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Samuel Úria segurando "Bleach", primeiro álbum dos Nirvana

Rita Carmo

“Morreu o maior”. Um texto de Samuel Úria sobre Kurt Cobain, falecido há 25 anos

O cantor e compositor português viajou no tempo e aterrou em Tondela para recordar uma devoção que explica em rigorosas 1994 palavras. “Um número simbólico" para um testemunho sincero que voltamos agora a publicar

Existe um filme de 1992 chamado Kuffs, protagonizado pelo Christian Slater. Não sei se para a maioria das pessoas este facto é irrelevante, uma novidade, ou ambas as coisas. Para mim nem uma nem outra: a 8 de Abril de 94 programei o meu VHS para gravar um filme que ia passar na RTP 1; chamava-se Kuffs, tinha o Christian Slater. O que não estava programado, e só descobri na manhã seguinte, foi o pedaço de noticiário televisivo que a gravação ainda apanhou. Carreguei no play e, instantaneamente, assisti à notícia requentada que mudou a minha adolescência: o Kurt Cobain tinha morrido. A consternação impediu qualquer fast forward, mas foi a correr que me dirigi ao quarto da minha irmã para lhe dar a triste nova. Morreu o maior. Calhou num dia em que a carreira do Christian Slater ainda sobrevivia.

Começar a descrever a minha relação com o Cobain a partir do seu falecimento pode parecer precipitado. Admito que o episódio não constitui o início do fascínio pelo frontman dos Nirvana, mas desengane-se quem pensar que a morte é o último capítulo. O finado naquele noticiário representa o meio da minha história, tão inacabada que ainda agora escrevo sobre o assunto. Comecei, então, pelo meio. Com uma morte tal como o início do Tudo Bons Rapazes, que começa a meio e com uma morte abrupta, mas na mala de um carro. Aproveito a boleia do carro e do Scorsese (que uma vez disse que «todos os inícios são insondáveis») para avançar até um parágrafo de inícios insondáveis.

Tinha 12 anos e crescido quase 10 centímetros na prévia meia dúzia de meses. Mas nem o facto de já ser o mais alto da família me atribuía autoridade para, naquela longa viagem de carro, ser eu a decidir a sintonia do autorrádio. Felizmente este pormenor radiofónico só adocica a ironia do relato, pois foi na RFM, a estação que consegue ser ainda menos alternativa que a casa-mãe-apostólica-romana Rádio Renascença, que ouvi Nirvana pela primeira vez com olhos de ouvir. 20 anos depois, pude escrever para a BLITZ sobre esse momento e essa canção, numa síntese que dizia: «A minha cronologia pessoal bem que podia ser contada a partir da tarde em que ouvi a "Lithium" pela primeira vez. A porta de entrada para os Nirvana surgiu-me numa canção com um começo triste que afirma "Estou tão contente". Iniciava, literal e metaforicamente, a minha adolescência: calma e violenta, depressiva e efusiva, plácida e destrutiva, tal como a faixa 5 do Nevermind. Os "Yeah!" mais eloquentes da história da música».

Não vou forjar o passado assumindo uma grande identificação com o Kurt Cobain. As dores, as drogas, as angústias e as paixões não eram as minhas, mas tentei apropriar-me da intensidade ou desespero com que isso se materializava em canções. Nunca quis entrar na alma do atormentado Kurt, só vestir-lhe a pele: que o diga o meu guarda-fatos dos anos 90, repleto de epidérmica flanela, roupa desbotada e tantos buracos quanto calças. O desleixado cabelo comprido que usei apontava mais para a estranheza desgrenhada dos acordes dos Nirvana do que para o desmazelo da vida do Cobain.

Posso até afirmar que o meu fascínio residia sobretudo naquilo que não me fazia sentido, no que não compreendia nem queria compreender. As letras dos Nirvana que colavam fragmentos de vários poemas desconexos, sem preocupações lógicas, fizeram-me perceber que a comunicação na música não tem de estar sempre ao nível discursivo, nem a fruição de canções estar dependente da sua compreensão.

