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Kurt Cobain

“A maior perda da nossa geração”. Um texto de Thurston Moore, dos Sonic Youth, sobre Kurt Cobain

Em 1991, os Sonic Youth e os Nirvana dividiram palcos e Thurston Moore teve a oportunidade de testemunhar de perto um mito em construção. Em 2014, abria o livro das memórias e desenhava-nos um retrato íntimo de Kurt Cobain, falecido há 25 anos

Quando vi os Nirvana a tocar num pequeno clube de Nova Jérsia chamado Maxwell's, percebi logo que o Kurt tinha algo de especial. Eles ainda não eram conhecidos e ninguém ia vê-los nesses sítios para onde se deslocavam numa carrinha rebentada só tinham um single na rua, «Love Buzz». Fomos lá porque éramos amigos do Bruce Pavitt, da Sub Pop, e dos Mudhoney. Os Nirvana eram só mais uma banda naquele catálogo não foi nada de especial que nos levou até lá. Contudo, eu estava mesmo ao lado do J Mascis dos Dinosaur Jr, e pensámos o mesmo: «estes tipos são mesmo muito bons».

Eles eram muito excitantes e o cantor tinha uma voz absolutamente perfeita para aquele tipo de música. Mas, para dizer a verdade, julgávamos que eles iam ser fantásticos da mesma maneira que outras bandas que vimos na altura nos pareceram fabulosas: os Screaming Trees, os Mudhoney, os Killdozer ou os Laughing Hyenas. Era a nossa cultura de bandas no underground americano havia ainda os Jesus Lizard e tantos outros e os Nirvana pareciam encaixar-se na perfeição nesse espírito. O que pensámos, então, foi: «oh, maravilhoso, mais uma banda realmente boa». Mas apenas isso.

Depois, quando os Nirvana entraram em digressão connosco, lembro-me de o Kurt me dar uma cassete com algum do material em que eles andavam a trabalhar e que haveria de se transformar em Nevermind. Essa música pareceu-me menos pesada, menos metalpunk do que os temas de Bleach. Soou-me mais pop. Lembro-me de ficar a pensar nisso: «bem, aliviaram as coisas um bocadinho». No entanto, não fazia a mínima ideia de que o que eu estava a ouvir se transformaria num dos discos mais significativos de sempre da história do rock'n'roll.

Foi importante para o impacto do disco a MTV ter começado a passar o teledisco de «Smells Like Teen Spirit» sem parar. Aquela música transformou-se na voz de uma geração que na altura não tinha voz. Tudo o que tinham era uma porcaria chamada Guns N' Roses. Era a altura certa para os miúdos concluírem rapidamente que não tinham que aturar os Guns N' Roses. Foi como se toda a gente tivesse pensado ao mesmo tempo: «agora temos isto e isto representa-nos na perfeição». Essa mudança foi muito importante para todos nós porque nos validou a todos como músicos e artistas que trabalhavam naquele tempo. A exposição fez-nos perceber que tínhamos uma ligação com uma geração inteira de amantes de música que não tinham uma representação na cultura de massas, na cultura mainstream.

Thurston Moore em 1991

Thurston Moore em 1991

Getty Images

Claro que tudo se tornou um produto, pouco depois: o grunge, de repente, estava em todo o lado. Mas o que é que isso importava? O que sabíamos é que tínhamos algo real entre mãos. Os Nirvana eram mesmo a sério. Não eram uma invenção. Não eram sequer como os Sex Pistols que foram o resultado de uma criação de Malcolm McLaren tendo em visita uma cultura específica. Os Nirvana criaram-se a si mesmos. Eram jovens que viviam sem dinheiro e que faziam música para o resto do mundo. É verdade que se tornaram milionários durante um bocadinho porque venderam milhões de discos e que Deus os abençoe por isso!, mas não foi algo que mudasse o Kurt. Ele não queria saber do dinheiro ou da fama, até porque não ficou por cá para se banhar nessas benesses.

O Kurt era um miúdo «cool», simpático e tão espiritual como qualquer outra pessoa. Eu gostava muito de estar com ele por causa do seu interesse nas margens da música: ele apreciava «esquisitices» como os Butthole Surfers, Sonic Youth ou Einsturzende Neubauten. Por outro lado, também entendia a beleza e a pureza de uma grande canção pop. Acima de todos os outros, os seus heróis eram os Beatles. Isso é notório quando se ouve a música dos Nirvana é uma devoção total aos Beatles. Não há muito mais que se possa dizer acerca de quem fez uma tal dádiva «aqui está algo que vos fará sentirem-se bem». Mesmo as canções que exprimem maus sentimentos fazem com que nos sintamos bem.

Quando andámos em digressão, eu tinha uma cassete com muitas bandas americanas de hardcore que costumava pôr a tocar antes de subirmos ao palco. O Kurt fazia-me imensas perguntas sobre aquelas bandas e recordo-me que ele tinha um particular interesse por um grupo de Washington DC chamado Void, o que me pareceu incrível porque eles eram selvagens e muito interessantes. Todos os rockers mais «arty» adoravam os Void. E o Kurt, claro, era um artista. Pintava, fazia esculturas e estava muito ligado às artes visuais. Era um «art rocker». Foi a maior perda da nossa geração.

Originalmente publicado na BLITZ de abril de 2014