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Luís Severo

Rita Carmo

Chegou a primavera do 'puto' Luís Severo. Falámos com o músico que só consegue dormir quando sabe que fez uma boa canção (e ainda bem)

São 26 anos de segurança e maturidade que Luís Severo apresenta, ao falar de “O Sol Voltou”, o seu novo disco, construído com o perfecionismo e o carinho habituais. Ao seu terceiro álbum, nascido nos Açores, o músico de Lisboa sente que já não precisa de “falar tão alto”

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

É entre os instrumentos e amplificadores da sala 2 dos estúdios da Cuca Monga, em Alvalade, que Luís Severo nos recebe para uma conversa sobre o novo “O Sol Voltou”. O disco, eminentemente acústico, chegou às plataformas de streaming em meados de maio e, passados poucos dias, já o B.Leza, em Lisboa, se enchia para cantar as novas canções (e muitas das antigas, que continuarão a fazer parte dos alinhamentos, também). À conversa com a BLITZ, Luís Severo fala com a segurança de um veterano.

Este estúdio já é uma segunda casa para si...
Em muitas fases, a minha casa é que será a segunda casa! Passo aqui muito tempo quando estou a fazer discos.

Quanto tempo durou a 'hibernação', desta vez?
Vim para aqui em outubro ou novembro e fiquei até março. Mas houve períodos em que estive aqui 12 horas ou 15 horas. Foi bastante intenso. Quando há partes que não estão a correr bem, acontece-me uma coisa horrível: não consigo ter sono.
E, quando durmo, sonho com o que estive a fazer! Tenho essa ânsia, mas com o passar dos anos começo a conseguir fazer uma gestão melhor dessas impaciências.

Isso terá a ver com fazer tudo sozinho: tocar todos os instrumentos, gravar, tratar do som?
Até certo ponto, sim. Primeiro, houve uma fase de recolha de frases e acordes e ideias, em que tentei perceber o que é que me apetecia fazer. Passei o ano de 2017 a pensar para onde ia, mas sem qualquer canção finalizada. Depois, no início de 2018, vou para os Açores, para o Centro de Artes Contemporâneas Arquipélago, e peguei em toda a tralha que tinha: eram muitos blocos de notas, cheios de frases, e muitos acordes soltos, no dictafone do iPhone. Pensei que não podia continuar a acumular tralha e que tinha de entender aqueles impulsos todos - no fundo, foi um ano de impulsos. Foi aí que comecei a compor; estive esse ano a compor e a fazer os arranjos em casa. Compus as bases - as guitarras acústicas, clássicas, elétricas e o piano - e por cima fiz camadas de sintetizadores; este disco tem uma componente acústica muito forte, mas tudo o que foi posto por cima é digital. Quando venho para o estúdio é que as músicas começam a ter contacto com outras pessoas. Toquei tudo, fomos editando, montando, e depois chega a fase final, em que eu, com a ajuda das pessoas que vêm cá ao estúdio, [finalizámos as canções]. Essa fase é que foi a fase de menos sono. Todo esse lado dos impulsos, até romântico, já estava feito, e era necessário que as coisas fossem fechadas com alguma ciência. Essa foi a parte mais difícil, porque nunca tinha feito as coisas sozinho, mas depois acabei o disco e foi uma festa!

Da última vez que falámos, tinha acabado de chegar dessa residência nos Açores. Foi de lá que trouxe as canções novas?
Muitas estão neste disco, sim.

O ambiente mais calmo dos Açores - pelo menos por comparação com o de Lisboa - acabou por influenciar a sonoridade bucólica deste disco?
Quando soube que ia para lá, fiquei contentíssimo. Nunca tinha tido essa oportunidade e foi fantástico. E o centro de artes contemporâneas é um sítio calmo e é bom: o piano era bom, o som era bom, a sala é boa, aquilo é bom. Não vou dizer que inspirou completamente porque eu já tinha a consciência, não muito intencional, de que queria falar de outras coisas; a um disco tão vincadamente marcado pela questão da cidade [o segundo], pelo menos na opinião das pessoas, sabia que me ia apetecer falar de outras coisas porque eu próprio tenho ligação a outros sítios que não Lisboa. Os Açores foram o sítio onde tudo isso pôde acontecer de uma forma autêntica.