Nunca precisei de querer decifrar o Kurt Cobain para perceber a sua sinceridade, ou reconhecer a emotividade da sua expressão. Nunca precisei de simpatizar com as agruras para simpatizar com a sua forma de lamentá-las. Não é que eu seja minimamente indiferente ao sofrimento humano, mas às vezes é bom acautelarmo-nos do que realmente queremos imitar, e eu queria imitar o Cobain não na experiência de vida, mas na reflexão que dela ele fazia. Talvez a minha veia cristã me tenha influenciado no mimetismo «cobainiano», por querer reagir como uma pessoa sem desejar o calvário pelo qual ela passou.

Próximo da saída do Nevermind, os meus pais ofereceram uma guitarra acústica à minha irmã, o primeiro instrumento de cordas funcional e afinado numa casa dominada por teclados eletrónicos. Quando estalou o In Utero, fui pedindo emprestada a guitarra, sobretudo para não ser a única pessoa do mundo sem conseguir sacar o riff da «Come As You Are». Depois do Unplugged In New York já tocava esse mesmo disco duma ponta à outra, ainda que não me tivessem ensinado qualquer acorde. O espelho das mãos canhotas do Cobain foi um belo professor, e ninguém daquela casa dominada por teclados diria agora que a guitarra acústica pertencia à Sara Úria.

O suicídio do Cobain adensou a lista de exemplos clássicos em que a morte favorece a popularidade de uma banda. Não foi estranho, por isso, na malta do liceu que antes curtia Dr Alban, Scorpions ou MiniStars, de repente aparecerem pavorosas t-shirts dos Nirvana compradas na feira de Tondela. Se até eu (que demorei algum tempo a transitar de mero ouvinte para caricatura andrajosa do grunge) tive acessos de snobismo ao ver os novos fãs, imagino o desapontamento do Grilo. O Grilo era o epítome da «fixeza» na minha escola secundária, e o único gajo que genuinamente se parecia com o Kurt Cobain muito antes do fenómeno fúnebre. Não só cabelo, barba e roupa o constituíam único herdeiro tondelense dos Nirvana, como o gajo ainda se dava ao luxo de ter a mais impecável das poses, numa bipolaridade que ia da displicência cool aos surtos enérgicos e rebeldes dum punk. Acrescente-se ainda o domínio da guitarra e a invulgar aptidão para escrever canções e fica claro por que é que incluo o Grilo nas memórias deste texto. Não funcionava como uma reencarnação local do Kurt Cobain, mas era o embaixador mais próximo e fidedigno dum estilo que eu desejava imitar. Foi ele quem me gravou o Bleach em K7, favor que pedi timidamente, pois nem antes lhe houvera dirigido alguma vez a palavra, nem ele fazia ideia que eu existia. Quase senti que devia tratá-lo por «senhor», qual novato jogador benfiquista na década de 60 a dirigir-se ao capitão Mário Coluna. O «monstro sagrado» Bruno «Grilo» acedeu e trouxe-me a K7 gravada alguns dias depois. O episódio foi antes do suicídio do Kurt e dos novos fãs, quando granjear discípulos ainda era mais imediato do que lamentar a exclusividade malbaratada em t-shirts da feira.

Tive uma banda chamada Le Tubaron que durou, não um concerto, mas apenas um concurso do liceu. Curiosamente estava o Grilo na bateria já tinham passado alguns anos desde a cópia pirata do Bleach e agora dava-me bem com o Cobain da Beira Alta. Hoje é fácil aperceber-me que atrás da referida «displicência cool» o Bruno escondia paciência e simpatia, pois só assim se explica que ele, experto escritor de canções, tenha acedido a tocar aquela composição verdinha que fiz para os Le Tubaron. Era uma música absurdamente próxima da «Drain You», no Nevermind. O intuito não foi plagiar, nem sequer homenagear a referência, só que a sequência de acordes inicial da «Drain You» era demasiado entusiasmante.

