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Lena d'Água

Rita Carmo

A incrível história de Lena d'Água, em saborosa entrevista: “Continuo muito inquieta. Há uma coisa dentro de mim que se mantém muito acesa”

Com o primeiro disco de originais em 30 anos nas lojas este mês, Lena d'Água deu-nos uma entrevista longa e livre sobre o carinho que tem recebido das gerações mais jovens, a nova vida no campo, Conan Osiris e António Variações, mas também o seu grande arrependimento e a chama que não se apaga. Conversa com uma das personagens mais ricas da música portuguesa

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

“Desalmadamente”, nome de canção e do primeiro disco de originais de Lena d'Água em 30 anos, é uma palavra que lhe diz muito. Quando começou a cantar a letra, escrita por Pedro da Silva Martins, não resistiu à emoção e chorou. É possivelmente, diz-nos, a canção que “vai mais fundo” na análise da sua personalidade, divertida e inquieta, por vezes contraditória. Mas “Desalmadamente” está cheio de outros momentos de brilhantismo pop, deixando extremamente orgulhosa Lena d'Água, uma mulher que sente ainda ter tudo para dar.

Todas as canções deste disco foram escritas pelo Pedro da Silva Martins, dos Deolinda. Pelas letras, cheias de referências à sua vida e personalidade, ele parece conhecê-la bem. Quando se tornaram amigos?
Eu conhecia o Pedro dos Deolinda. Depois comecei a aperceber-me que escrevia para outras pessoas e fiquei encantadíssima com o 'Desfado', da Ana Moura. Não o conhecendo pessoalmente, até lhe escrevi uma mensagem: “Que espetáculo de tema, parabéns!”. Mas ele também já me tinha mandado uma mensagem, quando viu o documentário “Bela Adormecida”, feita por um grupo de alunos de cinema da Lusófona. Foram ter comigo à aldeia onde moro e, durante quase um ano, mais de dez vezes estiveram comigo. Entraram muito na minha vida e isso criou meia hora de documentário acerca de mim, na perspetiva da fama muito grande e da solidão do campo. O Pedro viu e mandou-me mensagem no Facebook, a dizer que tinha ficado muito comovido, porque aquilo está feito de uma forma que as pessoas riem-se e choram. Homens incluídos! Nessa mensagem que me escreveu, o Pedro também disse: “ainda vou escrever para ti!”. Foi assim que começou. E depois tive de esperar. Eu continuava a ouvir músicas dele para o António Zambujo, a Mariza, a Raquel Tavares... ainda lhe mandei uma mensagem a dizer: “então, pá! E eu?”. Mas ainda não tinha chegado o tempo. Chegou em 2016, quando ele me telefona a dizer: “Fui convidado para fazer uma canção para o festival deste ano, queres ir cantar?”. Eu desatei-me a rir, nunca tinha sido convidada! E depois disse: “vamos!”.

E quando começaram a surgir as canções que estão, agora, no disco?
Dois meses antes desse telefonema do Pedro, recebi um do Gui, o meu querido amigo, saxofonista dos Xutos, a dizer: “lembras-te do Serginho [Sérgio Nascimento]? É que eles têm uma banda, os They're Heading West, que aos domingos à tarde fazem umas coisas especiais, na Casa Independente, com um artista consagrado. Já lá foram o Sérgio Godinho, a Ana Bacalhau, e estão a pensar convidar-te”. E eu: “claro que sim”. Fizemos a Casa Independente e foi lindo de morrer. Porque eles têm muitos fãs e eu também: os filhos e sobrinhos dos fãs de antigamente, às vezes até os netos. Tocámos cinco temas meu e um do Zeca Afonso, que nunca tinha tocado, e correu tão bem! As pessoas adoraram. No final, estávamos no camarim e dissemos: “temos de fazer mais alguma coisa, um repertório completo!”. E ainda falta a peça que é o Benjamim, o Luís Nunes. Nesse verão de 2016, ia a chegar a casa, a ouvir o meu autorrádio, e está a passar uma canção muito gira, de um rapaz com uma voz muito gira, que se chamava 'Volkswagen', que é o meu carro! Fiquei à espera que, na Antena 3, dissessem de quem era, e quando cheguei a casa fui à procura do Benjamim no Facebook. No “about”, vejo que uma das suas influências era Lena d'Água! Beatles, Beach Boys, Duo Ouro Negro, Chico Buarque, Lena d’Água…senti-me muito honrada! Deixei lá um comentário, depois contactaram-me para que fosse tocar com ele no Dia da Música, ao CCBeat. Eles ensaiaram o 'Sempre que o Amor me Quiser' e foi lindo. Uma cena mais rock, os They're Heading West são uma cena mais country, mas correram as duas muito bem. Resultado: quando o Pedro da Silva Martins me telefona, para ir ao festival, eu disse: “já sei qual vai ser a banda! Vamos convidar quem me convidou!”. O Pedro tinha três canções para o festival; escolhemos a 'Nunca Me Fui Embora', e quando estávamos no estúdio do João Só a gravar o instrumental para o festival, o Pedro, com a sua guitarrinha, diz: “olha esta! E esta!”. Tinha feito umas 20! Em pouco tempo, 20 temas mas todos muito centrados na pessoa que ele entretanto foi conhecendo. Eu também lhe dei a conhecer umas coisas que escrevi enquanto jovem, que deram origem ao meu livro de poemas... E à conversa com ele, nas vezes que fomos falando ao telefone ou em pessoa, ele foi-me apanhando expressões. O “oh pá!”, por exemplo! [Que deu origem à canção 'Opá', que abre o disco]

