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Capitão Fausto

Rita Carmo

Como os Capitão Fausto chegaram ao quarto álbum a cantar o amor como gente grande

É tão simples que nem parece que já foi complicado. Chegou finalmente o ‘dia claro’ dos Capitão Fausto, um demorado puzzle transatlântico de uma banda que complica para ser pop. Um amor que vai e vem, uma entrevista em que os rapazes explicam como resolvê-lo

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

O negócio era de sonho: despesas pagas pelo mecenato moderno, os Capitão Fausto iam ao Brasil, bebiam caldo de cana com palhinha, gravavam um álbum dengoso e voltavam para mostrar o seu sambinha português a quem saltitou, vitaminado, com “Gazela” (2011), imergiu no magma psicadélico de “Pesar o Sol” (2014) e vestiu o fato clássico com “Capitão Fausto Têm Os Dias Contados” (2016). Era bom demais para ser verdade, mas “A Invenção do Dia Claro” – a colagem ao título do livro de 1921 de Almada Negreiros é intencional – não acabou nos Red Bull Studios de São Paulo, do outro lado do vidro da ‘sala das máquinas’ do produtor Rodrigo “Funai” Costa. Pelo contrário, começou aí o álbum mais demorado das vidas de Tomás Wallenstein (voz, guitarra, piano), Manuel Palha (guitarra, piano), Francisco Ferreira (teclados), Domingos Coimbra (baixo) e Salvador Seabra (bateria), oito canções onde o Brasil é tão intencional como discreto, tão concreto como idealizado. Um disco que só Lisboa e o estúdio caseiro da banda, no bairro de Alvalade, poderiam ajudar a completar, e que – contam-nos Tomás e Manuel – tem pandeiro, cavaquinho e violão mas não é de chorinho. É, arrisca-se, um espécime pop à moda dos Capitão Fausto, tão simples que nem parece que já foi complicado.

Gravado do outro lado do oceano num já longínquo dezembro de 2017, “A Invenção do Dia Claro” sai em março de 2019. Onde é que este disco esteve o tempo todo?
Tomás Wallenstein (TW): No nosso disco rígido, mas a ser constantemente acedido. Depois de voltarmos de São Paulo, estivemos a trabalhá-lo aqui [no estúdio do grupo em Lisboa] e o processo foi demorando...
Manuel Palha (MP): Sabíamos que teria de haver um processo extra, até porque tivemos um tempo limitado para lá estar. Em São Paulo ficaram gravadas as bases fundamentais de tudo, mas era preciso mais.
TW: O nosso deadline não era, de todo, março de 2019, mas não nos deixámos afetar por isso a partir do momento em que percebemos que precisávamos de tempo para acabar. São Paulo está praticamente todo no disco, mas pegámos em tudo outra vez e refizemos o puzzle. Não foi frustrante, mas foi stressante.
MP: Nunca aconteceu haver uma coisa fundamental que nos dividisse. Tentamos sempre chegar a um bom consenso e estes timings são discutidos por todos. Se há alguém que está desconfortável, nem precisamos de perguntar. Mais vale deixar andar um bocadinho até termos exatamente aquilo que todos queremos.
TW: Acabámos por puxar uns pelos outros. Há um dia em que estamos a perder tempo com algo que não está a levar a lado algum e é preciso que alguém ponha alguma ordem.

Qual foi a parte mais difícil do processo?
TW: Foi sentir que em algumas músicas existia algo que não estava a resultar, sem sabermos muito bem o quê. Passámos então às experiências em laboratório: “agora tira esta coisa”, “não, não era isto”, “então tira esta”, “também não era isto”.
MP: Houve uma diferença: desta vez fomos nós que misturámos o disco. O processo de mistura é complicado e a razão pela qual quisemos fazê-lo não foi por acharmos que somos espetaculares a fazê-lo – é tecnicamente difícil – mas porque conseguimos aliar o tempo que ia sendo perdido a afinar os sons com esta parte de produção nossa. Isso demorou. Fazer uma experiência, gostar da experiência... gravar a experiência implica repeti-la, mas depois chega-se à conclusão de que gostávamos mais da maneira que estava antes.
TW: Em algumas músicas, quando já estávamos na fase de tentar fechá-las, de procurar a forma final, detetámos imperfeições e a música acabou por sair toda transformada quando já estava decidido que ela ia ser assim.