Por comparação com o disco anterior, estas canções seguem numa direção mais folk...
Eu ouço muita música folk: não tenho essa estatística feita, mas uns 80% da música que eu ouço serão pessoas a tocar numa viola acústica e a cantar coisas. E sempre tinha achado estranho nos meus discos isso não ser uma coisa assim tão vincada. Mas, quando estou em estúdio, também tenho o lado de: “e se eu tentasse pôr mais isto e aquilo?” Há essa oposição entre gostar muito de acrescentar coisinhas e gostar muito de música folk e despida. O que tentei encontrar neste disco foi um compromisso.

Da última vez que falámos, andava a ouvir repetidamente o “Carrie and Lowell”, do Sufjan Stevens...
Ainda ouço. O “Carrie and Lowell” influenciou-me muito, sendo que só o ouvi uns meses depois de ter saído, e é muito difícil não voltar lá. Se influenciou alguma coisa? É possível, não acho que o meu disco soe a Sufjan Stevens, mas se calhar ajudou-me a encontrar algumas coisas.

Nessa altura falámos também da estética do disco, nomeadamente do som das guitarras e das “dobras” que lhe aplica. Desta vez, não apostou tanto nesses efeitos?
Sim, este disco tem menos dobras. Como eu queria que a temática fosse de descompressão, fez-me sentido descomprimir também na estética. É um disco menos saturado, em que o som está mais limpo e mais próximo da sua naturalidade. Também acho que é menos plastificado. Apesar de tudo, consegui manter alguma coisa do som dos outros discos - os truques e vícios que tenho enquanto fazedor do seu som -, mas sem dúvida que há um afastamento daquela estética do segundo álbum. Tinha de ser.

Quantos instrumentos toca, afinal?
Toco guitarras, acústica, clássica e elétrica, e piano. De resto foi tudo piano: as partes sintetizadas são tocadas no piano e vão para o computador, são tudo coisas midi. Não tenho nenhum problema em assumir isso: o disco é totalmente midi, exceto o que é nítido que foi tocado acusticamente. Os baixos, a percussão, é tudo sintetizado.

É um disco mais digital que o anterior?
Sim, apesar de ter muita coisa analógica. Tentei ir para o analógico apenas quando quisesse realmente essa estética. Na verdade, as coisas analógicas vão sempre juntar alguma sujidade, e como neste disco queria ter algum controlo sobre a sujidade, tentei que ela chegasse só quando eu quisesse que ela estivesse lá, e não que fosse uma consequência do método em que eu estava a atuar.

No texto de apresentação, diz que este disco é mais amor e menos paixão...
Acho que o meu 'auditório', que começa a acompanhar-me, já [me permite] que vá com mais calma. Já não preciso de ser tão imediato, não preciso de falar tão alto para que me oiçam: e sabe bem sentir isso. Este disco é isso: fazer as coisas com outra calma, mas proporcionar às pessoas uma viagem diferente. E esse é o lado do disco com que estou mais satisfeito: sinto que oferece uma viagem mais especial que as dos outros discos que já fiz. É um disco mais no sentido clássico; os outros eram um conjunto de canções que eu ia fazendo. E sim, acho que tem mais silêncio que todos os outros, mas é algo de que também precisava. Tem mais silêncio e acho que se nota que eu não tenho tanta pressa em cantar. Nos últimos anos, toquei muito ao vivo, e senti que cada vez mais as pessoas ouvem aquilo que eu canto. Inevitavelmente, isso dá-me uma calma diferente e uma felicidade boa.

Ouvem e cantam consigo!

Depende do contexto! Nos teatros cantam menos, nos ambientes de festa cantam mais, e não só cantam como berram.

