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“Fiquei encantado pelas letras e pela presença de espírito político”. O brasileiro Luca Argel apresenta homenagem a José Mário Branco

Com participações de Camané, JP Simões, Ermo ou Batida, entre muitos outros, “Um Disco para José Mário Branco” chega às lojas a 24 de maio, um dia antes de o homenageado celebrar o 77º aniversário. Luca Argel, brasileiro a viver no Porto, é o intérprete do primeiro single e falou à BLITZ de uma figura tutelar, que conheceu na chegada a Portugal

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Chega a 24 de maio “Um Disco para José Mário Branco”, conjunto de 16 canções do veterano músico português, reinterpretadas por artistas de várias gerações e até nacionalidades.

No álbum idealizado pela editora Valentim de Carvalho figuram jovens promessas da música nacional, como Primeira Dama ou Ermo, mas também os consagrados Camané e JP Simões, Ana Deus (com os Osso Vaidoso) e Peste & Sida.

Os norte-americanos The Walkabouts e o brasileiro Luca Argel, cantor-compositor do Rio de Janeiro a viver no Porto desde 2012, são os dois convidados internacionais de um projeto que se propõe a destacar “a atualidade e urgência do legado” de José Mário Branco.

Em conversa com a BLITZ, Luca Argel, que este ano lançou o álbum “Conversa de Fila”, explicou que foi ele a “convidar-se” para este disco de homenagem.

Foi uma coisa muito espontânea!”, recorda. “A Ana Deus, com quem tenho um projeto, viu no Facebook que a Valentim de Carvalho estava à procura de bandas para este projeto. Ela ia mandar uma versão e perguntou-me: 'porque não fazes uma também? Talvez eles curtam, não deve haver mais nenhum brasileiro'”.

Escolher a canção a gravar foi simples, pois há vários anos que Luca Argel “namorava essa música ['Queixa das Almas Jovens Censuradas']. Acho o tema muito parecido com um do Milton Nascimento, que se chama 'E Daí'”. Em comum, considera, as canções têm “uma letra super densa e dura” (a cantada por José Mário Branco é de Natália Correia, a de Milton Nascimento saiu da pena de Ruy Guerra) e também alguns “elementos melódicos”.

Editada originalmente em 1971, 17 anos antes de Luca Argel nascer, 'Queixa das Almas Jovens Censuradas' não perdeu, na sua opinião, qualquer premência.

A canção tem quase 50 anos mas é super atual. Não é difícil relacioná-la com os dias de hoje, podia ter sido escrita ontem”, diz o músico carioca que se estabeleceu no Porto há quase sete anos e encontrou o país num ambiente de contestação política. No vídeo de 'Queixa das Almas Jovens Censuradas', usam-se imagens de uma grande manifestação contra a troika; Luca não foi a essa, mas participou numa outra, com a sua guitarra e o amplificador, enquanto os amigos “faziam barulho com ossos de boi”.

Pouco antes de Argel se mudar para Portugal, José Mário Branco deu um concerto numa “espécie de okupa anarquista chamada Casa Viva” onde o brasileiro viria, também, a atuar. Ouvindo as histórias por detrás desse evento especial (“Através de amigos muito próximos que estiveram na organização do concerto, imaginei-o acessível, simpático, aberto a colaborar de forma humilde”), Luca Argel conheceu primeiro a figura política, depois o músico.

“Fiquei encantado, primeiramente, pela inteligência das letras e pela presença de espírito política, embora talvez já estivesse condicionado pelo que sabia dele. Conheci-o primeiro como ativista, depois como artista”, recorda. “Ao aprofundar o conhecimento da sua obra, percebi que a parte musical também é incrível. É um artista muito completo, com composições elaboradas, arranjos lindos, harmonias muito bonitas”.

Luca Argel nasceu no Rio de Janeiro e vive no Porto desde 2012

Luca Argel nasceu no Rio de Janeiro e vive no Porto desde 2012

Quanto a encontrar congéneres de José Mário Branco no Brasil, Luca Argel responde que “é difícil encontrar correlatos exatos. O Brasil não teve um 25 de Abril, ou seja, o final da ditadura militar não teve uma data. Dos artistas ligados à resistência que me parecem mais próximos do Sérgio Godinho, Zeca Afonso ou José Mário Branco, talvez o mais próximo fosse o Chico Buarque. Mas com muitas aspas”.

