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A história de 'You'll Never Walk Alone', o inesquecível hino do Liverpool que foi interpretado por Frank Sinatra, Nina Simone e Ray Charles

Foi a entoar em coro a sua canção que os adeptos e a equipa de futebol Liverpool festejaram a épica passagem à final da Liga dos Campeões, mas 'You'll Never Walk Alone' vai além do próprio futebol: nasceu em 1945 com as vítimas da II Grande Guerra no pensamento e foi cantada pelas maiores vozes de sempre

Uma vibração do outro mundo. Vinda de uma derrota por 3-0, a equipa de futebol do Liverpool bateu esta terça-feira o Barcelona por 4-0, chegando à final da Liga dos Campeões. Os quatro golos marcados pelos Reds em Anfield Road foram festejados no final da partida, em comovente comunhão entre equipa, treinadores e adeptos. Uma canção os une: 'You'll Never Walk Alone', 'hino' do Liverpool com uma história que ultrapassa o próprio clube inglês.

'You'll Never Walk Alone' foi composta em 1945 por Richard Rodgers para o musical norte-americano da Broadway 'Carousel'. A letra, de autoria Oscar Hammerstein II, tinha em mente o sofrimento das famílias das vítimas da II Guerra Mundial: "When you walk through a storm / Hold your head up high / And don't be afraid of the dark / At the end of a storm / There's a golden sky / And the sweet silver song of a lark”.

Onze anos depois, a canção volta a surgir na adaptação cinematográfica do musical, realizada por Henry King, estreada em Portugal a 15 de junho de 1957 com o título "Carrossel". É o tema que se ouve quando a protagonista do filme, Julie Jordan (papel desempenhado pela atriz Shirley Jones), é confrontada com a morte do marido.

Desde cedo a canção mereceu reinterpretações de grandes vultos da música como Frank Sinatra (logo em 1945 e, depois, em 1963, na versão que pode ouvir em baixo) e Nina Simone (ao piano, em 1958).

Ao longo das últimas oito décadas foram muitas as versões da canção, de Ray Charles (1969) a Tom Jones (1969), de Dionne Warwick (1967) a Alicia Keys (2005), mas o momento em que a canção chega ao estádio do Liverpool coincide com o reinado nos tops ingleses da versão da banda local Gerry & The Pacemakers, no outono de 1963.

O 'hit' da banda de Gerry Marsden (gerida por Brian Epstein, manager dos Beatles) chega ao estádio de Anfield Road numa altura em que, em Inglaterra, se ouviam as canções do top 10 antes das partidas de futebol. Durante a época 1963/1964, 'You'll Never Walk Alone', do grupo da 'casa', fez-se escutar no estádio da equipa de Merseyside, sendo a sua falta sentida no momento em que a canção saiu das tabelas de vendas nacionais. "Onde está a nossa canção?", questionaram os adeptos insistentemente. 'You'll Never Walk Alone' regressaria para não mais deixar de ser a canção do Liverpool FC.

A canção acompanha os bons e os maus momentos dos Reds há mais de meio século e ganhou um novo significado há 30 anos quando 96 pessoas perderam a vida no estádio de Hillsborough, em Sheffield, num jogo das meias-finais da Taça de Inglaterra que opunha o Liverpool ao Nottingham Forest. A tragédia de Hillsborough, ocorrida a 15 de abril de 1989 e ainda hoje considerada a maior fatalidade num estádio de futebol em Inglaterra, só viu o seu processo judicial concluído em 2006, tendo ao controlo indevido por parte da polícia presente sido atribuído o esmagamento de quase uma centena de adeptos. 'You'll Never Walk Alone' foi também, por isso, uma mensagem que os adeptos do Liverpool desejaram passar a si mesmos numa altura em que se sentiram injustamente acusados de hooliganismo: uma homenagem a vítimas que, durante muito tempo, foram também consideradas culpadas.

Entoada pelos adeptos de outras equipas quando se confrontam com o Liverpool, a canção foi também adotada por outras formações, sendo a mais notória o Borussia Dortmund, equipa que durante vários anos foi treinada por Jürgen Klopp, atual treinador do Liverpool. Quando as duas equipas se encontram, como em 2016, o coro é gigantesco.

A canção termina de forma esperançosa: “walk on with hope in your heart and you'll never walk alone”. Também ela nunca caminhará sozinha.