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O primeiro artigo sobre hip-hop tuga foi no BLITZ, há quase 27 anos. Leia-o aqui

“Estão espalhados em torno da cidade de Lisboa, nos meios industriais ou nas cidades dormitórios como a Amadora, Almada, ou Miratejo. Chamam-se General D, One Equal, Machine Gun Poetry ou The New Decade. Sabem de onde vêm e para onde querem ir”. Na edição do jornal BLITZ de 10 de novembro de 1992, o jornalista Miguel Francisco Cadete e a fotojornalista Rita Carmo apresentavam pela primeira vez na imprensa os pioneiros do rap em Portugal, numa reportagem em que se fala do poder da palavra, mas também de racismo e violência. Leia o texto na íntegra

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Já desconfiávamos. Mas passámos a ter a certeza. O rap em Portugal é uma realidade, existe, mas tal como muita da música urbana portuguesa não tem expressão junto dos meios de difusão, que teimam em mantê-la num ghetto. E, neste caso, é mesmo de ghetto que se pode falar. Os grupos que insistem em fazer rap estão espalhados em torno da cidade de Lisboa, nos meios industriais ou nas cidades dormitórios como a Amadora, Almada, ou Miratejo e debatem-se com as dificuldades que toda a música urbana portuguesa tem sentido. Chamam-se General D, One Equal, Machine Gun Poetry, ou The New Decade. Sabem de onde vêm e para onde querem ir.

Como é óbvio e natural, o rap portuga é praticado, na esmagadora maioria, por músicos negros provenientes das ex-colónias, apesar dos brancos não estarem excluídos, com idades que não ultrapassam os 25 anos. Mas nem por isso são menos decididos quanto ao teor das suas mensagens, não temendo classificarem-se a si próprios de «radicais».

Descobertos, de início, por uma reportagem do programa de televisão «Pop 0ff», há já algum tempo aquando de um concerto na Incrível Almadense, os rappers portugueses mantém-se firmes na sua luta e, hoje, permanecem incólumes no seu posto de guerrilheiros urbanos. Foi em Almada, no local em que costumam reunir-se, que a reportagem do BLITZ os foi encontrar. Logo ali foi presenteada por uma exibição que não deixou dúvidas quanto ao talento dos rapazes, que ultrapassam a falta de instrumentos através da reprodução vocal (caixa de ritmos, scratches e tudo) com uma fidelidade notável.

Quisemos saber como tinha começado tudo, de onde tinham vindo as ideias de fazer rap e quais as influências. Eles não esconderam nada: «foi através de influências da comunidade negra americana. Entrou e pronto. Ouvimos sons radicais vindos do outro lado do Atlântico como Public Enemy, Run DMC, NWA... Radicais, mesmo. Isto já há uns bons anitos. Há uns quatro ou cinco anos». Essa foi a instrução básica que os rappers portugas receberam e que lhes permitiu, a partir de 89, começar a a filtrar essas influências e a tornar seu um som que, sem dúvida, preenchia as suas preferências.

A procura da originalidade não é uma questão pacífica, até porque os grupos de rap debatem-se com dificuldades orçamentais que não permitem investimentos em caixas de ritmos decentes e apropriadas para a música rap. A língua na qual debitam as suas mensagens também é causadora de problemas: o inglês é distante, não é a lingua-mãe e provoca dificuldades na compreensão das letras, enquanto o português tem problemas de métrica e adequação ao estilo rap. Problemas afinal, que têm vindo a assolar a música rock feita em Portugal desde o boom provocado por Rui Veloso «Chico Fininho»: «as nossas letras são em português e inglês. Começámos a ouvir rap em inglês e começámos a cantá-lo em inglês. Depois começámos a pensar: como é que é? Também há rap em francês... já que somos portugueses também cantamos em português. A ideia de cantar em inglês tem também em vista o objectivo da internacionalização. Mas isso é muito difícil».

Queixam-se também da falta de apoios institucionais e não só, excepto a Câmara de Almada que os ajudou a organizar alguns dos poucos concertos que já fizeram. Os civis parecem também estar noutra que não a música rap: «o pessoal aqui não apoia muito, não liga muito ao rap. Querem é pedal para a cabeça. Já fomos mais apoiados, mas o pessoal em vez de levar isso numa boa onda, pensaram que era melhor andar aí a fazer porcaria, a fazer confusão. Ficámos com a fama da porrada, não por nossa causa mas por causa de outras pessoas».

