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Manel Cruz

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“Estive perdido, sim. Mas queria continuar a brincar, a sentir pica, a apaixonar-me”. Manel Cruz em longa e saborosa entrevista

Canções, confissões e revelações. Sete anos depois do último disco, Manel Cruz está de volta e falou com a BLITZ sobre a “depressão criativa” que antecedeu este disco umbilical, mas também sobre o final dos Ornatos Violeta – que no verão regressam aos palcos –, o turismo no Porto, ética & internet, fama & culpa. Entrevista desassombrada com uma das grandes figuras da música da Invicta e do país

Lia Pereira (texto), Ana Veloso (vídeo), Joana Beleza (edição vídeo)

São dez da manhã quando Manel Cruz atravessa a Rua do Heroísmo, no Porto, para entrar no Centro Comercial Stop, onde tem o seu estúdio. Ao longo de mais de uma hora, o músico fala sem pudor do presente, marcado pelo lançamento do álbum a solo “Vida Nova”, mas também do passado, com paragem obrigatória nos Ornatos Violeta e nos sentimentos contraditórios que o final da banda, em 2002, lhe provocou. Conversa livre para ler com tempo.

Está entusiasmado com a chegada, por fim, desta “Vida Nova”?
Sim! Principalmente porque acabou e agora posso fazer outras coisas.

À semelhança de um gato, este disco teve várias vidas. Consegue localizar qual a canção mais antiga e a mais recente neste alinhamento?
Posso identificar uma das músicas, que curiosamente é a primeira [no alinhamento]. Foi uma feliz coincidência, porque é a canção que, quando surgiu, me fez acreditar que ainda era possível fazer coisas que me satisfizessem na música. Não que alguma vez duvidasse que pudesse ser possível, mas já há muito tempo que não me acontecia. A certa altura, predispus-me a ir outra vez à colheita da fruta. E esta música, 'Como o Bom Filho do Vento', fala precisamente disso: “Estou à procura de um túnel no tempo, gesto incauto que me empurre por um momento”, que tem a ver com o facto de estares à procura mas também à espera que alguma coisa aconteça e que a reconheças como valiosa, como uma garimpa. Entretanto, fiz muitas músicas em horário de função pública; começava às 8h e acabava às 16h. Fazia uma por dia: era uma espécie de imposição minha. E pensei: “se nestes quatro meses não produzir nada, vou dedicar-me a outras coisas”. [Fi-lo para] fazer face a essa ansiedade e a essa depressão criativa, e para tirar as teimas. Quando essa música me surgiu, o que me veio à cabeça foi: “ainda é possível”. É como quando tiras muitas fotografias e reconheces uma que é boa. E depois acabou por ficar no início do disco. Fiz muitos alinhamentos possíveis, e quando ouvi aquele de que gostei [mais], reparei que havia uma narrativa, uma cronologia, que tinha a ver com o processo pessoal de feitura do disco.

Quanto tempo durou essa crise criativa?
Uns anos valentes. Desde o disco de Supernada [em 2012] que não editava nada. Fiz o Ovo, que muita gente disse que era um projeto mas era só uma música, foi quase um evento! A música só ficou gravada em vídeo, numa espécie de instalação. E sempre tive a coisa de fazer música, por muitas razões, sejam mais pessoais, ao nível da vaidade, ou da habituação e da questão de gostares do que fazes... estava tudo um bocado baralhado e, por falta de prática e rotina, essas coisas andavam todas à luta na minha cabeça, numa espécie de banho-maria que não era pacífico. Mas havia alguma coisa a chamar-me, fosse para fazer a música ou para desistir. Já somos adultos e tentamos colocar as coisas nos seus sítios: a parte da subsistência, da sobrevivência física, tua e dos teus, e da sobrevivência espiritual. Como vais separá-las, juntá-las e criar compromissos entre elas. Estive perdido, sim. Mas queria continuar a brincar e a ser infantil e comecei a sentir necessidade de mexer na massa.