Querer fazer uma canção que não soasse minimamente àquilo parecia-me um erro colossal. A melodia cantada, no entanto, fugia à colagem e o tema até podia ter escapado da mediocridade se não fosse a letra: um chorrilho de piadolas sem sentido, um absurdo desprovido de charme. Hoje é-me fácil reconhecer a ingenuidade e confusão com que aquela letra foi escrita, e o Cobain não está isento de culpa. Há uns parágrafos atrás falei do meu deslumbramento com a tal escrita desconexa nas canções dos Nirvana, a espécie de «cadáver esquisito» incongruente de uma só esquizofrenia. Referi antes que me interessava a expressividade mais que o entendimento, mas agora concluo que isso (em correspondência artística) me parece menos próximo do abstracionismo e mais apegado ao surrealismo. As canções de Cobain estavam repletas de símbolos concretos e reconhecíveis, mesmo que eu não soubesse (ou quisesse) relacioná-los em puzzle. Uma vez que qualquer teenager que se preze é fascinado pelo surrealismo, e uma vez que eu nunca fui à bola com a pintura do Salvador Dalí, escolhi letras como a da «Smells Like Teen Spirit», ou o videoclip do «Heart Shaped Box», para os melhores escapes surreais da adolescência. Os cut-ups de influência beat nos poemas do Cobain, junto com a minha fase de militância non-sense montypythoniano, e ainda uns largos temperos de boçalidade juvenil, fizeram com que a toada engraçadinha das minhas primeiras canções fosse um desastre. Faz parte. Até nesse embaraço sou grato ao velho Kurt.

Não tenho dúvidas em afirmar que os Nirvana foram a banda mais importante dos anos 90. Faço a adenda pessoal em considerar que também foram a melhor. Fui do grunge porque ele sempre me pareceu um subproduto dos Nirvana e não o inverso. As restantes bandas do movimento facilmente me aborreciam, dificilmente me interessavam. Mais depressa faria uma mixtape que juntasse Nirvana ao que de excitante surgia na britpop, do que a outros lamentos sujos de Seattle. A minha última década do século passado tem mais de Sonic Youth, Beastie Boys, RATM, Blur ou House of Pain do que tem de Alice in Chains, Soundgarden e (bocejo) Bush. Isto para saber que a fixação pelas canções do Cobain não era uma idolatria irracional, mas um genuíno apreço das suas qualidades. Nirvana não me deixou refém de Nirvana, nem sequer do estilo de Nirvana, apenas apaixonado e numa relação aberta. A morte do Kurt Cobain não me transformou numa viúva que desdenha futuro amor, antes fez enamorar-me ainda mais por música, entregar-me a ela, ir procurá-la e também ser seu artífice.

Perdi a conta aos estilos que toquei e às pequenas bandas que tive na última metade dos anos 90. Depois de querer ser apenas um médio plagiador de Nirvana toquei em coisas punk, garage, ska, hardcore, blues e até cheguei a fazer parte de um power-trio de trip-hop psicadélico. Normalmente relato o meu início de escrita de canções mais consciente, criterioso, quando deixei o esquema de bandas e me interessei pelos bardos desacompanhados. Aponto a descoberta dos primeiros discos do Bob Dylan como berço da minha carreira. Nunca creditei os Nirvana nesta génese, mas isso acaba aqui e agora: se não fosse o elogio público do Kurt Cobain ao Lead Belly, provavelmente tinha-me emaranhado no «cantautorismo» folk muito mais tarde na vida. Arriscava-me a ter permanecido ávido de mais piadolas adolescentes e perdido irreparavelmente o comboio do passado que me trouxe até este presente. Sabe-se lá que t-shirts da feira com cantores malogrados trajaria eu hoje.

Na cena final do Tudo Bons Rapazes, o personagem do Ray Liotta fala das coisas que perderam sabor no presente, e tem uma alucinação com o passado que, glamoroso, dispara tiros de revólver na direção dele. No fundo, queixa-se da vida que tem, indiciando que se queixa de ter vida. Simboliza, em parte, o falso drama de envelhecer: enaltecemos o vigor antigo esquecendo que envelhecer é a mais fulgurante vitória da vida. Cada dia é um dia acumulado, e um novo dia até pode ser esbanjado a recordar coisas velhas. Às vezes tenho saudades de regressar ao tempo em que a música me sabia à «Lithium» numa longa viagem de carro, noutras amaldiçoo a falta de entusiasmo que voto às novidades. Mas faz-se luz cada vez que me alertam que os anos 90 estão a voltar, que me previnem que o grunge anda a infiltrar-se. No guarda-fatos ainda moram algumas camisas de flanela em bom estado e apercebo-me que não carece regresso aquilo que nunca saiu. Falar do Kurt Cobain é pegar em coisas que nunca foram embora, e nem sequer me dão tiros como na alucinação final do filme do Scorsese. Perdoem-me, mas já do filme do Christian Slater não me lembro de nada útil.

Originalmente publicado na BLITZ de abril de 2014