Postos diante do argumento de que a música rap, por vezes, incita à violência através da mensagem expressa nas letras, os rappers portugueses demarcam-se dessas posições mas não esquecem o que as motiva. E deixam bem claro o que querem dizer nas suas músicas: «principalmente, não à discriminação racial. Mas também defesa dos negros e não só, também dos direitos civis. Descrevemos o que se passa no dia-a-dia, na rua, a nossa cena, as nossas curtes. Uma coisa mesmo radical; explicamos tudo! As palavras que empregamos são as que nos vêm à cabeça. Falamos do que somos a favor e do que somos contra».

A reportagem original, publicada a 10 de novembro de 1992

A reportagem original, publicada a 10 de novembro de 1992

Mas, há sempre um mas. Se eles procuram reflectir o dia-a-dia, a cena deles, porque é que usam uma música importada dos Estados Unidos e, nalguns casos, a própria língua inglesa? Ouçamo-los: «Aqueles que na América fazem música rap, vieram, tal como nós, de África. Mas se formos a ver, a música tem quase toda origens africanas, como é o caso do rock. O que importamos dos Estados Unidos é só a palavra rap, o resto é tudo feito por nós. Toda a gente que canta, seja qual for o estilo, tem as suas influências...».

As acções praticadas até agora por estes grupos, que têm a particularidade de agir em bloco dando conta da sua união, não passam de uma meia dúzia de concertos e de algumas maquetas gravadas. Mas eles continuam a queixar-se de dificuldades e das cedências que lhes são exigidas para aceder a um outro patamar: «Andamos a tentar. Vamos aqui, vamos ali, damos uns concertozitos. Gravámos umas coisas, nuns estúdios em Lisboa, com o apoio de uma rádio... Mas é a tal coisa: essa rádio queria uma coisa mais comercial. Mas não me dá tanto gozo estar a cantar esse tipo de rap que se ouve na discoteca, não me entra... E para já, as mensagens dessas músicas não dizem nada. Para chegar aos concertos é preciso ter uma coisa boa para apresentar ao público. Os discos são uma coisa que ainda está muito longe. As pessoas não confiam, têm medo... As editoras têm medo de arriscar apesar de ser um estilo que na Europa já está implantado. Aqui em Portugal, como sempre... pode ser que no futuro... Mas também não estou preocupado com isso. Eu gostava de, principalmente, ter uma coisa para o pessoal curtir. Desde que o pessoal esteja bem, é o que me interessa».

Será que esse bem-estar é compatível com a violência da mensagem propagada pelas canções de rappers radicais como Ice-T, que cantam o assasínio de polícias. Eles, como bons rappers, não se engasgam e ripostam: «se queres falar disso, vamos falar de injustiça social. Se eles não têm outra maneira, têm que fazer isso. Fuck Tha Police. E isso não é só lá, cá também acontece. Há muita discriminação, principalmente com negros. Na nossa zona, em Miratejo, até te podemos dizer que se a GNR apanha um preto, espancam-no até à morte, se for preciso. Como já aconteceu, há uns anos atrás, quando um cabo-verdiano foi apanhado lá dentro. Se for um branco, eles são capazes de falar com ele, levá-lo e dar-lhe porrada. Se agarram um preto, eles nem pedem identificação, metem dentro do carro e nem tentam saber as causas. É logo porrada. Se são pretos são pretos».

Perguntei-lhes também se ainda têm problemas com cabeças rapadas, se ainda existem conflitos: «Isso são uma cambada de palhaços que não sabem o que querem. Mas isso, por nós, acabou. Eles agora andam achandradinhos, passam por nós e dizem ‘olá, tudo bem’. Quando os skins se juntavam em Almada é que batiam nesses estúpidos, agora em nós… Podem apanhar um de nós sozinho e…, agora gang to gang… Nós não estamos interessados nisso, estamos interessados em nós e em expandirmo-nos. Eles são assim? Deixa-os ser. Cada um na sua. Nós não queremos é problemas. Eu até nem gosto de falar nisto».

Publicado originalmente no jornal BLITZ de 10 de novembro de 1992