Há alguma canção em particular que a tenha feito pensar: “isto sou mesmo eu”?
Talvez a que vai mais fundo seja a 'Desalmadamente'. Foi dos primeiros nomes [que pensámos para título do disco], ao longo do tempo. Porque isto durou quase dois anos e meio! Sofri muito, à espera. O Pedro foi o que se despachou primeiro: ele fez as canções, mas depois era preciso montar, experimentar, ensaiar, desfazer, voltar a fazer. O Pedro não teve nada a ver com os arranjos, isso também é engraçado: ele fez as letras e canções, mas os arranjos, o corpo das canções, foram desenvolvidos pelos músicos. Eu também dei uma ajudinha, sobre o andamento ou a tonalidade.

Há letras muito cómicas, referindo a sua ida para o campo ['Hipocampo'] ou a participação no festival ['Grande Festa']...
E a 'Queda para Voar'! Sobre aquela minha queda dos anos 90 de que só souberam mais tarde, quando eu contei, que não andei cá a fazer figuras!

Mas contou ao Pedro...
Eu contei tudo ao Pedro e ele apanha tudo, mesmo as coisas que tu nem dizes. Eu agora estou a lembrar-me e quase que choro, porque fartei-me de chorar a ouvir, em maquete! Tanta vez, quando estava a pôr aquilo em esboço, comovia-me mas a sério! (gargalhada) Aquela parte do “e voa por Benfica, por Lisboa”, vocês não imaginam o que eu chorei a ouvir! Nem era a cantar, era a ouvir! E mesmo em estúdio, já na Valentim, ainda tive de parar uma ou duas vezes, comovida com as palavras, porque elas estão mesmo lá no sítio, é incrível.

O Pedro era uma espécie de psicólogo, absorvendo o que lhe dizia e devolvendo-lhe essa informação sob a forma de canções?
É extraordinário. E este menino nasceu no mês e no ano em que eu comecei a cantar nos Beatnicks: maio de 1976! Aquele primeiro concerto que eu faço com eles, foi no mês em que nasceu o Pedro. Isto tudo é tão bonito! Parece que fiquei à espera. [Eu pensava]: “Oh Deus, porquê? Estou aqui, qualquer dia morro, nunca mais consigo, [mas] ainda quero! Eu canto, eu quero, tenho voz! Tenho vontade! Tenho génio, pá!”.

Tinha medo de não conseguir voltar a gravar?
Não era de não voltar, não era bem isso. Tive medo de morrer! Imagina que eu morria sem conseguir fazer este disco. Também não digo que já posso morrer à vontade, mas se morrer não é tão grave! Se morresse na semana passada era uma chatice! Ficavam eternamente a ouvir o 'Sempre que o Amor me Quiser', gravado em 1984. (risos) Agora já há outras.

