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Ruben de Carvalho

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Morreu Ruben de Carvalho, um corajoso

Pertence ao estrito grupo dos que fizeram avançar a música popular em Portugal: organizou o primeiro festival português quando ainda não existiam festivais e teve a coragem de desfraldar a bandeira do fado, que dominou como poucos

Quem o excluir do estrito grupo dos que fizeram avançar a música popular em Portugal, por ter pertencido e dado a cara pelo Partido Comunista Português, está a cometer um erro que impede entender a importância de Ruben de Carvalho. Pois se alguém foi capaz de romper os apertados limites impostos pela filosofia do PC – que ao exacerbar uma certa escola do neo-realismo enquanto cultura única e totalitária limitou o surgimento, até hoje, de uma verdadeira cultura operária, aliás plasmada na polémica entre Mário Dionísio e Álvaro Cunhal – esse alguém foi Ruben de Carvalho.

Por isso, cabe aqui relembrar a importância de Ruben na organização da Festa do Avante, o primeiro festival português quando ainda não existiam festivais. Foi lá que, a partir de 1976, atuaram os nomes menos ortodoxos para a ideologia dominante do PC como Archie Shepp, Tete Montoliou, Judy Collins, toda a caravana da música brasileira ou mesmo os Dexys Midnight Runners. A música portuguesa tinha também lugar garantido, sobretudo quando era capaz de investir contra o status quo. Ruben de Carvalho era um enorme conhecedor dos blues, do jazz, da música popular norte-americana e, claro, da portuguesa.

É indispensável por isso abrir um novo parágrafo para falar de fado, que ele dominou como poucos, quando este ainda era considerado uma coutada da direita. Foi pioneiro, não só porque conhecia e respeitava como poucos a obra de Ary dos Santos, autor da letra de vários fados, mas essencial nos mais brilhantes trechos interpretados por Carlos do Carmo. Mas também porque foi quem soube elevar o papel de Alain Oulman, autor da música dos obras maiores de Amália, como até então poucos ousavam. Apesar do seu protagonismo na discografia de Amália, ou mesmo na luta contra o regime do Estado Novo, a biografia de Alain Oulman permanecia desconhecida até há bem pouco. Ruben sabia-a de uma ponta a outra.

Não se acredite, contudo, que a defesa que fez do fado era, mesmo nestes moldes, tarefa fácil para um comunista. Fernando Lopes Graça e Michel Giacometti, enquanto criadores de uma estética musical genuinamente portuguesa, dela expurgaram o fado. Desse ponto de vista, o fado era sinónimo da velha fidalguia, de um empedernido reaccionarismo ou mesmo uma prática dissolvente que impedia o esforço revolucionário. Esqueciam assim a história dos anarco-sindicalistas, da verdadeira rádio do povo, das letras apreendidas pela censura ou da obrigatoriedade imposta aos guitarristas de usar carteira profissional. Obliterava-se o tempo em que o fado ainda não tinha sido capturado pela máquina de propaganda de António Ferro. Ruben foi quem, por instinto ou inteligência, teve a coragem de desfraldar essa bandeira. Que descanse em paz.