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The Mystery of the Bulgarian Voices feat. Lisa Gerrard

O mistério de Lisa Gerrard, de regresso com as Vozes Búlgaras. “O que sinto em Portugal é um amor antigo”

Esta terça-feira subirá ao palco da Casa da Música, no Porto, para uma apresentação do trabalho que realizou no ano passado com o coletivo The Mystery of the Bulgarian Voices. Seguem-se espetáculos na Aula Magna (Lisboa), na quarta, e no Theatro Circo (Braga) na quinta. A voz dos Dead Can Dance falou connosco sobre este projeto a que dá voz, mas também dos recentes concertos com a banda de sempre e de música para cinema

Ainda recentemente o público português a aplaudiu efusivamente na sua apresentação com os Dead Can Dance, o seu grupo de sempre que criou no arranque dos anos 80, na Austrália, com Brendan Perry, com quem trabalha até hoje. Agora, vai poder voltar a magnífica voz de Lisa Gerrard numa apresentação especial com o mítico coletivo Le Mystère des Voix Bulgares (The Mystery of the Bulgarian Voices): primeiro na Casa da Música, no Porto, esta terça-feira; depois na Aula Magna (Lisboa), quarta, e Theatro Circo (Braga), quinta.

As recolhas que o musicólogo e editor suíço Marcel Cellier fez nos anos 70 e 80 ganharam dimensão internacional quando foram relançadas por Ivo Watts-Russell como parte do catálogo da sua aclamada 4AD, editora dos Dead Can Dance, Cocteau Twins ou This Mortal Coil. Lisa Gerrard assume esses lançamentos da 4AD ainda durante os anos 80 como uma decisiva influência na sua forma de cantar e em 2018 pode finalmente cumprir um sonho antigo ao gravar "BooCheeMish" com a mais recente versão desse coletivo que mantém vivo o mistério de uma particular tradição búlgara de canto coral. A cantora falou à BLITZ sobre o mistério destas vozes, sobre o que significa trabalhar com elas, o “amor antigo” que os Dead Can Dance inspiram ou o seu trabalho com Hans Zimmer.

Lembra-se de quando ouviu pela primeira vez as gravações que conhecemos como Le Mystère des Voix Bulgares?
Meu Deus, há muito tempo... Há-de ter sido por volta de 1984, talvez. Elas iam tocar a Londres e o Ivo Watts-Russell preparava-se para editar um dos seus trabalhos já existentes. Ia reeditar esse material. Ele tinha bilhetes para ir ver o espetáculo e ofereceu-me um par deles - foi essa a primeira vez que as ouvi cantar. Foi muito especial, muito especial mesmo: as vozes eram espantosas, fui completamente arrasada pela energia que se soltava do palco. Lembro-me de pensar que queria aprender a cantar assim, porque nunca tinha ouvido ninguém cantar daquela maneira. Elas influenciaram o meu estilo de canto, não tenho dúvidas nenhumas. Fui para casa e escrevi a primeira metade de “The Host of Seraphin” e depois o Brendan [Perry, o outro membro fundador dos Dead Can Dance] acrescentou umas partes, eu fui para Espanha e só aí concluí a peça. Um trabalho muito influenciado pelas Voix Bulgares, sobretudo a primeira parte da peça.

O seu percurso desde os anos 80, entretanto, foi vasto, cobriu muitas áreas, implicou muitas colaborações, mas o seu encontro com esta influência primordial só o ano passado se materializou com a edição de "BooCheeMish". Porque demorou tanto a colaborar com Le Mystère des Voix Bulgares?
Na verdade, eu nunca tinha pensado em colaborar com elas, para mim era um sonho. Um amigo meu, Jules Maxwell – toca teclados nos Dead Can Dance – foi convidado para o projeto do novo disco das Voix Bulgares, porque eles andavam à procura de compositores, e foi ele que lhes sugeriu o meu nome: “já ouviram falar na Lisa Gerrard?”. Eles conheciam-me por causa da minha voz, mostraram-se interessados e eu, claro, disse logo que sim. O Jules veio à Austrália, escrevemos umas peças para elas cantarem e tudo começou assim. Depois fomos a Sofia, na Bulgária, e gravámos as peças com o Petar Dundakov, o produtor, que nos ajudou. A Dora Hristova, a maestrina do coro, estava lá e foi uma ajuda incrível, com a comunicação e na montagem das peças. O material já mudou entretanto, porque já ando a trabalhar com elas há três anos e estou a trabalhar em novo material com elas. Esta música está sempre a evoluir. E depois há também o baterista, David Kuckhermann, que tem trabalhado com os Dead Can Dance, por isso quase que nos tornámos uma família, somos muito íntimos.

