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Blind Zero no Super Bock Super Rock 1995

Rita Carmo

Blind Zero 25 anos: Como uma jovem banda do Porto se transformou numa grande sensação do rock português em apenas 10 meses

Os verdes anos de Miguel Guedes e companhia, inicialmente muito comparados aos Pearl Jam, foram acompanhados de perto pelo jornal BLITZ em 1994 e 1995. Em tempo de celebração para os Blind Zero, recordamos o meteórico caminho da banda do Porto até “Trigger”. “Tínhamos de começar por algum lado. Gostamos de grunge”, diziam-nos há 25 anos

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Numa altura em que se encontram a celebrar 25 anos de carreira com uma digressão por clubes (depois de Vila Real, Viseu e Porto chegam hoje, 11 de maio, à Fábrica de Chocolate, em Vigo, e a 24 ao Avenida, em Aveiro), recordamos os verdes anos dos Blind Zero, acompanhados a par e passo pelo então pelo jornal BLITZ.

A primeira referência maior à banda do Porto surgia, nas páginas do BLITZ, em dezembro de 1994, com uma entrevista conduzida por Raquel Pinheiro.

Nessa conversa, apresentava-se os Blind Zero como uma banda com nove meses de vida, capaz de já arrastar “pequenas multidões para os seus espetáculos. Definem como grunge aquilo que fazem, apesar das críticas que os dão como meros imitadores dos Pearl Jam”, lê-se na entrada. Este tema seria, de resto, recorrente nas entrevistas e críticas que se seguiriam, com a banda a fazer questão de assinalar outras referências do seu som assumidamente marcado por aquilo que chamavam “o rock norte-americano”.

Primeira entrevista ao jornal BLITZ, em 1994

Primeira entrevista ao jornal BLITZ, em 1994

À entrevista do BLITZ de 6 de dezembro de 1994, compareciam os cinco elementos da banda: “Pedro [Guedes, bateria], Nuxo [Espinheira, baixo], Vasco [Espinheira, guitarra], Mário [Benvindo, guitarra] e Miguel [Guedes, voz], por não quererem ser como as outras bandas onde os astros são sempre os vocalistas e os guitarristas”.

À época, os Blind Zero eram uma banda de estudantes universitários, distribuídos pelos cursos de Marketing, Gestão e Direito, à volta de quem se avolumava grande expectativa, em parte devido aos concorridos concertos que iam dando.

“No Porto tocámos em cinco bares”, contavam ao BLITZ. “No primeiro concerto, numa quinta-feira, batemos o recorde do Meia-Cave. Ficaram cerca de 30 pessoas cá fora, e não conseguíamos passar para tocar. Só tocámos oito músicas pois começámos a tocar tarde e apareceu a polícia”. No Labirintho, também no Porto, nova casa cheia. “Tivemos que tocar alinhados e sem nos vermos uns aos outros”.

Em finais de 1994, os Blind Zero tinham apenas uma maqueta, cuja sonoridade despertava frequentes comparações com os Pearl Jam. “Ao vivo não somos parecidos com Pearl Jam”, diziam ao BLITZ. “A maqueta é o nosso cartão de visita e já tem algum tempo”, garantiam, revelando que a dita maqueta, em cassete, fora “feita em dez horas. Tínhamos três meses e fomos para o estúdio muito bem preparados. Mas ao fim de nove meses já não somos o que éramos na cassete. Temos novas influências e novas músicas”, adiantavam.

“Tínhamos que começar por algum lado. Gostamos de grunge e continuamos a fazer grunge, não só Pearl Jam como Stone Temple Pilots. E vamos às raízes buscar Jimi Hendrix, Neil Young, Hüsker Dü, Dinosaur Jr”.

Nesta mesma edição, surge a notícia de que os Blind Zero estariam muito próximos de chegar a acordo com a agência União Lisboa, que faria do primeiro álbum da banda a edição inaugural de um novo selo discográfico a ela ligado. Porém, o grupo viria a assinar pela Valentim de Carvalho, estreando o catálogo da Norte Sul, 'label' da editora de Paço de Arcos ligada à música fora de circuitos mainstream.