Quando embarcaram, o que é que ia na bagagem?
MP: Tivemos um momento de composição anterior: juntamo-nos e reunimos ideias. Quando partimos, tínhamos o esqueleto.
TW: E já tínhamos a parte da voz decidida, as letras não estavam todas escritas mas pouco faltava.
MP: Era quase tudo com pequenos pontos de interrogação que queríamos ter tempo para resolver. Queríamos gravar bem, tínhamos a coisa bem ensaiada.
TW: Achávamos que os 10 ou 11 dias de estúdio que tínhamos marcado não iam chegar, mas ao fim de quatro já tínhamos gravado tudo menos uma canção. O disco todo foi o nosso processo mais comprido, mas a sessão de estúdio foi a mais rápida.

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Rita Carmo

Aquilo que o Brasil trouxe ao disco é o mesmo que à partida esperariam encontrar?
TW: Eu acho que sim. Já sabíamos que íamos gravar lá e deixámo-nos influenciar pela nossa ideia do que iria ser a nossa passagem pelo Brasil. Falámos antecipadamente com músicos de lá para que estes aparecessem no estúdio nos dois últimos dias, de forma a gravarem connosco coisas que já tínhamos imaginado e testado em Portugal.

Como por exemplo?
MP: Seis das oito músicas têm um pequeno ensemble do que idealizamos como sendo o som do choro: pandeiro, cavaquinho, flauta, violão de sete cordas. Juntámos esses ingredientes de forma ténue para que estes desempenhassem pequenos papéis. Nunca esteve para ser um disco de samba.

Como é que se consegue que um ambiente que se instala por opção conviva com uma identidade já existente?
TW: Tentámos que fosse um disco nosso, mas que a circunstância de o gravarmos ali trouxesse alguma coisa diferente, mas não o suficiente para sair demasiado vincado. Deixámos para a ornamentação uma abertura um bocadinho maior.

É o vosso disco mais leve e arejado…
MP: Havia prenúncios em canções que fizemos antes, por isso não é um choque. Não mudámos de direção, tentámos foi simplificar. Esse “arejado” é resultado disso.
TW: A ideia essencial, a forma mais pura, é a mais difícil de alcançar. Em relação aos últimos discos, reduzimos um bocadinho as gorduras que às vezes vêm da ideia inicial e que acabam por ficar até ao fim. Desta vez, houve uma fase de questionamento maior e aspetos que foram sendo eliminados, purgados, até ficarem em bruto. Se calhar, de facto, isso traz ligeireza.
MP: A diferença é maior existe entre o “Pesar o Sol” e os “Dias Contados”. Nós não consideramos este álbum uma rutura. É uma continuação.

Alguém que se tenha enamorado com os Capitão Fausto mais torrenciais de “Pesar o Sol” pode perguntar-vos o que é que vocês fizeram às guitarras?
TW: Há menos guitarras. Há muitas músicas em que o Manel toca apenas piano ou eu toco apenas piano, por isso as linhas de guitarra de cada canção passaram a ser uma em vez de duas. Não foi estratégia, foi resultado.

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Há um coro feminino omnipresente onde antes havia harmonias vocais feitas por vocês mesmos. Esta música pedia um pano de fundo mais intrusivo?
TW: É um piscar de olho aos coros femininos de Jorge Ben Jor. Acabou por não soar demasiado ‘colado’ porque nos coros brasileiros as palavras fazem das melodias uma música diferente. À medida que íamos avançando, fomo-nos lembrando de outras referências muito portuguesas, da música tradicional ou do cancioneiro popular dos anos 70 e 80.