Desejava muito trabalhar com elas?
É um sonho que se tornou realidade. Se aos 23 anos, quando as vi a primeira vez, alguém me dissesse que viria a fazer parte desse mundo, eu não teria acreditado. Para mim, elas eram de outra esfera, intocáveis. Londres naquele tempo não era um lugar feliz, tinha havido uma série de confrontos, tinha-se saído de uma guerra com a Argentina, eram tempos muito negros, com uma energia muito negra. A música reflectia isso, era depressiva. Eu tinha sido educada num ambiente irlandês e havia sempre muita música que embora pudesse ser comovente, nunca era deprimente. Quando me liguei ao Brendan, ele era mais ligado a coisas como os Joy Division, mas eu não tinha essas referências. Fiquei tão feliz quando ouvi as Voix Bulgares porque havia alegria e luz nas vozes delas. Não sei se teria sido capaz de sobreviver a Londres, se teria sido capaz de lá viver muito tempo porque o meu trabalho não era em torno da escuridão. Era sobre a luz, o amor e a capacidade de tocar a alma das pessoas. Foi assim que fui educada, a cantar desde os meus quatro anos de idade. Londres percebia melhor o Brendan e o que ele fazia do que eu mesma; eu confundia Londres um pouco. Por isso foi importante que a 4AD tenha editado o Le Mystère des Voix Bulgares, porque elas levaram muita luz e energia a essa era. E tiveram muito sucesso, ganharam um Grammy, o que significa que as pessoas se ligaram à música. Elas são incríveis, lindas, adoro-as como pessoas, são espantosas.

Ao longo destes anos, tendo estudado a música delas, tendo trabalhado com elas, já conseguiu resolver o mistério?
Bem, se falar com a diretora do coro, a Dora, ela vai explicar que o mistério tem a ver com a fisiologia destas pessoas, das suas vozes. Elas começam a cantar muito cedo, fazem exercícios muito específicos e isso causa diferentes nuances físicas. Tal como acontece com os coros de gospel afro-americanos, por exemplo, que também têm diferenças fisiológicas por causa da forma como treinam a voz. Tem a ver com determinados músculos que diferentes sons estimulam. Na verdade, a voz ocidental tem mudado por causa do uso de microfones: conseguem ser terríveis para as vozes porque condicionam o desenvolvimento de certos músculos que ajudam na projeção. Elas fazem um trabalho diferente. Depois, durante o período de ocupação otomana, para que a sua cultura sobrevivesse, elas viviam sobretudo nas montanhas e comunicavam através do canto, enviando mensagens escondidas através desse meio. Aliás, nos bordados das roupas eram igualmente incluídas mensagens secretas. É uma cultura cheia de segredos que foram necessários para a sua sobrevivência. A música delas vive de um drone particular que tem a ver com divisão de notas. Uma coisa quase matemática, mas elas fazem isso intuitivamente, culturalmente, sem esforço. Tenho um amigo chamado Patrick Cassidy, um compositor, que faz música incrível e que, por vezes, me diz que para realmente compreender as peças dele há que perceber a sua matemática. Mas eu não percebo de matemática, sou mais como estas vozes búlgaras, não conto os tempos, só canto.