Manel Cruz com a Extensão de Serviço, no festival Vodafone Mexefest, em 2017

Manel Cruz com a Extensão de Serviço, no festival Vodafone Mexefest, em 2017

Rita Carmo

Neste intervalo da música, trabalhou como ilustrador?
Sim, fui fazendo trabalhos gráficos e cheguei a fazer concertos, com a Estação de Serviço, que foi uma maneira de eu poder tocar e ganhar o meu, propondo-me um desafio que fosse o mais interessante possível, que neste caso passou por tocar músicas antigas com roupagens diferentes e voltar a tocar com os meus amigos. Mas era uma coisa que me satisfazia a um nível provisório.

Algumas canções que tocavam muitas vezes ao vivo, como 'Maluco', ficaram de fora do disco...
Ainda tentámos gravá-la, mas não conseguimos captá-la. Funciona muito ao vivo porque não tem arranjos; tem uma harmonia, uma letra, uma cadência, mas tudo o resto é sempre de improviso, sempre diferente. Numa sala de ensaios, podemos ter cristalizado uma versão, mas não conseguimos transmitir aquela coisa. Como essa ficaram muitas de fora e depois também começámos a perceber o que era este disco, que foi feito com aquela ideia mais clássica de disco, de objeto. As coisas têm de poder ser ouvidas assim, então a recolha das músicas também acabou por tentar servir esse propósito.

Numa altura em que muitas pessoas ouvem só uma canção ou veem só um vídeo, quer que “Vida Nova” seja escutado como um álbum?
Sim! Gosto mais dessa ideia, embora também me atraia muito a [possibilidade] de editar músicas, só. Mas estive tanto tempo fora que achei que era fixe criar um objeto mais imersivo.

Quando conheceu o brasileiro Rodrigo Amarante, sentiu um novo ânimo para continuar a trabalhar. À semelhança do que ele fez durante a feitura do disco “Cavalo”, também deitou para o lixo as primeiras 25 canções deste “Vida Nova”?
Não sei se foram 25, mas essa conversa que tive com ele foi muito fixe. Ainda por cima, naquela altura eu estava a sentir-me um cotão artístico. Vazio... porque a verdade é esta. Não interessa o que fizeste, isso não te vai alimentar para a frente. Vai alimentar o teu ego, mas se o teu trabalho é esse, se te sentes mais criador do que propriamente músico... um criador tem de criar. Quando eu conheci o Rodrigo, sentia-me um daqueles autocolantes que não consegues tirar do soalho. E ele, um gajo que tinha um trabalho incrível, lindíssimo, super brilhante, que me inspirou tremendamente e que eu adorei! Perceber que ele também tinha passado pelo meu processo foi muito fixe. Foi o André Tentugal [músico e realizador] que me disse: “não queres conhecer o Rodrigo?”. Eu nem as músicas dele conhecia, conheci naquele momento. Passados dois dias estava a jantar lá em casa. Estivemos a conversar, eu estava com a guitarra e tocava umas músicas, ele tocava outras. E, quando eu estava a tocar as minhas músicas, não estava a acreditar nada, nada. Mas ao mesmo tempo sentia que me estava a fazer um bem tremendo, não sei explicar. É quase como uma purga. Pôr cá fora o que tens, seja a frustração ou o que for. Podia não me apetecer tocar, mas lembro-me de pensar: “não, vou ter o scan justo daquilo que é a minha realidade agora”. A coisa honesta que posso fazer é assumir isso. Foi como aquele quebra-gelo no teatro, quando tens de abraçar ou mexer. Não te apetece, mas forças-te a fazê-lo. Foi super benéfico e produtivo. E depois fui fazer a mesma coisa: fazer músicas, deitar ao lixo, e pensar que alguma coisa havia de sair. Foi uma inspiração.