Uma canção como ‘Amor, a Nossa Vida’ é o que se pode designar, de forma simples, de balada. Este soft rock ao piano seria possível num dos discos anteriores?
MP: A realidade diz que nos discos anteriores não está lá uma música assim.
TW: Existe um risco maior em tentar fazer uma música assim, e nós sempre soubemos isso. Ficamos mais expostos.

Numa balada podem rebentar as costuras…
MP: Nós começámos a banda com coisas muito mais cheias, com barulho, distorção, peso. Com o tempo, ganhámos interesse em fazer algo mais ágil, mais despido, com mais ar. A canção só foi atingida por trabalharmos em conjunto e acaba por ser como em todas as outras músicas: alguém traz uma ideia, um riff de guitarra ou, neste caso, a introdução do piano, mas ela não seria o que é se não fosse passada para banda.
TW: É a música que está mais parecida com a forma final há mais tempo. No entanto, foi das que nos fez perder mais tempo em detalhes. Pequenos pormenores de transições. Muito tempo em cima dela, mas quase nem se notam as mudanças.

Em ‘Faço as Vontades’, um dos singles que antecederam o álbum, há uma referência constante à figura materna. Há no Tomás, autor das letras, um eterno menino da mamã?
TW: Na verdade, à medida que me vou tornando menos menino da mamã, vou dando mais valor às figuras paternais. Quando somos adolescentes, nem sequer nos apercebemos da importância que teve a presença daquelas pessoas [mãe e pai], mas agora que estou a envelhecer, vem-me mais à cabeça. Quando escrevo sobre a mãe, é direcionado mas também um pouco metafórico. Este disco fala sobre isso: onde é que nos sentimos mais protegidos? Pode ser nos amigos, na família, nas relações que temos de alimentar.

Aqui está a ligação com “A Invenção do Dia Claro”, de Almada Negreiros…
TW: Exatamente. O título não surgiu muito cedo, mas eu sabia que ia começar de uma maneira, que as músicas do meio seriam assim e que iria acabar de determinada forma. Como é que se inventa, sucessivamente, o amanhecer do dia seguinte? Onde é que vamos encontrar alegria? Como é que alimentamos as pessoas que nos fazem bem?

Nas letras há uma dialética constante entre ‘eu’ e ‘tu’…
TW: O mote é uma relação específica, uma pessoa específica, e até que ponto conseguimos questionar tudo quando nos acontece uma determinada tristeza. O disco fala sobre uma situação menos desejada, mas fala sobre encarar as situações menos desejadas com esperança e pontos de apoio. As letras são sobre a conduta, sobre a palavra, sobre o que se diz, mais do que sobre os sentimentos em si.

Existe nas suas letras uma moralidade autoimposta?
TW: Na minha própria pessoa existe uma moralidade autoimposta.

Pelo menos no tempo da canção, penaliza-se pela transgressão quase instantaneamente…
TW: Eu sou um transgressor nato que está sempre a tentar não o ser. Referencio-me pelos comportamentos bons à minha volta para tentar imitá-los.

Rasga mais papel do que antes?
TW: Sim. Foi o disco em que gastei mais tempo a escrever, mesmo já sabendo sobre o queria falar, desde o início. Houve coisas que demoraram muito a sair, mas predispus-me a questionar mais antes de chegar ao resultado final.

Quando bloqueia, a que ‘santo’ reza?
TW: Gosto da maneira de escrever do B Fachada, apesar de ele já não lançar nada [novo] desde 2014.

Os Capitão Fausto já não são, como se chegou a dizer, “os Tame Impala portugueses”. Estão a aproximar-se de um maior classicismo, de uma ideia de canção desligada de um género musical?
MP:
Temos conseguido encontrar uma voz nossa. O género é o nosso, são estes cinco. O Salvador não vai fazer um beat igual a não sei quem. O Tomás não vai cantar com uma voz diferente. O facto de não estarmos presos a géneros de catálogo permite-nos fazer o que quisermos.

TW: Queremos assumidamente afastar-nos de um género específico. Dá-nos maior liberdade de fazer em vez de parecer.

Versão alargada da entrevista publicada na revista E, do Expresso, de 9 de março de 2019