Nothing Compares 2U' como single. Precisamente a canção que se tinha transformado num êxito enorme para a Sinead O’Connor no início dos anos 90. As pessoas sabiam que o Prince tinha tido algo a ver com a canção, mas nunca tinham antes escutado a sua versão. Quando a editámos a reação foi tão favorável que pensámos que seria interessante continuarmos a explorar a arte de Prince por detrás das cortinas. Ou seja, não como cantor, mas como produtor, arranjador, instrumentista... Alguém com uma entrega enorme no trabalho de estúdio mesmo que não fosse para um disco seu.

“Muita gente pensa em Prince como um perfecionista, mas ele era um homem que colocava mais ênfase na entrega emocional”

Como compara estas versões de Prince face aos temas que conhecemos gravados por aqueles para quem as canções estavam destinadas?
Há casos em que são espantosamente semelhantes, ao ponto de usarem o mesmo master, mas sem a voz de Prince, estando em seu lugar a outra voz e, claro, eventuais overdubs... Há muitos temas que são familiares, mas não nestas versões.

Houve já uma reedição de “Purple Rain” com material adicional. Ou seja, essa é outra linha de possibilidades para futuras edições?
Sim a ideia de expandir o corpo de trabalho? Sim, é uma possibilidade...

Podiam ter optado por lançar caixas temáticas com material do arquivo... Mas optaram antes por lançar discos num formato mais clássico...
As pessoas consomem hoje em dia música de formas muito diferentes. E é bom poder ter a opção de editar singles ou álbuns ou de ter outras coisas em streaming... As possibilidades são relativamente infinitas, por isso é uma boa paisagem aquela em que estamos a trabalhar.

Um dos mitos do arquivo 'The Vault' é o que conta que ali estarão as sessões que Prince gravou com Miles Davis. Estão por lá? Existem?
Isso é algo a que, especificamente, eu não posso responder. Pode usar a sua imaginação e interpretar a minha resposta como entender... Mas há lá muita coisa...

Acabado de construir, o estúdio de Paisley Park - casa de Prince - em 1988

Acabado de construir, o estúdio de Paisley Park - casa de Prince - em 1988

Getty Images

Descobriu coisas sobre Prince que eventualmente não conhecesse antes de começar a trabalhar com este arquivo?
Uma resposta curta é um sim! Estou a encontrar diariamente coisas de que não estava à espera. Ou material que não sabia que existia, ou versões diferentes ou a possibilidade de observar o seu processo criativo a que possivelmente poucas outras pessoas tiveram acesso... Mas o que mais tiro de todo este processo é uma constatação de como era gigante a sua criatividade. Não apenas pela quantidade do material, mas também pela forma como sabia lidar com os instrumentos, as máquinas. Ele tocava... E produzia, gravava, fazia arranjos, escrevia... E fez isto durante a maior parte da sua vida. E frequentemente ele e o técnico eram as únicas pessoas que estavam no estúdio. Ao juntar os temas que ouvimos neste novo disco notei quão bons são os takes vocais de Prince. Em muitas das gravações que encontramos no novo álbum a sua voz era suposto ser apenas uma voz-guia. Para depois dar ao outro artista uma ideia do que devia cantar. E isto eram coisas de um take, que aconteciam em tempo real. E muitas são melhores do que muitos outros artistas atingem em muitos takes... O que ele fazia em frente a um microfone, em três minutos e meio, é espantoso. Era um artista completo. E tinha um magnetismo que muito poucos artistas possuem. Manteve aquela aura em seu redor até à hora da morte... Foi notável o que conseguiu fazer.

Tecnicamente, o que pode dizer destas gravações? Havia um técnico a gravar, mas a produção era determinada por Prince...
Ele tinha uma visão muito clara de como queria que as coisas soassem. Muita gente pensa em Prince como um perfecionista. Mas não era o caso. Ele era um homem que colocava mais ênfase na entrega emocional. Preocupava-se mais com o impacte emocional do material gravado, com a credibilidade do que estava a fazer, se era algo que ia conseguir envolver quem depois o escutasse, do que com o facto de estar tecnicamente correto. E isso creio que é o que mais importa quando se fala de arte: como afeta as pessoas, como as emociona.