Curiosamente também António Zambujo tem uma canção inspirada por Rodrigo Amarante, no último disco. E este “Vida Nova” também tem alguma da aura lunar e insular do “Cavalo”...
Certo! Curiosamente, eu sempre copiei toda a minha vida. Influencio-me, copio, porque sempre achei que, mesmo que quisesse, não conseguia fazer uma cópia fiel. À partida estás defendido. Porque as pessoas são especialistas em ser elas próprias, não és tu que em dois dias vais conseguir. Mas em relação ao disco do Rodrigo Amarante, que adorei e me inspirou imenso, não senti vontade nenhuma de abordar, formalmente, essas coisas, porque a minha vontade era aproximar-me de mim, como ele conseguiu aproximar-se dele. A minha batalha não era formal, era muito mais essencial e nuclear. Estava muito mais preocupado em voltar a divertir-me, a sentir a pica e o entusiasmo, em voltar a apaixonar-me não interessava por quê ou por quem, só queria voltar a ter esse sentimento.

Esse desejo de aproximação de si mesmo reflete-se nas fotos que tirou para este disco, em que se olha ao espelho, meio distorcido?
Esta questão das fotografias e da imagem é muito mal entendida na nossa sociedade, que é uma sociedade que não tem tempo para filosofar. É muito fácil rotular as pessoas e achar que percebes as suas intenções, quando estás afastado do que as define na essência. Desde miúdo, eu nunca quis explorar a minha imagem. Nunca quis ser famoso. Muito famoso. Mas sempre fui vaidoso, sempre fui egocêntrico. Ao mesmo tempo, sempre gostei de pensar nos resultados das coisas, de fazer a minha análise sociológica. Via muita gente famosa infeliz, e gente não famosa a querer ser famosa. E não famosos infelizes, e famosos felizes. As coisas são um bocado aleatórias, mas há padrões que consegues entender. E depois também ter a ver com as pessoas. Não se pode dizer que a fama traz infelicidade, mas também não se pode dizer que traga felicidade. Tem de se perceber que a fama é perigosa, como outra coisa qualquer. Como a droga, que é boa, mas perigosa. E como o amor, que é bom, mas tem perigos! Eu acho que percebi isso desde muito cedo. Lembro-me de a minha mãe dizer de uma amiga minha: “convidaram a Catarina para fazer um reclame da Pepsodent”. Eu era puto! E a minha mãe disse: “não sei se acho muito bem, porque depois vai ser a menina da Pepsodent”. E este comentário não é necessariamente verdade; ela até podia ser super popular na escola, muito feliz e lidar bem com isso. Mas também podia ter lidado mal. Lembro-me de pensar: isto não é linear. Sempre senti isso. Que posso ser reconhecido pela minha música, e ter a minha quota parte de vaidade satisfeita, mas a minha imagem, quer eu queira quer não, passa uma mensagem, uma ideia. E se eu não estou disposto a perder tempo para dominar isso, porque é uma questão de tempo, prefiro não ter. Eu adoro fazer música, adoro criar. A parte que curto mais é a brincadeira.

Em que altura sentiu mais essa pressão da fama?
Na altura dos Ornatos. Pelo menos que me desse para entrar em paranoia. Quando somos putos, a fama pode fazer sofrer mesmo muito. Um gajo sendo tendencialmente egocêntrico, andando à procura da sua identidade... de repente mete-se ao barulho uma coisa que tem um poder imenso, que é a parte mediática e social, que devia estar reduzida à sua importância. Mas mimeticamente acabas por absorver o resto e a dada altura já não sabes porque é que estás a fazer as coisas e duvidas da tua própria pureza. E até aceitas menos coisas a que tens direito, porque tens medo de estar a ficar bêbedo com a coisa. Na altura dos Ornatos, as coisas eram muito diferentes. Quando os Ornatos acabaram, a maneira como eu senti aquilo... era um crime o que eu estava a fazer! Deitar por terra uma coisa que dava muito dinheiro, que me dava fama, que nos garantia um futuro. Levar com essa merda às costas e ter a confiança de dizer: “a minha vida eu faço como eu quiser, só tenho de ter honestidade de assumir as consequências disso”. Mas sem perder o meu espaço para optar, no momento em que sou uma criança, não tenho certezas e quero ter liberdade para discutir. E isso foi duríssimo. Só agora, passados estes anos todos, é que consigo falar disto e perceber como foi duro, e poder dizê-lo sem medo de cair lá outra vez. Até aqui era dourar a pílula para achar que nem foi muito mau, porque só falar disso levantava-me fantasmas e coisas. Hoje em dia não.

Sentimento de culpa?
Culpa, por exemplo. E ódios, também ou rancores. Essa parte de não saber gerir, não saber pôr as coisas nos sítios certos e encolher os ombros, também. Às vezes não tens respostas para as coisas, pura e simplesmente.

Fotografado no Porto, em junho de 2017

Fotografado no Porto, em junho de 2017

Rita Carmo

Houve uma ressaca depois do fim dos Ornatos. E depois dos concertos de reunião? Todo aquele carinho que receberam não causou, também, uma certa 'ressaca'?
Teve, mas a outro nível. Porque o concerto fez-me mesmo muito, muito bem. Tinha medo que se estragasse uma imagem, mas ao fim e ao cabo essa imagem era também ela social e mediática... E resolveu-me coisas muito importantes, como desmistificar certas coisas e estar com os meus amigos outra vez. E ter aquela gente toda ali... isso foi bom a todos os níveis, desde a vaidade à cena comum da partilha. Mas a grande ressaca foi depois do fim e foi uma depressão enorme; para mim, foi outra vida. [No início] a minha cena nem era a música, eram os desenhos, e eu adorava divertir-me e brincar com as coisas: era como um dos meus putos mais novos, que está sempre a desenhar, a falar, a filosofar, com uma alegria tremenda! Depois tive a parte da adolescência, em que começo a ficar meio estúpido... a questionar as merdas todas. Podia ser só um período de adolescência, mas foi uma grande depressão de muitos anos, depois dos Ornatos, porque eu transformei-me noutra pessoa, mesmo! Quase como uma hipoteca. Entrei num buraco. Um buraco de muitos anos. Não quer dizer que deixasse de ser eu, mas não tinha esperança de voltar a recuperar aquela coisa de rir, de brincar... é uma coisa simples. O ânimo! E acreditar outra vez nas coisas mais simples e mais fixes. E isso foi uma ressaca de muito tempo. O concerto de Ornatos resolveu um bocadinho isso, isso e começar a perceber que não sou assim tão importante. Que me dei demasiada importância. Quando és mais velho, percebes isso. Mas quando és mais novo e te acontece a fama, pedem-te que não te dês tanta importância mas, ao mesmo tempo, estás a tê-la. Quando os putos me aparecem com a cena dos views e dos likes, eu sou um nabo, como o meu pai era em relação à minha realidade, desfasado de montes de coisas. Mas há uma coisa que continua a ser comum a todas as gerações: há tempo. Há tempo para as coisas. Até há mais, que as pessoas vivem mais tempo!

A popularidade máxima dos Ornatos Violeta precede a explosão da internet como a conhecemos hoje. Se estivessem 'no ativo' hoje, teriam de lidar com os comentários, os haters e toda essa pressão. Seria ainda mais complicado?
Por um lado, sim. Por outro, hoje tens alternativas mais baratas. Na altura, se não fosses para uma multinacional não lançavas um disco. Ou então tinhas tomateira e fazias uma independente, mas era preciso todos termos essa coragem e sermos mais maduros do que éramos. Na altura dos playbacks [na televisão], eu não queria fazer e foi um drama tremendo, porque não fazer playbacks fechava portas, teoricamente. Mas era uma daquelas portas que eu também não queria abrir há portas que eu até ajudo a fechar, se for preciso. Na altura, todos tínhamos objetivos diferentes e eu tinha a consciência que também tinha de respeitar essas vontades. Como banda, fazíamos um compromisso entre o que cada um queria. Mas a pressão era grande. E cada um tinha as suas razões válidas. Mas se não fazias playbacks não ias à televisão, se não ias à televisão não ias ficar tão famoso, nem ter tantos concertos... Se te incompatibilizasses com o sistema, ou eras arrogante ou mandavam-te lixar: “quem é que este gajo pensa que é?”. Se negavas uma coisa, não tinhas outras alternativas. Hoje poderias dizer: não queremos televisão, mas vamos ter um site, vamos fazer a nossa cena. Vejo estes tempos [atuais] como muito positivos. Porque as pessoas estão muito perdidas. E isso é muito positivo, em muitos aspetos, mas também muito exigente e angustiante, e causa muita ansiedade, não sei se é só a mim, por já estar noutra geração. Hoje temos as dificuldades inerentes a qualquer sistema, que é: quando podes fazer tudo, tens de perceber o que queres fazer. (risos)

Aquele tipo de piropo que sempre ouviu muito nos concertos “Manel, és o maior!” motiva-o ou acrescenta ainda mais pressão?
Dá-me aquela vergonha malandra! Que é ter vergonha, mas saber-me bem. Eu não sou o maior: o que é isso? Mas se não aceitar isso, então é que sou um vaidoso do carago! Quem és tu para não aceitares isso num determinado momento? Não é por estarem a dizer que és o maior que te vão dizer isso só a ti. Dizem a todos! É a questão do poder. Quem és tu para não assumires o poder que tens, achando que és mais puro que os outros? Eu tinha um livro, quando era puto, que era o Elefante Rama, e ele não queria pisar as flores, porque gostava muito delas. E queria ter umas asas... Mas aí não te permites ser humano e queres ser mais que os outros. Porque tu tens de estragar, tens de destruir, tens de assumir as coisas que fazes. Tens de fazer mal e ter os tomates para assumir isso. Quando eu tinha aquela sensação de “eu não pertenço ao palco, eu não quero exercer poder sobre ninguém”, comecei a pensar: as pessoas querem sentir esse poder e esse poder, ali, também é delas! Se não queres assumir esse papel, então sai dali! Tens de assumi-lo, sabendo que é um poder relativo e que podes abusar dele mas, se fores tranquilo, as pessoas também te vão ensinar a usá-lo. E passa a ser uma coisa menos tua. Isso também te liberta. “Afinal sou um crápula do caraças, altamente!”. Estou a ver uma série do Ricky Gervais, o “After Life”, e estou a gostar muito. É um gajo cuja mulher morre e ele desiste de tudo o que é ética, simpatia... tem muito a ver com esta questão.

Quando diz que este disco é um regresso às raízes, são raízes sobretudo éticas? Uma tentativa de recuperar uma certa pureza?
Na minha família, essa questão da ética e do respeito era muito importante, até como reação a outros sistemas e ao Estado, ao país. Eu nasci em 1974. E esta reação muitas vezes é extremada ao contrário. De repente, não te estás a vender por dinheiro, mas estás a vender-te por ideais. Não és católico, mas tens um ideal de Bem. Há tanta interpenetração entre essas coisas e tanta promiscuidade que acabas por comprar determinadas ideias e ideais com a beatice de um crente! De repente, dás por ti e é mais importante tu seres assim do que propriamente o mundo melhorar. A falência destes valores também não pode assentar no falhanço das tentativas. Houve uma altura em que punha tudo em causa, e pensava: pareço um fascista a falar. Mas são tudo pessoas, todos têm ideias, e se algumas ideias vingam, às vezes é por oposição a outras que também são demasiado absolutistas. E esse extremar de coisas é o que as torna tão absolutas. Ando a sentir que esta ideia de Bem e de bem comum poderá subsistir a esta descrença toda da sociedade. Ainda agora vai haver uma manifestação de putos, a greve climática, e a sua falta de ego e lucidez inspiram-me para conseguirmos criar melhor comunicação entre todos. Eu acredito que o grande problema no mundo é a comunicação. Isto para responder à tua pergunta, aqui há atrasado. (risos) [O meu] ideal manteve-se. Felizmente que os meus pais me meteram essa sementezinha. Até acabarmos os nossos dias, [tentamos] sempre proteger e adaptar isso, essa ideia dos outros. Aí talvez seja um ato de fé ou uma questão religiosa. Eu acredito na sociedade. E não tenho razões nenhumas para acreditar. E também não tenho razões nenhumas para não acreditar. É um ato de fé.

