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Drake

Getty Images

“Como numa festa de anos”. Carlão foi ver um concerto de Drake a Paris e escreveu um texto a contar-nos tudo

Paris, março de 2019: uma rapariga de hijab a gravar histórias de Instagram, uma fã portuguesa “de olhos marejados numa espécie de transe” e o rapaz que sabe dar uma festa. Chama-se Drake. “Não tenho dúvidas: o hip-hop está para o meu século XXI como o rock esteve para o meu século XX”, escreve Carlão

Ao entrar no Accor Hotels Arena, em Paris, tenho poucas dúvidas de que o hip-hop está para o meu século XXI como o rock esteve para o meu século XX. Os seus protagonistas encabeçam cartazes de festivais, namoram com modelos e atrizes, morrem de overdose e ocupam as homepages dos sites de música e fofocas de Hollywood enquanto as canções que fazem não saem das playlists das rádios e topes de vendas.

Continuamos a usar o termo 'rock star', mas sabemos bem que não é à malta do rock que nos referimos quando o fazemos. Sendo difícil, ou melhor, impossível, avaliar qual o mais digno representante do género musical, podemos seguramente distinguir qual das estrelas mais brilha nessa constelação. Aí, os números apontam todos para Drake, que já quebrou todos os recordes de streaming/download no mundo digital.

As pessoas que compõem o público do primeiro dos três concertos da Assassination Vacation Tour que o rapper canadiano traz a França em Março são suficientemente diferentes entre si para fazer com que não se encontre uma tribo predominante na audiência. A poucos metros de mim, na plateia em pé, uma rapariga de hijab grava histórias de Instagram com o seu namorado. Se não é de estranhar a forte afluência de mulheres na assistência (já há algum tempo que os eventos de hip-hop deixaram de ser maioritariamente frequentados por homens) há que constatar que Drake é idolatrado pelas mulheres como nenhum outro peão neste jogo, muito pela astúcia de ter apostado a sério no potencial do público feminino, regra geral muito subestimado no rap: provavelmente será esse o principal fator diferenciador no sucesso do autor de 'In My Feelings'.

Como convidado especial para as datas de Paris, Drizzy traz o compatriota Tory Lanez, que tem a missão de aquecer as hostes para o 'headliner'. Acompanhado por guitarrista, teclista e DJ, Lanez dá conta do recado: rima e canta com uma segurança assombrosa, faz o número de mestre de cerimónias com propriedade, colocando parte significativa da audiência a cantar consigo os seus hits. Tira os ostensivos colares de ouro que traz ao pescoço antes de mergulhar para fazer 'crowdsurfing'. O povo está preparado, sem dúvida.

Os quatro lados de um palco retangular colocado a meio da arena, em jeito de ringue, são momentaneamente cobertos por cortinas de tule onde são projetadas imagens para a abertura do espetáculo de Champagne Papi, que nos primeiros minutos é um vulto que canta calcorreando os cantos do piso. A ansiedade instala-se e há um crescendo até as cortinas subirem para gáudio dos ávidos fãs. Desde o primeiro instante que se percebe que aquilo que que se vai passar aqui está muito à frente do que aconteceu com o 'opening act'. O chão do palco transforma-se em ecrã de leds, a quantidade de luzes aumenta uns quinhentos por cento. Pouco mais de uma dezena de pirilampos (que mais tarde percebemos serem drones) planam sobre o performer, acompanhando os seus movimentos num jogo mágico.

'Energy' e 'Started From The Bottom' estão entre os primeiros temas tocados e encaixam perfeitamente no momento. Neste espetáculo é tudo sobre o rapper. Se na primeira parte ainda víamos os instrumentistas no palco (ainda que postos nos cantos), aqui eles são remetidos para uma plataforma secundária, quase invisível, ficando apenas o DJ à vista de todos. Confessa que adora França, que revela ser o sítio onde nasceu o filho que foi mantido em segredo durante bastante tempo (segundo alguma imprensa, a ex-actriz porno Sophie Brasseaux, a mãe de Adonis, também nascida em França, terá assistido a uma das datas na zona VIP) e que, apesar de já ter feito muitas atuações na sua vida, a desta noite está a ser uma das melhores de sempre.

Ao mesmo tempo em que pensamos “pois, pois, dizes isso em todas” ou antes “dizes isso a todas”, uma parte nós acredita nele. Talvez porque antes de ser Drizzy Drake era Aubrey Graham, ator. Talvez porque queremos acreditar, porque há ali um inegável carisma de bom malandro super-estrela que faz toda e qualquer pessoa na plateia pensar no quão bom é estar tão perto dele, em carne e osso. Naquele espaço não há assim tanta gente, sendo o grosso dos bilhetes vendido para as bancadas, e existe uma linha amarela no chão que desenha um retângulo exterior ao palco, de dentro para fora, marcando uma área de onde a segurança não nos deixa sair, criando um largo corredor ao redor da base do recinto, o que estreita ainda mais esse sentimento – física e mentalmente.

Drake ao vivo

Drake ao vivo

Instagram Drake

Aos 32 anos, o nativo de Toronto já tem, entre mix-tapes, discos de originais e colaborações/participações, singles suficientes para se dar ao luxo de despachar 'So Far Gone' num só medley, deixar de fora do alinhamento temas de antologia como 'Hold On, We’re Going Home' ou tocar apenas 15 segundos de 'Hotline Bling'. Antes do final apoteótico com pirotecnia e confettis (“não é uma festa se não houver confettis”, terá dito noutra ocasião), um Ferrari amarelo sobrevoa o palco, há troca de roupa para o colete Louis Vuitton desenhado por Virgil Abloh ganhar ainda maior visibilidade, a subida ao palco de um grupo de bailarinas, uma parte dedicada a 'slow jams', um momento de concurso de cestos de basket, protagonizado por um tipo que faz um pedido de casamento em cima do palco (???!) o regresso de Tory Lanez para um tema e a aparição-surpresa do rapper britânico Giggs, conhecido amigo e colaborador, para outro, entre medleys vários.

Acontece muita coisa sobre o hipnotizante chão de leds onde pode assomar um mar revolto, um céu sereno ou a bandeira francesa, mas parece que nada ofusca – ou a nada nem ninguém é permitido ofuscar – o cintilar do criador da October’s Very Own, e é justo que assim seja. Afinal de contas esta é a sua “festa de anos”, o que não o impede de convidar constantemente o “maravilhoso” público a fazer barulho para si próprio, acrescentando que também ele dá o espetáculo.

Na recta final há uma espécie de apresentação Power Point, daquelas com que se costuma surpreender um aniversariante, só que esta é feita em bom, tem imagens xpto e foi trazida pelo dono do bolo. Fotografias desde miúdo, a beber champagne por um prémio Grammy ou acompanhado por Nicky Minaj. Fora dos ecrãs também se bebe champagne vindo do bar, que vende águas, sumos, cervejas, vodka com Red Bull e... Moët & Chandon a 12 euros a flute. Acaba a noite e ficamos com a certeza de que o rapaz sabe dar uma festa: que o diga Débora, vencedora de um passatempo Spotify/Digster, vinda diretamente da Margem Sul do Tejo, dedicada fã de vinte e poucos anos que tem no seu corpo várias tatuagens alusivas ao artista. Quando a encontro cá fora, nas imediações do recinto, no fim do concerto, está com os olhos marejados numa espécie de transe.

“E então? “, pergunto. “Só queria que não acabasse. Nunca”.