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Halsey em Londres

Intempestiva, carismática e dedicada: Halsey quis mimar os fãs com um concerto especial em Londres. E nós estivemos lá

Ao longo de mais de duas horas suadas e emotivas, a artista norte-americana provou que não é uma estrela pop como as outras

Apesar de só recentemente ter visto os seus esforços reconhecidos nas tabelas de singles, com o mega-êxito ‘Without Me’, a norte-americana Halsey tem vindo a mover-se, nos últimos quatro anos, de forma confiante e ascendente no campeonato pop. A cantora de 24 anos não é, contudo, uma estrela convencional: influenciada pela estética emo, com o rock e o hip-hop sempre à espreita, consegue tão facilmente dar voz a um tema dos Chainsmokers prontinho para agitar as pistas de dança como gritar a plenos pulmões que é um verdadeiro pesadelo. Vimo-la em Londres, num concerto especial para fãs na “acolhedora” sala Electric Ballroom e, ao longo de mais de duas horas, assistimos à mudança de pele de uma nova Halsey.

A fila para a sala de espetáculos de Camden quase dava a volta ao quarteirão - a chuva caía forte, mas nada que tivesse impedido os fãs mais dedicados de passar dois dias ao frio para garantir um lugar privilegiado - e a moldura humana já estava bem composta quando entrámos na sala de espetáculos. Halsey pode ainda não ser o nome em que pensamos quando falamos de grandes nomes da pop em 2019, mas, com dois álbuns editados, já tem uma admirável coleção de canções. ‘Castle’, tema que abre o primeiro álbum “Badlands”, mostra logo no início do concerto que a persona de palco não encaixa em coreografias bem ensaiadas: intempestiva, envergando indumentária roqueira e acompanhada de uma banda encorpada, transborda carisma do pequeno palco.

“Vou certificar-me de que este é o melhor concerto das vossas vidas”, promete depois de instigar a plateia a mostrar que tem pulmões para a acompanhar, “sei que alguns de vocês estiveram dois dias à chuva para me ver. Não consigo explicar o que isso significa para mim”. Equilibrando-se entre as explosões controladas de ‘Hold Me Down’ e a sedução de 'Eyes Closed’, atira-se de corpo inteiro a ‘Nightmare’, um novo single que parece servir de introdução a uma nova fase, mais aguerrida. Com headbanging assertivo, o hino feminista - “No, I won't smile, but I'll show you my teeth” - parece, de resto, contagiar os arranjos das outras canções, com a bateria e a guitarra a ganharem uma força que nunca sentimos nas gravações de estúdio.

Seguindo com o coração na garganta no ritmado ‘Heaven in Hiding’ e num ‘Hurricane’ que serve para nos relembrar que “só pertencemos a nós próprios”, Halsey coloca, então, o chapéu de ativista. Envergando uma t-shirt com a fotografia do casal lésbico recentemente agredido num autocarro londrino, Halsey dedica uns bons minutos aos fãs LGBT - recorde-se que a própria se assume bissexual - “é preciso criarmos espaços seguros. Este concerto é um lugar seguro”. Puxando da bandeira arco-íris, depois de incitar os seguidores a gritarem com ela: “não vou ter medo”, entra a pés juntos em ‘Strangers’, dueto com Lauren Jauregui, das Fifth Harmony, que transpira lascívia.

“É engraçado que, como só tenho dois álbuns, esta já é considerada uma canção velha”, exclama depois de ‘Colors’ servir de introdução para um dos picos da atuação: ’New Americana’, o single que a tornou conhecida em 2015, é elevado a hino. “Pus uma sala inteira de miúdos ingleses a cantar que são a ‘new americana’”, atira no final, divertida, “na verdade, tem mais a ver com quem somos do que de onde somos”. ‘Bad at Love’ mantém as cordas vocais bem afinadas. “Quantos de vocês vieram cá para me ouvir tocar as canções que passam na rádio?”, provoca, antes de quebrar o ritmo com ‘Alone’ e a balada ‘Sorry’… “Rapaziada, só estamos a começar”.

Sempre atenta ao que se passa fora de palco, Halsey resolve fazer uma pausa depois de se entregar a uma intensa ‘Don’t Play’… “Vamos esperar alguns segundos, OK? Quero água para aqui”, explica depois de se aperceber que alguém se está a sentir mal, perto do palco, “eu disse que ia tocar todas as canções que pudesse, até desmaiar. Era eu, não vocês!”. Com uma orelhuda ‘Devil in Me’ começa a preparar as despedidas. “Estão todos bem?”, questiona, “quero fazer uma coisa mas tenho de saber que estão bem”. E volta à explosão de ‘Nightmare’, pela segunda vez, fincando bem os dentes num novo single que instiga ao motim. “Sabe bem, não sabe?”, pergunta no final, “temos de reconhecer a nossa capacidade de sermos duros mas também vulneráveis. Gosto muito de subir ao palco e fingir que sou um pesadelo, mas a verdade é que não sou sempre assim, também sou sensível”.

O fôlego já começa a ser pouco, mas o coro generalizado de ‘Young God’ abre espaço para a entrada de um convidado especial. Yungblud, namorado da artista, sobe ao palco, aguerrido, para o dueto ’11 Minutes’. “Estou com ela todos os dias e sei o que vocês significam para ela”, exclama o músico inglês, “são família”. Faltava ainda, claro, o sucesso ‘Without Me’, cantada a meias com uma plateia enamorada, “mais importante do que a minha música passar nas rádios é a ligação que tenho com vocês”. Já com o lume a perder intensidade, ‘Gasoline’ coloca um definitivo ponto final numa atuação suada, com chuva de confetti e rouquidão na voz. “Vejo-vos em breve”.

Instagram Halsey

Alinhamento

‘Castle’
‘Hold Me Down’
‘Eyes Closed’
’Nightmare’
‘Heaven in Hiding’
‘Hurricane’
’Strangers’
‘Roman Holiday’
‘Colors pt. II’
‘Colors’
'New Americana’
‘Walls Could Talk'
‘Bad at Love’
‘Alone’
‘Sorry’
‘100 Letters’
‘Good Mourning’
‘Lie’
‘Don’t Play’
‘Devil in Me’
‘Nightmare’
‘Is There Somewhere’
‘Young God’
'11 Minutes’ (com Yungblud)
‘Without Me’
‘Gasoline’