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Uma parceria com o jornal EXPRESSO

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Tó Trips, Ana Bacalhau, Fernando Alvim, Ana Markl

Rita Carmo (foto de Tó Trips)

Onde estava quando Kurt Cobain morreu? Toda a gente se lembra

Tó Trips estava em casa de Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés, Ana Bacalhau perdeu um pedaço do seu mundo, Ana Markl enfiou-se no quarto e chorou muito

Ana Bacalhau (música)
«... o malogrado cantor dos Nirvana...» foram as primeiras palavras que ouvi naquele dia, quando liguei o rádio. Sentada na cama, meio zonza de sono, torci para que «malogrado» não quisesse dizer o que realmente queria dizer. Não havia engano. Kurt Cobain estava morto. Senti que tinha perdido um pedaço do meu mundo. Tinha 15 anos e aquilo que ele escrevia era-me tão próximo do âmago que era como se cada letra contasse um bocadinho da minha realidade. Peguei na guitarra e toquei «Polly» e «Something in the Way». Ao fim do dia, tinha composto a minha canção de homenagem. «Kurt lives 4ever». Posso não ter acertado no brilhantismo da composição, mas, olhando para a influência da sua música 20 anos depois, não errei o título.

Ana Markl (radialista)
Estava em casa. O meu irmão já trabalhava na rádio e, como na altura não havia internet, recebia a informação por telex. Primeiro, telefonou-me a dizer que tinham encontrado um cadáver em casa do Kurt Cobain e depois acabou por me dizer que era o cadáver dele. Chorei muito. Nem esperava ficar tão desgostosa. Nunca foi aquela coisa do ícone ou «que lindo que ele era», acho que chorei mesmo com o fim inevitável dos Nirvana, por nunca mais voltar a ouvir um disco novo deles. Não jantei. Foi uma ótima desculpa para não comer jardineira, prato de que não gosto. Enfiei-me no quarto e fartei-me de chorar.

Clara de Sousa (jornalista)
Gostava de Nirvana mas não como os meus amigos da [Rádio] Marginal. Dei a notícia e lembro-me de ficar na incredulidade total... Não fazia sentido uma pessoa com aquela idade, com sucesso, aquela criatividade e o futuro que tinha pela frente, suicidar-se daquela forma. Eu era muito jovem e, mesmo não tendo filhos, não conseguia compreender como é que alguém que tinha acabado de ser pai punha termo à própria vida. Mas não foi propriamente como quando morreu o John Lennon. Aí, passei três dias a chorar na casa de banho e ouvi «(Just Like) Starting Over» dias a fio.

Fernando Alvim (radialista)
Ainda vivia no Porto e curtia a cena grunge. Soube através de um jornal e senti que morreu um ícone, que tinha feito parte da minha vida. Posso dizer que não era totalmente seguidor dos Nirvana. Gostava muito deles mas não era maluquinho dos Nirvana... Mas sim, senti pesar.

Tó Trips (músico)
Estava em casa do meu amigo Zé Pedro, dos Xutos. O Zé estava fora e emprestou-me a casa. Tive a sorte de os ver em 1991 no festival de Reading, à tarde, antes de estoirarem, e no ano seguinte a fecharem a noite o Kurt entrou em cadeira de rodas e eles partiram aquilo tudo! Vi-os também em Cascais.

Depoimentos recolhidos por Lia Pereira. Originalmente publicado na BLITZ de abril de 2014