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Dire Straits ao vivo no Estádio Alvalade, 1992

Mark Knopfler de volta a Lisboa. Em 1992, estreava-se por cá com Dire Straits: 60 mil pessoas, a classe política em peso e fogo de artifício

Há quase 27 anos, o guitarrista que esta semana atua numa Altice Arena já esgotada, dava o seu primeiro concerto em Portugal naquela que viria a ser a última digressão dos Dire Straits. Recordamos as fotos do concerto no Estádio José Alvalade, as várias 'crónicas' da noite e um jantar de gala para 250 VIP a que António Guterres, Pedro Santana Lopes e Francisco Louçã não quiseram faltar

Mark Knopfler atua na próxima terça-feira na Altice Arena, em Lisboa, um espetáculo com lotação esgotada, o oitavo do músico britânico, entre Dire Straits e carreira a solo, em Portugal.

A primeira paragem em terras portuguesas, então com os Dire Straits, foi há quase 27 anos, a 16 de maio de 1992, naquela que se tornaria a derradeira digressão do grupo. Como era apanágio num Portugal em que os grandes concertos de estádio eram ainda um 'bem escasso', a imprensa bem cedo deu conta dos detalhes sobre o concerto e tudo à volta deste. É do diário 'A Capital' uma das coberturas mais pormenorizadas: dias antes do concerto, anunciava-se um grande fogo de artifício no final do concerto no Estádio José de Alvalade, que começaria - avança o vespertino - "com um jantar de gala para 250 pessoas" que saboreariam uma entrada de camarões com maionese (estamos nos anos 90!), pratos de peixe e de carne, e um gelado como sobremesa.

Para o jantar, o Sporting Clube de Portugal e a empresa organizadora do evento, a Ritmos & Blues (nas figuras de Sousa Cintra, presidente do primeiro, e de Nuno Braancamp, responsável máximo pela segunda) convidaram as principais figuras da nação, do chefe de estado Mário Soares aos titulares de cargos governativos. Na edição de 17 de maio, o mesmo jornal dava conta de que entre os VIPs avistados se contavam políticos de quadrantes tão diferentes como o PSD (o ex-Ministro da Educação, Roberto Carneiro, o Ministro das Finanças, Braga de Macedo, ou o Secretário de Estado da Cultura, Pedro Santana Lopes), PS (António Guterres) e PSR (Francisco Louça, a furar o protocolo com calças de ganga azuis). A lista é extensa.

Os Dire Straits chegaram a 14 de maio, vindos de Madrid, mas a 'A Capital' não consegue falar com Mark Knopfler, que aterrou na Portela às 17h15 e daí seguiu para o hotel Meridien, em cujo restaurante (Brasserie Des Amis) jantou, acompanhado pela mulher, os dois filhos e alguns amigos. Das 19h00 às 23h00, Knopfler e convidados comeram "pratos da Semana Gastronómica da Póvoa do Lanhoso". Apesar de avessos a jornalistas, consta que os Dire Straits, "ao contrário dos Stones" dois anos antes, não terão feito pedidos extravagantes e prescindiram do serviço de quartos.

Bilhete do concerto de Lisboa

Bilhete do concerto de Lisboa

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Às 22h00 de 16 de maio, depois de uma primeira parte a cargo de Was (Not) Was, os Dire Straits tinham à espera 60 mil pessoas e 250 VIPs, mas também abrasivos 32 graus que transformariam Alvalade num "suadouro". Reportagens do BLITZ e de 'A Capital' apontam para um espetáculo controlado ao milímetro, sem margem para emoção, onde a frieza do profissionalismo contrastava com a temperatura ambiente e se sobrepunha à emoção. "Nem um dos públicos mais participantes de sempre vistos em Portugal demoveu Knopfler da sua postura distante", referia 'A Capital', enquanto o BLITZ apontava a 'maré baixa' desta fase da carreira dos Dire Straits, que esperaram seis anos para publicar o sucesso do multiplatinado "Brothers in Arms" (1985), um "On Every Street" (1991) que não colhera os favores da crítica e se tornaria muito menos popular do que os álbuns anteriores. Ainda assim, suficientemente popular em Portugal para justificar o agendamento de novo concerto em terras lusas, em agosto do mesmo ano, no Estádio de São Luís, em Faro.