Sempre foi muito crítico da sua voz, sobretudo em gravações mais antigas. Neste disco canta algumas canções praticamente só com o ukulele. Foi preciso coragem para se expor assim?
O Henrique Amaro uma vez perguntou-me: “porque é que não assumes a coisa de cantar sozinho, será falta de coragem?”. Provavelmente, [há] muita cobardia à mistura. Mas quando um gajo não sabe por que razão vai fazer uma coisa, acho que é melhor não fazer. Eu nunca soube por que razão o faria. E agora acho que já sei. E também coincidiu com uma vontade criativa, acima de tudo. Começou a aparecer um conceito do disco, uma coisa acústica e crua, de alguma maneira clássica mas um bocadinho podre. E comecei a perceber que a voz não podia estar maquilhada e escondida. Não era esse disco. Todo o espectro, fosse ao nível formal como sentimental e emocional, era toda uma procura a muitos níveis, e também essa: a de pôr a minha voz, ali, desprotegida, fragilizada, tentando evidentemente procurar beleza nisso. Senti-me capaz de assumir isso, com as imperfeições que tenho.

Por outro lado, canções como 'O Navio Dela' têm arranjos bem cheios e inventivos. Está preparado para que essa letra (“A minha mulher não é minha/É da cabeça dela/Mesmo achando que sim/Não precisa de mim/Isso é o que me agrada nela”) se transforme num hino...
Feminista? Estou. Estou, porque fui ao dicionário ver o que queria dizer feminismo. As palavras significam o que está no dicionário e montes de outras coisas... E eu próprio tinha esse preconceito: de que o feminismo era uma oposição, uma declaração de guerra aos homens. Mas não, o feminismo não é o mesmo que machismo para [o outro] sexo. São 'ismos', é a única coisa que têm em comum. O feminismo defende os direitos das mulheres e a igualdade de oportunidades e o machismo é o contrário disso, defende uma supremacia. Eu estou [preparado para uma interpretação feminista da canção], porque eu sou a favor das pessoas! Resume-se a isso. E quero partir do princípio de que isto não é uma guerra, não é uma luta. E que todas as pessoas que têm mulher, que têm amigos, querem que essas pessoas sejam o mais felizes possível. E depois há questões muito concretas, como a questão dos salários, da organização e da arquitetura social a esse nível, que são as mais importantes de trabalhar. E todas as outras são do foro pessoal, porque há muitas mulheres que são umas sostras e muitas que são muito trabalhadoras, e há homens na mesma situação. Era nesse sentido da comunicação que era fixe resolver as coisas e deixarmo-nos de animosidade.

Tendo crescido na Rua da Firmeza, no Porto, como olha para a cidade em 2019?
A estupidez e a ganância existem sempre. O turismo tem consequências tão amplas e contraditórias... Podes dizer: “o Porto está a desertificar-se e as pessoas têm de ir para a periferia, está a ficar muito turístico!”. Mas há 10, 15 anos, lembro-me de ouvir: “o Porto está deserto!”. E agora está cheio! E estamos sempre a analisar um momento, que é sempre um momento de transição. Eu sou sincero: gosto do Porto como está. Faz-me muita confusão o exagero, e aí o poder político pode ter alguma responsabilidade, com a [conversa] da projeção de Portugal no estrangeiro. Mas as pessoas não podem criticar se disserem: “transformei a minha casa em Airbnb porque precisei”. Também perdemos muitas oportunidades, socialmente, de fazermos aquilo em que acreditamos. E aí somos cúmplices do sistema. Eu tenho muita fé nas novas gerações, porque vejo gente nova muito criativa e com muita cabeça. Vejo a cultura a acontecer e também vejo alguns crimes a ser cometidos pelo poder político, como na escola da Fontinha. Eu detesto a cena da cultura! Quero que se lixe a cultura. Quero é que os meus amigos trabalhem, que eu trabalhe, e que recebamos dinheiro! Porque o dinheiro é a validação das tuas coisas. Tu consegues subsistir com as tuas coisas, não precisas de prestígio. Estão sempre a mandar-me com a cena do prestígio, que um dia vais ter, mas nunca vem. O que um gajo precisa não é de grandes eventos, com tecnologia, para fora, e grandes hubs criativos. Precisa é de trabalho, dinheiro, criatividade. E é isso que faz a cultura. Tudo o resto, para mim, é uma tanga.