No início de 1995, o BLITZ publicava uma pequena reportagem sobre um novo concerto dos Blind Zero num bar do Porto, o Palha d'Aço. Nesta “festa-concerto” de primeiro aniversário da banda, a “multidão de convidados empurrava-se e comprimia-se, tal era a falta de espaço e ar disponível”.

Uma versão acústica de 'Point Black', de Bruce Springsteen, e outra elétrica, de 'Gloria', de Van Morrison (célebre na voz de Patti Smith), com os convidados João Pedro Almeida e Jorge Coelho, então dos Cosmic City Blues, na voz e guitarra, foram momentos destacados pela repórter Raquel Pinheiro.

Em maio, os Blind Zero já tinham um contrato discográfico e encontravam-se nos estúdios da Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos, a gravar “Trigger”, o seu primeiro álbum, com o produtor norte-americano Ronnie Champagne, nome ligado a edições de Jane's Addiction ou Alice in Chains.

Numa entrevista conduzida por Miguel Francisco Cadete, os nortenhos apresentavam-se como adeptos de um som “rock and roll vintage” e contavam ter ao seu dispor, em estúdio, um amplificador de guitarra Marshall que havia servido Dave Navarro nos Jane's Addiction, amplificadores dos Xutos & Pontapés e um baixo de Jorge Romão, dos GNR, entre outras preciosidades.

Quanto ao papel de Ronnie Champagne nas gravações, a banda garantia que o norte-americano se empenhava ao ponto de ser considerado o seu sexto elemento. “Ajuda-nos a entender-nos a nós mesmos. Ajuda a sabermos o que queremos. É como se estivesse dentro de nós. Não é um professor mas é quase”.

Ronnie Champagne

Ronnie Champagne

DR

No currículo, Ronnie Champagne apresentava o facto de ter começado a trabalhar como engenheiro de som aos 14 anos, surgindo creditado como engenheiro e técnico de guitarras no álbum “Ritual de lo Habitual”, dos Jane's Addiction. Os Blind Zero chegaram até ele depois de tentarem outros nomes, alguns dos quais chegavam a pedir “mil contos [hoje: cinco mil euros] por canção”.

Entrevistado nas mesmas páginas, Ronnie Champagne garantia que os Blind Zero “não se distinguem dos outros com quem trabalhei. Existem aspetos culturais distintos, mas são bons representantes deste escalão etário. É possível ouvir os mesmos estilos, as mesmas maneiras de tocar, seja nos Estados Unidos ou aqui”.

“Os gajos do rap copiam-se uns aos outros, os do death metal a mesma coisa, mas quando aparece uma banda em Portugal a fazer grunge parece que isso é proibido”

Mais uma vez questionados sobre a ligação do seu som aos Pearl Jam, os Blind Zero “chutavam para canto”. “Quando dizem que o nosso som é igual ao dos Pearl Jam e a voz igual à do Eddie Vedder, estão a ser extremamente restritos, porque não sabem onde fomos buscar esse som. Fomos buscar aos Pearl Jam, aos Doors, aos Led Zeppelin. As pessoas têm vistas muito curtas”, lamentavam. “Os gajos do rap copiam-se uns aos outros, os do death metal a mesma coisa, mas quando aparece uma banda em Portugal a fazer grunge parece que isso é proibido”.

Uma semana mais tarde, Jorge Manuel Lopes encontrava os Blind Zero a tocar na Queima das Fitas do Porto e dava conta das “influências grunge, bem evidentes e repetidas” do seu som. “O vocalista Miguel Guedes completa na perfeição o quadro, com uma interpretação que é uma das mais perfeitas cópias do estilo meio gutural das vozes dos Alice in Chains e Pearl Jam que tive a oportunidade de ouvir”.

Confiança e determinação são coisas que não lhes faltam. O seu som, quando se torna mais pesado, sobe um pouco acima da mediania, mas deixa no ar a sensação que o grupo está a tentar dar um salto maior que as suas pernas”, notava o repórter, rematando o artigo com “não é difícil prever uma boa carreira mediática para o single 'Recognize', uma melodia ágil acompanhada por uma batida new wave”.

Em rota ascendente, os Blind Zero tiveram também honras de figurar no cartaz do primeiro Super Bock Super Rock, a convite de Luís Montez. Os portuenses atuaram no primeiro dia, 8 de julho, num palco por onde passariam The Jesus and Mary Chain, GNR ou Young Gods. A BLITZ acompanhou-os fora de palco, através da lente de Rita Carmo.

Blind Zero no Super Bock Super Rock 1995
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Blind Zero no Super Bock Super Rock 1995

Rita Carmo

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Blind Zero no Super Bock Super Rock 1995

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Blind Zero no Super Bock Super Rock 1995

Rita Carmo

Em outubro do mesmo ano, os Blind Zero chegavam à capa do BLITZ, fotografados por Rita Carmo e entrevistados por Pedro Gonçalves. Nesta conversa, Miguel Guedes admitia que a ascensão da banda fora “rápida para Portugal. Tivemos o valor e a sorte para inverter um bocadinho o esquema, demos bastantes concertos e conseguimos uma legião de pessoas que iam aos concertos, gostavam e repetiam”.

Mais uma vez, a banda justificava o facto de ter convidado um produtor estrangeiro para produzir “Trigger” (“Ele não veio para cá para nos dar o som americano, veio para que nós compreendêssemos o nosso som, o som que queríamos”, dizia Vasco Espinheira) e falavam um pouco sobre as letras das suas canções.

“As minhas letras são muito pessoais, são muito mais conotativas do que demonstrativas. Escrevo sobre temas importantes nos nossos dias, como o racismo, a discriminação, as relações pessoais, as buscas, o voltar atrás”, enunciava Miguel Guedes, dando os nomes do autor Jack Kerouac e dos songwriters Bob Dylan, Bruce Springsteen ou Tom Waits como referências.

Blind Zero na capa do BLITZ, em outubro de 1995

Blind Zero na capa do BLITZ, em outubro de 1995

A questão das letras em inglês veio também à baila, assim como a origem socioeconómica da banda. “O provincianismo português leva as pessoas a dizer que as coisas não se entendem num disco de um gajo português que cante em inglês e não o dizem em relação ao gajo dos Crash Test Dummies ou dos Young Gods”, lamentava Miguel Guedes. “Nos dias que correm, um gajo que não venha dos subúrbios ou de uma classe desfavorecida é denominado burguês”, comentava também o vocalista, atento à efemeridade dos fenómenos pop-rock.

“Esta tentativa de fazer de nós a next big thing à moda tripeira trouxe-nos uma grande responsabilidade para cima da costas que não queremos, mas reconhecemos. Se é verdade que a crítica constrói grandes coisas, também é verdade que na primeira oportunidade deita-as abaixo. Cria ídolos com pés de barro”.

Miguel Guedes em outubro de 1995

Miguel Guedes em outubro de 1995

Rita Carmo

No final do ano, os Blind Zero voltavam a Paço de Arcos e aos estúdios da Valentim de Carvalho para darem um concerto especial, que seria gravado em áudio e vídeo, “para edição de um long-form pela Norte Sul e venda para televisão”.

Apresentados pelo radialista Álvaro Costa e perante o entusiasmo dos fãs, alguns vindos do Porto “em excursão organizada para o efeito”, os Blind Zero mostraram então o que valiam em palco, merecendo de Pedro Gonçalves os seguintes considerandos: “Marco é um Zé Pedro versão júnior, com a diferença de que toca guitarra solo em vez de ritmo. Nuxo, o baixista, revelou-se pau para toda obra e dá também à sua voz todos os tons que lhe são pedidos, de coros de rock pesado a uma substituição de Xana em 'Heart of Mine'. Vasco sabe mexer na sua Gibson Les Paul e, mais do que isso, sabe mexer-se em palco. Pedro, baterista, parece o Animal dos Marretas, esgalhando ritmos potentíssimos enquanto o seu cabelo se espalha por entre pratos e tarola. No que toca a Miguel Guedes, é o elo de ligação entre o espalhafato alienado do rock'n'roll e a presença de espírito dos momentos que exigem responsabilidade”.

No final, houve stage diving e uma conclusão do repórter: “Estão decididamente lançados. Agora é com eles”.