Antes destes novos amigos, já os Linda Martini tinham feito uma versão de 'Sempre que o Amor me Quiser'...
Tão queridos! Foram os primeiros de uma nova geração. Fiquei muito surpreendida, porque não me lembro, ao longo destes anos todos, de outros o terem feito… mesmo os do meu tempo. E também fiquei surpreendida, porque tiraram uma parte da canção, mas resulta muito bem! E a seguir [veio] o convite dos Ciclo Preparatório, para pôr a voz naquela canção, 'A Volta ao Mundo com a Lena d’Água'. E os Capitães de Areia também me chamaram para fazer as vozinhas das sereias, naquela viagem espacial maluca.

É bom sentir esse carinho da geração mais jovem?
Sempre fui bastante ignorada pelos do meu tempo. Fizeram-se tributos aos Xutos & Pontapés, ao Zeca Afonso, ao 25 de Abril... e eu, e nós, mulheres, nunca. Não sou só eu. A partir dos 40 e picos... Os homens podem chegar aos 60, 70 já todos tortos, sem se preocuparem nada com as papadas, com as barrigas, os cabelos brancos. Basta olhar à volta e ver quantas de nós é que continuamos a insistir. Somos pouquinhas. A Ana Deus, com aquela voz espetacular, a Né Ladeiras, a Adelaide [Ferreira], a Dina que já foi… as coisas que ela fez! A doença também não permitiu muito mais, mas não foi só a doença. A Lara Li, a Mafalda [Veiga], que é mais nova, a Xana… continuam a ser resistentes, mas sempre um bocadinho ao largo.

Porque será que a sociedade tolera melhor o envelhecimento dos homens?
Isto não é só aqui, é no mundo todo. Até as mulheres de Hollywood já protestaram: elas ganham uma porrada de dinheiro a menos que os homens! Mas esta geração tem-me tratado tão bem, têm sido tão queridos: gostam de mim! Dá para sentir, são muitos carinhosos… Eu penso que ainda há esperança.

Uma das coisas mais notáveis deste disco é a frescura da sua voz: parece a voz de uma miúda. Tem algum cuidado especial?
Deixei de fumar há três meses. Não era grande fumadora, mas não é coisa que uma cantora deva fazer. Sei que a Amália fumava muito, a Elis Regina, a Billie Holiday… mas só deixei de fumar agora, em janeiro - era um bocadinho tonta. Há coisas que evito muito: o sol. Há muitos anos, tive um problema nas cordas vocais, causado por uma constipação e por viagens com pó e frio e calor, e andei um bocado rouca. O otorrino, que era o avô da Daniela Ruah, disse-me: “Lena, tem de fazer recuperação, que isto não é operável”. Se não fizesse, podia dar em nódulo, e isso já é grave. Então orientou-me para umas aulas com uma professora que foi minha avó, minha madrinha, e me deu umas indicações fantásticas. Uma deles foi em relação ao sol: proteger sempre a cabeça e a máscara, que é esta parte aqui [testa e olhos]. Nestes últimos 20 anos, também fiz poucos concertos: fiz e continuo a fazer coisas de piano, contrabaixo e bateria, ou só de guitarra e voz, coisas em pequenos espaços... Ganhei muito menos dinheiro, mas não gastei [a voz]. O meu instrumento foi poupado. E há outra coisa. A voz é a expressão da alma. E eu continuo muito inquieta, com necessidade de fazer alguma coisa que melhore a vida às pessoas e aos animais. Há uma coisa dentro de mim que se mantém muito acesa. E eu acho que é isso que também suporta a minha voz. Não é só uma coisa física, das cordas vocais. É também essa vontade de poder ser útil, ter um propósito, que a minha vida tenha um sentido. Ser famoso [só importa] se isso facilitar chegar às pessoas e dizer: “ouçam! As vacas leiteiras não são vacas que dão leite só por si. São criaturas que ficaram prenhas e estiveram grávidas durante nove meses, com um bebé na barriga. Quando ele nasce, tiram-lho para os humanos comerem, e o leite que era suposto ser mamado por aqueles bebés é para ser vendido, misturado com água e outras coisas para fazer manteigas e queijos”. Se a minha voz se mantiver firme e acesa para poder chamar a atenção para este caso, por exemplo, [fico contente]. Eu fui vegetariana muito cedo, depois deixei, depois voltei a ser, mas nunca tinha reparado nisto dos leites e das vacas! E eu, que não comia carne desde os anos 70!