Em 2017

Em 2017

Rita Carmo

Assina este disco como Manel Cruz, e não como Foge Foge Bandido. O nome faz diferença?
Estava a começar a assumir a coisa de ser patrão, que é uma coisa assustadora. Isto é o meu trabalho, eu trabalho com outras pessoas, dou-lhes trabalho... foi assumido, aqui. É o meu disco. Não que nas outras vezes não fosse, mas também era muito dos outros. E aqui, por ser eu o patrão, também não deixa de ser dos outros. Não é uma questão de assumir que é isto, é que já era mais do que evidente que era isto. Não tinha grande vontade de criar um nome para um projeto, é Manel Cruz, pronto.

No verão vai voltar a tocar com os Ornatos Violeta. Já começou a praticar? Ainda se lembra das letras?
Sim! Não comecei ainda. Mas estou pronto. Das letras ainda vá, mas as guitarras, os desenhos, ainda tenho de ir ouvir e tirar algumas coisas.

Como olha para as canções de “O Monstro Precisa de Amigos”, 20 anos depois?
Muito fixe! É engraçado que, com o tempo, e depois dos concertos do comeback, olho para aquilo de uma maneira distanciada. Estou com pica para tocar aquilo!

Passadas duas décadas, consegue olhar 'de fora' e perceber porque é que os Ornatos Violeta exerciam e continuam a exercer um fascínio especial sobre as pessoas?
Sim! Não. (risos) Tenho umas ideias sobre o assunto. São fenómenos, que vivem de muita coisa. Houve um momento, há uma parte de culto, de convencimento social... as coisas são irrepetíveis. Mas não nego que havia ali uma coisa forte, uma comunicação forte, uma consequência daquilo que nós éramos e fazíamos, que criava um objeto muito comunicativo e falava diretamente às pessoas. A algumas pessoas! E era muito visceral em muitos aspetos, muito irrefletido. Ao mesmo tempo que era muito irrefletido, era tanta a reflexão que depois era impossível dominar aquilo e acabava por ser irrefletido na mesma! E eu acho que isso também é fixe. Coisas que eu achava que eram demasiado, ou de menos, se calhar é disso que as pessoas gostam. Daquele impulso javardola. Que depois se modera e se tenta recuperar, em certas doses...

Prestou atenção ao Festival da Canção? Tem opinião sobre Conan Osiris e as reações que ele causa?
Já o tinha conhecido numa viagem de carro, já me tinham mostrado o disco. [O fenómeno] tem uma coisa muito boa, que é obrigar as pessoas a pensar nisso! O ideal é que não tivesse de acontecer assim, porque seria sinal de que as pessoas já tinham a mente um bocadinho mais aberta. Mas se acontece é porque, se calhar, há mais espaço a abrir nas mentes. Para mim, é mais um gajo a fazer música. E aquela coisa que dizem: ou se ama ou se odeia... eu nem amo nem odeio. Estive a ver uma entrevista dele, pareceu-me um gajo porreiro. Há muita coisa na música dele que me intriga e reconheço esse lado fixe, que não me parece que seja para provocar, mas por ser autêntico acaba por provocar. Eu acho que ele tem consciência da sua autenticidade, e isso é fixe. [O resto] é o fenómeno. Eu vejo a criação de maneira muito terra-a-terra.

“Vida Nova” chega a 5 de abril às lojas e aos serviços de streaming. A 28 desse mês, há concerto na Casa da Música, no Porto, e a 1 de maio Manel Cruz e a sua banda estarão no Capitólio, em Lisboa.