Quando aterrou no Porto, o autor de 'Samba Invertido' demorou algum tempo a “tomar o pé à cena musical” da cidade. “Quando chegam a Portugal, os brasileiros geralmente não conhecem nada de música portuguesa. Tive de mapear afetivamente o que ouvia e pensar nos artistas e nas cenas com que me identificava e com quem gostaria de dialogar, diretamente, como no caso da Ana Deus, ou indiretamente, como no caso do José Mário Branco. A sua música influenciou muito a forma como eu escrevo canções”.

O tamanho do Porto ajudou, contudo, Luca Argel a encontrar o seu caminho. “O primeiro concerto que vi do Manel Cruz foi a primeira vez que vi a Ana Deus”, ilustra. “Também lá estavam as Sopa de Pedra... O António Serginho, que é baterista do Manel Cruz, tem outros projetos, o Nico Tricot, que é o seu guitarrista, também toca com a Ana Deus... A cena musical no Porto é uma colcha de retalhos!”. Se noutros pontos de globo se diz que todos estão ligados por seis graus de separação, na Invicta a separação é, para Luca Argel, “no máximo de uma pessoa. De uma banda!”, diz, entre risos.

Os Mão Morta participam com 'Loucura', gravada com o próprio José Mário Branco em 208

Os Mão Morta participam com 'Loucura', gravada com o próprio José Mário Branco em 208

Paulo Cunha Martins

Escritor e mestre em Literatura pela Universidade do Porto, Luca Argel não esconde que a primeira coisa que o “apanha numa canção é sempre a letra”, mas elogia também, aos seus companheiros de compilação, a recriação que os Batida fizeram do clássico 'A Cantiga é uma Arma', com “uma linguagem muito diferente da de José Mário Branco, e a versão de 'Cantiga da Velha Mãe e dos Seus Dois Filhos (Mãe Coragem)', da amiga Ana Deus.

Quanto às diferenças entre o ativismo político a que assiste em Portugal e o que conheceu no país onde nasceu, compara: “No Brasil, o ativismo mudou muito nos últimos anos, transformando-se numa coisa radical e ultranacionalista. Com a subida ao poder de Bolsonaro, as pessoas sentem que têm de reinventar a forma de intervenção popular. Aqui é o contrário: a efervescência parece ter diminuído, arrefeceu. Como se a estabilidade da geringonça tivesse esvaziado a força do ativismo de 2012”.

A capa de “Um Disco Para José Mário Branco”

A capa de “Um Disco Para José Mário Branco”

Veja aqui o alinhamento de “Um Disco para José Mário Branco”, que chega a 24 de maio com a participação do próprio José Mário Branco, em 'Década de Salomé', gravada com os Peste & Sida para o álbum “Tóxico”, por estes editado em 2004, e em 'Loucura', registada com os Mão Morta na compilação “UPA - Unidos para Ajudar”, de 2008. À exceção destes temas, e das versões de JP Simões, Camané, Lavoisier, The Walkabouts, SINGLE e Ruas, todas as versões são inéditas, ou seja, ainda não tinham sido editadas.

1. Luca Argel - Queixa das Almas Jovens Censuradas
2. Marfa - Engrenagem
3. Osso Vaidoso - Cantiga da Velha Mãe e dos Seus Dois Filhos (Mãe Coragem)
4. Batida feat. AF Diaphra - A Cantiga Is The Weapon
5. Primeira Dama - Tiro-no-liro
6. Guta Naki - Canto dos Torna - Viagem
7. Ermo - Eram Mais de Cem
8. JP Simões - Inquietação
9. Camané - Fado Penélope
10. Lavoisier - Eu Não Me Entendo
11. The Walkabouts - Hard Winds Blowin' (Sopram Ventos Adversos)
12. SINGLE - Cantiga Para Pedir Dois Tostões
13. Peste & Sida - Década de Salomé feat. José Mário Branco
14. Ruas - Comboios Parados
15. José Mário Branco e Mão Morta- Loucura
16. João Grosso - FMI