Há mais de dez anos que vive numa aldeia. Como é um dia típico, por lá?
Um dia normal é acordar cedo, começar a sentir a luz a entrar... Os quartos não têm as janelas muito cerradas, a luz entra sempre por algum lado. Depois ligo o meu rádio, na mesinha de cabeceira, na Antena 3, para ouvir as minhas amigas. (risos) E o Luís Oliveira, que se troca todo nas horas! (gargalhadas) E de acordo com as rubricas que eles têm, penso: “agora é o Consultório [da Doutora Ana Correia], já devem ser 7h30... Agora é o Hugo Van der Ding, já são 8h30...”. Adoro todos os colaboradores do programa da manhã. Só não fico mais tempo, até às 10h, porque não gosto de ficar até tarde na cama. Fico ali uma horita, a ouvir e a rir-me com eles. Depois trato do meu gatinho preto, que tem uma doença autoimune e dorme na zona dos quartos. Vou para cima, faço um cafezinho com leite de amêndoa, ligo a internet, fico umas duas horas a ver os mails, a cuscar este e aquele, a ver como está a conta no banco, as coisas normais que as pessoas fazem. A meio da manhã vou dar uma volta com os cães, num espaço porreiro que é vedado e eles podem andar a comer ervas e a correr à vontade, e depois é o normal: ir às compras, lavar a louça, que deixo sempre de um dia para o outro, preparar o almoço, ver um bocadinho de televisão… A meio da tarde vou outra vez à rua com os cães. Fora os gatos da rua, que também trato deles. E à noite vejo um bocadinho de televisão, mas deito-me cedo, meia-noite e já estou outra vez no meu ninho.

Uma vida serena...

E quando tenho de vir a Lisboa, como hoje, quatro dias antes já estou a pensar: “ai, ainda tenho três dias! Ainda tenho dois dias!” (risos)

Como se fosse uma consulta no médico?
“Ainda posso deitar-me um bocadinho mais tarde! Ou beber uns copos”. Porque vir a Lisboa, como agora vivo lá, é vir à terra. Toda a vida vivi em Lisboa. E nas páscoas e nos natais e nos verões, toda a gente ia para a terra e eu: “bolas, sou de Lisboa, sou sem terra!”. Quando fui morar para o campo, passei a ter terra. E agora, quando venho a Lisboa, digo que venho à terra. Mas desde miúda que tinha esse sonho romântico: ir morar para o campo. Depois da morte dos nossos pais, quando vendemos a nossa casa de família, o dinheiro que ficou nas minhas mãos não dava para comprar uma casa em Lisboa. Nem uma cave na Damaia! E sei que agora é ainda mais difícil. Mas pensei: “é desta”. Também já me tinham atropelado gatos, em Benfica, estava um bocado maçada. Então fui a cavalo no Google Earth… (risos) E pensei: “Esta zona aqui é simpática!” Queria uma zona rural, e queria ir para norte, porque gosto dos verdes, das colinas. E não queria muito perto do mar, por causa da subida das marés, o que já sabemos há muitos anos, embora só agora seja falado. Sei perfeitamente que a minha casa está a 83 metros acima do nível do mar. E esta casinha [onde vivo] foi a primeira que eu vi. Ainda andei a ver outras, mas não podia ficar fora da localidade. Uma pessoa sozinha, não dava para ficar a viver [isolada]. E esta casinha fica mesmo no centro, no coraçãozinho da aldeia.

Este ano vai estrear um filme sobre António Variações. Porque é que as pessoas continuam fascinadas por ele, tantos anos depois?
Porquê? Porque foi um cometa. Era mesmo especial, muito especial. As poucas canções que conhecemos que ele escreveu são incríveis, letras e melodias incríveis, e tudo o mais. Ele próprio, a sua forma de estar no dia a dia… Ele saía de casa como se fosse para a última festa da vida dele. Era realmente um ator da vida real! E era doce, e terno, falava baixinho… nós estávamos na mesma editora, a Valentim de Carvalho, por isso estivemos juntos várias vezes, tive essa sorte de poder ser amiga dele. Ele chamava-me Aguinha. Andei de helicóptero com ele, para uma coisa na Rádio Comercial, Hotel Atlântico. Foi inesquecível. Não estive 100 vezes com o António, nem 20 estive. Mas foram sempre encontros muito especiais, inesquecíveis. O livro da Manuela Gonzaga explica bem, porque ela falou com toda a gente; chama-se “Entre Braga e Nova Iorque” e as pessoas que gostam do António Variações e querem conhecê-lo melhor devem procurar esse livro. Houve uma reedição este ano.

