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Bob Dylan em 2015

Getty Images

Bob Dylan regressa ao Porto, 26 anos depois da estreia naquela mesma cidade. E isto é, possivelmente, o que vai ver agora

Ainda que os fãs de Bob Dylan devam esperar sempre o inesperado, eis uma antevisão do que poderá ver no Porto, esta quarta-feira. Recorde também as suas anteriores passagens pelo Coliseu da Invicta, incluindo o primeiro concerto de sempre em Portugal

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Pouco mais de um ano depois do último concerto em Portugal, Bob Dylan está de regresso ao nosso país, desta vez para um concerto único no Coliseu do Porto.

Parte da sua Never Ending Tour, o espetáculo esgotou em pouco tempo e esta quarta-feira, 1 de maio, na sala da Invicta.

Foi precisamente no Coliseu do Porto que Bob Dylan deu o seu primeiro concerto de sempre em Portugal: estávamos em julho de 1993 quando o norte-americano tocou duas horas e meia perante os acólitos portuenses, e não só.

Na reportagem do jornal A Capital, Rui Tentúgal escrevia que “três mil pessoas” ficaram “totalmente magnetizadas” por Bob Dylan: “bastava um dedilhar na guitarra mais vistoso, umas notas de harmónica, a voz uns pontos mais alta ou um verso conhecido para a multidão entrar em histeria”.

No público estavam “todos os ex-contestatários do Porto e arredores, a geração dos anos 60, do Woodstock, do primeiro Vilar de Mouros, da mini-saia, da pílula e da erva, dos ecos das revoltas estudantis da Sorbonne, de Praga e da China, os ex-trotskistas, ex-maoístas, ex-marxistas-leninistas e os da boina à Che Guevara. No sábado, enchiam a plateia com bilhetes a sete contos, pagos pelos próprios ou oferecidos pela empresa”.

Apesar do mau som, que impossibilitava os espectadores de compreenderem o que Bob Dylan cantava, a estreia do então cinquentão em Portugal - com primeira parte de Sérgio Godinho - parece ter enchido as medidas aos admiradores.

“Se compreendermos que ele tocou mais harmónica do que costuma, esteve mais meia hora em palco do que nas actuações anteriores, fez vénias ao público durante várias vezes a agradecer as palmas, foi autografar um bilhete no fim do concerto, cantou muito bem apesar dos seus 52 anos e de o som estragar tudo, empenhou-se verdadeiramente nos solos e recuperou músicas que, habitualmente, não toca ao vivo, o saldo da sua primeira actuação em Portugal é francamente positivo”.

Como sempre, não diz palavra”, anotava porém o repórter, e os fotógrafos também ficaram à porta. “Ele chama-lhe Tour
Interminável e não quer fotógrafos na sala com medo que as câmaras lhe captem um dos fantasmas”, brincava A Capital.

Três dias depois, Bob Dylan tocava no Pavilhão Dramático de Cascais, só regressando a Portugal seis anos depois, para concertos no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, e mais uma vez no Coliseu do Porto.

Curiosamente, este regresso parece ter sido acolhido sem especial entusiasmo por alguma imprensa nacional.

Agora chega a vez de Bob Dylan, com 30 anos de atraso”, escrevia António Costa Santos, no Expresso. “Há quem evite o concerto, não por alergia ao revivalismo, mas por medo de desfazer uma certa imagem querida e antiga. Viesse mais cedo, quando fazia falta”.

Desde então, Bob Dylan tocou em Vilar de Mouros em 2004, no Alive em 2008 e na Altice Arena, em Lisboa, no ano passado.

Em março de 2018, já galardoado com o inesperado Nobel da Literatura, o veterano voltou a não dirigir palavra aos fãs que encheram a sala à beira-Tejo, apostando na apresentação de temas dos álbuns mais recentes da sua imensa discografia.

“É possível que, no final do concerto, tenha havido gente a regressar a casa desiludida com o alinhamento escolhido por Dylan, ainda para mais quando este, já no final da atuação, em pleno encore, serviu 'Blowin' in the Wind', um dos seus mais importantes cartões de visita, numa versão blues, arrastada e praticamente irreconhecível, quer a nível de melodia quer a nível de cadência. Surpresa? Só mesmo para quem não conhece o artista em questão”, escreveu Manuel Rodrigues na BLITZ.

Secundado pela sua banda de serviço, que dá continuidade à famosa digressão contínua que celebra três décadas de estrada no presente ano, e inserido num cenário sóbrio de cortinas negras e meia dúzia de holofotes que trataram de pontuar alguns momentos chave da noite (a única dinâmica visual do concerto, dada a ausência dos ecrãs laterais que normalmente amplificam o sinal das câmaras apontadas para o palco), Dylan, que não esboçou uma única palavra para além daquelas presentes nas estrofes das suas músicas (nem um 'olá', nem um 'adeus'), iniciou as hostilidades precisamente com uma visita a "Modern Times" (2006)”, pode ainda ler-se na reportagem.

“À direita de cena, longe do centro das atenções e ainda mais longe do foco das câmaras fotográficas (para além de ter sido proibida a entrada de fotojornalistas na arena, foram também negadas quaisquer captações amadoras a partir dos telemóveis do público presente), Dylan passou o concerto todo sentado ao piano e só o abandonou na hora de interpretar 'Why Try to Change Me Now', cover de Cy Coleman, altura em que se apresentou no centro de palco, de tripé na mão e voz colocada, qual experiente e inspirado crooner.

A distância que separa "Bob Dylan" (1962) de "Triplicate" (2017) é tão grande quanto aquela que separa um jovem de calças de ganga, t-shirt e guitarra às costas de um septuagenário de smoking escuro e cabelo grisalho. Todavia, e se dúvidas existissem, Bob Dylan não deixa nada a desejar no exercício vocal. O timbre não é o mesmo de outrora (a idade parece ter brindado o artista com um conjunto de graves que oferecem uma característica de 'bagaço' a um aparelho que sempre viveu de uma textura 'cana rachada') mas a projeção está lá toda, com a energia e vitalidade que se pede a este poeta e contador de histórias que tanta gente influenciou e tanta gente continuará a influenciar”.

Já este mês, Bob Dylan deu que falar ao repreender um fã que o tentou fotografar em Viena de Áustria, pelo que é de esperar que, no Porto, a proibição de captação de imagens se mantenha.

Este é um dos alinhamento que o homem de “Blonde on Blonde” vem apresentando recentemente:

Things Have Changed
It Ain't Me, Babe
Highway 61 Revisited
Simple Twist of Fate
Cry a While
When I Paint My Masterpiece
Honest With Me
Tryin' to Get to Heaven
Scarlet Town
Make You Feel My Love
Pay in Blood
Like a Rolling Stone
Early Roman Kings
Don't Think Twice, It's All Right
Love Sick
Thunder on the Mountain
Soon After Midnight
Gotta Serve Somebody

Encore:

Blowin' in the Wind
It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry