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MANUEL FERNANDO ARAUJO

Nick Cave sobre moralismo no rock: “Vão à vossa coleção de discos, apaguem os que levaram vidas questionáveis e vejam com quantos ficam”

“ Ainda há pouco tempo a grande ideia, no mundo, era a liberdade de expressão. Agora parece que é o moralismo”

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Nick Cave escreveu mais um pequeno ensaio, no seu site, desta feita em resposta a dois fãs que lhe fizeram perguntas sobre o estado do rock e também sobre as consequências do comportamento pessoal de um músico na apreciação da sua obra.

Para Nick Cave, o rock tem-se adaptado, ao longo da sua história “tumultuosa”, de forma a poder sobreviver. “É da natureza do rock and roll transformar-se, morrer para poder viver outra vez. Esta agitação é que mantém as coisas a andar para a frente. Enquanto músicos, corremos sempre o risco de nos tornarmos obsoletos e de sermos ultrapassados pela nova geração ou pelo próprio mundo, com as suas grandes ideias. Ainda há pouco tempo a grande ideia, no mundo, era a liberdade de expressão. Agora parece que é o moralismo. Será que o rock vai sobreviver a isto? Veremos”.

“A minha sensação é de que a música rock moderna, tal como a conhecemos, já está doente há algum tempo. Foi atingida por um certo cansaço, confusão e indiferença e já não tem força para travar as grandes lutas que o rock sempre travou. Parece-me que não há nada novo nem autêntico. Tornou-se mais seguro, mais nostálgico, mais cauteloso e mais empresarial”.

“No que respeita ao rock, creio que o novo fanatismo moral que tem caracterizado a nossa cultura até pode ser bom. Talvez seja disso que o rock and roll precisa agora. O rock contemporâneo parece já não ter força para lutar contra estes inimigos da imaginação, estes inimigos da arte - e, nesta sua encarnação, talvez o rock nem mereça ser salvo. Esta camada de puritanismo pode ser o antídoto para o cansaço e a nostalgia que têm atacado o rock”.

Talvez precisemos que a criatividade seja esmagada e que a hipocrisia congele a arte, para que, mais tarde, uma forma musical selvagem, perigosa e radical possa romper esse gelo, de dentes à mostra, e o rock and roll possa voltar à transgressão”.

Para Nick Cave, a transgressão é “fundamental à imaginação artística, porque a imaginação lida com o proibido. Vão à vossa coleção de discos e apaguem aqueles que levaram vidas questionáveis e vejam com quantos ficam. São os artistas que vão além das fronteiras socialmente aceites que nos trarão novas ideias sobre o que significa estar vivo. Na verdade, esse é o dever do músico - e às vezes essa viagem é acompanhada por um comportamento devasso, sobretudo no rock and roll. Na verdade, a natureza do rock and roll é devassa. Por vezes, o comportamento de um indivíduo é simplesmente maléfico, e esses casos precisam de ser denunciados - e nós temos de tomar uma decisão pessoal sobre se queremos ou não envolver-nos com o seu trabalho”.

A arte deve ser arrancada das mãos dos pios, apareçam eles na forma que aparecerem - e estão sempre a aparecer, com facas na mão, desejosos de matar a criatividade. Nesta época deprimente para o rock and roll, contudo, talvez possam ser úteis. Talvez a música rock precise de morrer um bocadinho, para que algo poderoso, subversivo e verdadeiramente monumental se possa erguer no seu lugar”.

Pode ver aqui a resposta de Nick Cave aos seus fãs.