Fale-nos do concerto: há um beatboxer em palco?
Ele é incrível. Consegue fazer ritmos muito modernos, coisas contemporâneas, mas o SkilleR é búlgaro e, por isso, consegue adaptar-se aos tempos da música tradicional do seu país. Ele faz beatboxing de uma forma folclórica e búlgara (risos), o que é incrível. Ele é mesmo fantástico e vale a pena ir ao concerto só por causa dele. Adoro-o, é uma criatura extraordinária, é como uma orquestra ou uma secção inteira de percussão. Consegue fazer tudo, faz atmosferas. Ele consegue soar a uma floresta...

Esteve em Portugal recentemente com os Dead Can Dance. O concerto correu bem?
Meu Deus, o que sinto aí é um amor antigo. Eu e o Brendan começámos isto quando ainda éramos crianças e fizemos muitos concertos sem dinheiro, por isso as pessoas que nos descobriam sentiam que éramos um tesouro raro, porque chegavam até nós sem publicidade, sem marketing. As ligações foram sempre muito fortes, por isso, muito antigas. E os novos públicos costumam chegar até nós porque há gente que nos adora, nunca por causa da publicidade. É isso que torna a nossa relação com o público tão forte e tão íntima. Encontrámo-nos uns aos outros sem nada ter sido forçado. E é assim em todo o lado, não apenas em Portugal. Mas a reacção do público aí foi muito bonita: sei bem que as pessoas nos recebem sempre bem porque tocamos tão pouco que elas nunca sabem se será a última vez que nos veem (risos).

Conhece a nossa música? Amália, Carlos Paredes...
Adoro fado, mas não lhe consigo falar de nomes. Se estivesse a falar com o Brendan seria diferente, porque ele investiga todas estas músicas a sério. Gosto de ouvir fado, as peças são muito comoventes, adoro o drama das guitarras, mas nunca me dediquei o suficiente para conhecer artistas individuais. Mas não é apenas com a música portuguesa; na verdade não ouço muita música. Passo o tempo a compor música, e isso toma-me muita energia. Agora trabalho com uns seis compositores diferentes e tenho que compreender muito bem o trabalho deles. É complicado. E depois há todos os projetos em que me envolvo, o meu trabalho para cinema.... Não me sobra muito tempo. O pouco que sobra eu gosto de passar em silêncio, para descansar o cérebro. Aconteceu-me uma coisa recentemente: durante a digressão dos Dead Can Dance, todo o tempo livre que eu tinha era para trabalhar nas peças das Voix Bulgares e nalguns concertos dei por mim a adotar alguns tempos das peças búlgaras, mas não posso fazer isso nos Dead Can Dance... É muito difícil. Ainda há os concertos com o Hans Zimmer.

Está ocupadíssima...
Adorava ter tempo para desaparecer um bocado, investigar músicas escondidas de vários pontos do mundo, e fazer um álbum. Talvez pudesse ter fado também. Tem que me dizer de novo os nomes que mencionou há pouco... Bem sei que estou a falar de fazer uma pausa e a minha ideia de pausa seria fazer outro projeto, mas como eu digo ao Brendan, sou uma cantora e não sei fazer mais nada. É quem eu sou. Eu sou a música.

Surpreende-a o sucesso de Hans Zimmer? Ele vem da música para cinema, mas é uma espécie de superestrela...
Sempre disse ao Hans que ele deveria fazer concertos. Ele está sempre no estúdio, há 40 anos que faz isso. A algumas das mais incríveis peças que ele escreveu não feita justiça nos filmes, porque não as podemos ouvir em toda a sua extensão. Às vezes, com os efeitos sonoros e diálogos, quase nem se ouve. Mas é importante que consigamos todos, nós, o seu público, escutar as suas obras. Os concertos são maravilhosos por isso. Ele aí pode tocar guitarra e teclados, ser parte de algo fora do seu estúdio e ser aplaudido por um público que é imenso. Os músicos que ele leva para os concertos são simplesmente incríveis, de topo mesmo.

Os bilhetes para os espetáculos custam €32 no Porto; entre €28 e €37,50 em Lisboa; €25 em Braga