Dire Straits no Estádio de Alvalade, em Lisboa, a 16 de maio de 1992
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Dire Straits no Estádio de Alvalade, em Lisboa, a 16 de maio de 1992

Rita Carmo/Arquivo Impresa Publishing

Dire Straits no Estádio de Alvalade, em Lisboa, a 16 de maio de 1992
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Dire Straits no Estádio de Alvalade, em Lisboa, a 16 de maio de 1992

Arquivo Impresa Publishing

Dire Straits no Estádio de Alvalade, em Lisboa, a 16 de maio de 1992
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Dire Straits no Estádio de Alvalade, em Lisboa, a 16 de maio de 1992

Rita Carmo/Arquivo Impresa Publishing

Dire Straits no Estádio de Alvalade, em Lisboa, a 16 de maio de 1992
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Rita Carmo/Arquivo Impresa Publishing

Dire Straits no Estádio de Alvalade, em Lisboa, a 16 de maio de 1992
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Rita Carmo/Arquivo Impresa Publishing

Dire Straits no Estádio de Alvalade, em Lisboa, a 16 de maio de 1992
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Dire Straits no Estádio de Alvalade, em Lisboa, a 16 de maio de 1992
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Dire Straits no Estádio de Alvalade, em Lisboa, a 16 de maio de 1992

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Dire Straits no Estádio de Alvalade, em Lisboa, a 16 de maio de 1992
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Dire Straits no Estádio de Alvalade, em Lisboa, a 16 de maio de 1992

Arquivo Impresa Publishing

Dire Straits no Estádio de Alvalade, em Lisboa, a 16 de maio de 1992
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Dire Straits no Estádio de Alvalade, em Lisboa, a 16 de maio de 1992

Arquivo Impresa Publishing

Em Alvalade, Mark Knopfler fez-se acompanhar por John Illsley (baixo), Alan Clark (teclas), Guy Fletcher (teclas e coros), Chris White (saxofone e coros), Chris Witten (bateria), Danny Cummings (percussão e coros), Paul Franklin (pedal steel) e Phil Palmer (guitarra). De camisa branca sobre t-shirt azul, jeans e a - à época - inevitável fita na cabeça, liderou um coletivo que se lançou a canções como 'Calling Elvis', 'Walk of Life', 'Heavy Fuel', 'Romeo & Juliet' (levantando isqueiros acesos, as 'lanternas dos telemóveis' de então), 'The Bug', 'Private Investigations', 'Sultans of Swing', 'Your Latest Trick, 'Tunnel of Love', 'Money For Nothing' (interrompido pelo povo, em histeria) ou 'Brothers in Arms'.

"Falta emoção, sobra virtuosismo": o título de 'A Capital'

"Falta emoção, sobra virtuosismo": o título de 'A Capital'

A 19 de maio, nas páginas do BLITZ, o jornalista António Pires mostrava-se particularmente cáustico. "A mim, confesso, o concerto não aqueceu nem arrefeceu. (...) É a técnica da cassete, da produção em série, dos bebés-proveta do 'The Boys from Brazil'. É sempre igual. Admito que Knopfler é um grande guitarrista, que o sax é por vezes fabuloso, que a banda é uma grande máquina sem defeitos de fabrico", escreve Pires, oferecendo a um público aparentemente satisfeito "nada mais do que aquilo que é preciso para justificar o cachê".

"Communi-quê?": a interrogação do BLITZ

"Communi-quê?": a interrogação do BLITZ

No semanário 'Sete', Rui Miguel Abreu - hoje colaborador da BLITZ - alinhava pela mesma toada: "Os Dire Straits já alcançaram aquele nível em que conseguiram aperfeiçoar de tal modo o seu som que já é praticamente impossível distinguir entre a sua componente de estúdio e a de palco. Na verdade, só mesmo as desconfortáveis cadeiras do estádio nos lembram que não estamos sentados no sofá da sala". A falta de emoção apontada por 'A Capital' era também notada pelo jornalista do 'Sete', que considera que os Dire Straits nem precisavam de tocar para que o público saísse satisfeito: "bastava terem acenado energicamente. Os três ecrãs gigantes de vídeo poderiam ter feito o resto".

"Nove mil segundos": a duração do concerto dos Dire Straits em Lisboa chamada ao título da reportagem

"Nove mil segundos": a duração do concerto dos Dire Straits em Lisboa chamada ao título da reportagem

"Se nas bancadas tudo parecia cheio mas arrumadinho, com gente dos 7 aos 60 anos munida de binóculos, lanche e isqueiros Dupond, trajando jeans Chevignon e as United Colors que sabemos, já na relva o ambiente era bem mais heterogéneo e característico", descreve a reportagem de 'A Capital' a 18 de maio (o jornal não saía ao domingo, dia seguinte ao concerto). "Punks ou betinhos, de vanguarda ou indecisos, das crianças de colo aos mais velhos que acompanhavam os filhos adolescentes à descoberta do rock, os milhares que compraram o bilhetinho por 4500 escudos [mais barato] foram as primeiros a tomar conta do estádio", ilustra. E os últimos a saborear o fogo de artifício que assinalaria, às 00h20 em ponto, o final do concerto. Em grande.