Luís Severo no Super Bock Super Rock'18
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Luís Severo no Super Bock Super Rock'18

Rita Carmo

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Diz também que é o seu disco mais confessional até agora...
Toda a estética está mais nua: a voz está mais alta e impositiva, não tem dobras, não tem muitos coros, é o que é. Está bastante despida e só o facto de me apresentar em disco, a cantar só com um take, sem autotune... só por isso acaba por ser mais confessional, porque sou muito mais eu quando canto nestas moldes. E também tentei que as letras tivessem menos artimanhas. Quando queria dizer alguma coisa, em vez de pensar que voltas ia dar para dizê-la, pensei: qual a forma mais direta para dizer isto e soar bem? Acho que é isso que faz com que o disco seja mais confessional, a forma e não o conteúdo.

Esse é um discurso de segurança e maturidade...
Espero que sim! Se não tiver evoluído nada, é mau sinal. Não me considero uma pessoa muito adulta, ainda me vejo um bocado como um puto. Mas espero estar mais adulto do que há quatro anos. Espero eu, esperam os meus pais… (risos)

Chegou a dizer que, sendo músico, chega a ter mais estabilidade do que os seus antigos colegas de curso (de Sociologia)...
Isso é que é triste! Toda a tua vida ouves: “a música não, mais vale teres uma coisa estável!”. Mas depois começas a ver que não há muita estabilidade em nada, infelizmente. Espero que as coisas mudem um bocadinho. Mas a quantidade de pessoas à minha volta que não estão numa situação estável é estranha. E obviamente que isso há de alterar a própria conceção de vida adulta e família, muito em função da situação económica em que as pessoas vivem. Mas essa é uma longa conversa.

E essas dificuldades acabam por adiar também a autonomia e a saída de casa de muitos jovens adultos...
Antes de mais, tenho de confessar que tenho uma situação arrendatária muito simpática, da qual não me apetece falar para que não mude muito. E tenho tido a sorte de as coisas correrem bem. Na verdade, também sou muito poupado. Não vou dizer que é fácil, porque já tive muitos momentos… Acho que a última fase mais complicada que tive foi antes de acabar o outro disco, o segundo. Tive meses em que não tinha mesmo dinheiro nenhum. Mas tinha a casmurrice de acabar o disco, porque já estava a ser feito. Vinha todos os dias para aqui a pensar: “então e hoje, o que é que vou jantar? OK, tenho estes 5 euros, vou comprar uma pizza, siga!”. Mas o segundo disco correu bem e não vou ser falso, pois felizmente nunca mais estive nessa situação. Tenho fases mais complicadas, em que tenho de ter calma e fazer uma gestão mais rígida do que tenho, mas nunca mais estive nesse ponto de: “como é que eu faço hoje?”. De cada dia ser uma incógnita. Isso nunca mais tive, e é bom.

Luís Severo nos estúdios da Cuca Monga, com a sua cadela Nico

Luís Severo nos estúdios da Cuca Monga, com a sua cadela Nico

Em 2018, dizia-nos que, dos cantores de intervenção portugueses, o seu favorito é o José Afonso. Neste disco, a canção 'Cheguei Bem' remete para a obra dele...
Por acaso um colega seu associou essa canção ao Fausto, se calhar porque há um universo comum entre eles! Eu posso ter dito que o Zeca Afonso é o meu favorito, porque é o que ouvi mais, mas também ouço muito o José Mário Branco e o Fausto, e neste disco ouvi-os muito. E também o Zeca. Mas o José Mário Branco acaba por ser o que eu mantenho sempre. E neste disco ouvi muito aquele disco dele ao vivo de 1997, e eu nem sou muito de discos ao vivo... Por acaso, no Spotify há imensas músicas do José Mário Branco que têm o nome trocado. É uma confusão! Já há músicas que eu já chamo pelo nome errado, é consoante o que está mal no Spotify.

Tem escrito para outros cantores, como já fez para a Cristina Branco?
Ainda não posso falar muito disso! Ando a falar e aconteceu, mas nunca sabes se vai para a frente; no fundo é como um casamento, e para que um casamento corra bem, é preciso que [o acordo] seja dos dois lados. Pode não encaixar!