E qual a sua opinião sobre Conan Osiris?
Eu adoro o Conan. Conheci-o quando fui com o Primeira Dama ao Tivoli, em dezembro, e eles tocavam a seguir a nós. Só que eu fui logo para a aldeia: estava a chover e eu ia a guiar, então não cheguei a ver o concerto. Mas quis conhecê-lo, porque estava farta de ouvir falar dele. E eles fizeram uma grande festa. [O Conan e o seu bailarino, João Reis Moreira] quase que se atiraram para o chão, quase que me davam beijinhos nos pés! Não estou habituada! Doces, mesmo queridos! Eu até lhe disse: “olha, estou farta de falar em ti mas nunca te ouvi”. E ele:“ isso não tem importância nenhuma!”. Ele é outro daqueles casos que só aparecem muito de vez em quando, é mesmo muito particular. Quando começaram a dizer cobras e lagartos dele, como disseram do Salvador… eu fico fera! Mesmo fera! No Facebook, quando foi do Salvador, zanguei-me violentamente com pessoas a dizer mal do meu Salvador! Desta vez chateei-me, mas não tanto, porque os outros também já tinham sido despachados. Mas há pessoas muito violentas e muito estúpidas. Más! Nem se dão conta do péssimas que são. E ainda nos admiramos da inquisição e das fogueiras há 500 anos!

As opiniões sobre ele foram muito extremadas...
Lá na aldeia, depois da primeira semifinal, eu ia a passar com os meus cães quando vi uma das minhas vizinhas, um pouco mais velha que eu, a quem perguntei: “então e ontem, viu?”. Mas com algum cuidado, porque já tinha começado a ler coisas parvas, horríveis e brutas em relação ao rapaz, aos rapazes! E ela: “ai Lena, achei aquilo tão fraco, eu gostei foi daquele rapaz”. E eu: “a sério, Julieta?” E ela: “e digo-lhe mais, as minhas netas também gostaram!” E quando foi a final, ela disse-me uma coisa que eu não esqueci, em relação ao Conan: “é que uma pessoa fica presa, não conseguimos deixar de olhar!”. Isto vindo de uma pessoa de um meio muito pequeno… É a novidade. E um misto de muita coisa, tal como o António também misturava, o futuro e o passado. E não é fabricado! É mesmo assim. Na BLITZ, naquelas fotografias dele, Tiago, desde pequenino, vês que era uma pessoa especialíssima, desde criança.

Tem algum grande arrependimento na vida?
Grande? Podia não ter experimentado a porcaria da droga. Que é a pior de todas. Se eu pudesse andar 30 anos para trás, quase... Vai fazer 30 anos que experimentei aquilo, e aquilo é... nhec. Mas o que está feito, está feito. Se fosse agora, não queria experimentar. Armei-me em parva! (risos) Armei-me em heroína e ia-me lixando. E mesmo assim, ainda me lixei um bocadinho. Uma frase famosa: fumei aquele apartamento de Carnide, o meu apartamento cor-de-rosa. De resto… e deves algum pedido de desculpa? (gargalhadas) Devo! Sou muito bruta. Desde o tempo do liceu. Tinha eu 14 anos ou menos e uma colega disse-me: “oh Lena, sabes o que é? Tu às vezes és tão sincera que chegas a ser cruel”. Ficou-me marcado, nunca mais me esqueci. Mas às vezes sou mesmo muito bruta e magoo as pessoas. Fico revoltada com coisas, das quais as pessoas às vezes nem têm culpa, mas dá-me uma coisa cá dentro e elas levam por tabela. Porque sou muito violenta, às vezes. Não é por mal, mas sei que tenho magoado pessoas ao longo da vida. Tenho essa sensação. E o que dizem os meus olhos? (gargalhada)

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“Desalmadamente”, o novo álbum de Lena d'Água, chega às lojas a 10 de maio. O concerto de apresentação é no Teatro Villaret, em Lisboa, a 4 de junho.