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Michael Jackson em 1992 em Portugal

Rita Carmo

Em 1992, Michael Jackson veio a Portugal. Recorde aqui o concerto do Estádio de Alvalade

55 mil pessoas viram o único concerto de Michael Jackson em Portugal, em setembro de 1992

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Foi sem dúvida o espectáculo do ano. Quer pelos meios de toda a ordem que movimentou, quer pela impressão causada no público presente (números da organização, que apenas podem pecar por defeito, apontam para os 55 mil pagantes) que em Alvalade esteve, em alguns momentos, à beira da histeria. Não fosse a chuva, que fez a sua primeira aparição ainda antes de a cantora da primeira parte, Rozalla, entrar em palco, e a última precisamente no derradeiro tema da noite, e a festa tinha redundado em mais um piquenicão urbano como já havia sucedido com os Guns N'Roses, por exemplo.
Michael Jackson, Portugal, 26.09.92
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Michael Jackson, Portugal, 26.09.92

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Michael Jackson, Portugal, 26.09.92

Mas a assistência era substancialmente diferente. O leque de idades era o mesmo a que se dirige o Tintin, vendo-se logo desde a entrada no estádio ser este um espectáculo para toda a família. Os membros da respeitável assistência eram de todos os tamanhos, cores, credos ou partidos, o que de certa maneira resultava no efeito místico-espiritual de comunhão universal muito pretendido pelo artista cabeça de cartaz.

Explorando as dúvidas acerca de uma possível inexistência de Michael Jackson, o seu espectáculo foi balizado por dois momentos fundamentais - a entrada e a saída de cena - que não esclareceram o comum dos mortais acerca de duas questões fundamentais: de onde veio e para onde vai. Michael aparece e desaparece sem deixar qualquer rasto, deixando a impressão de que o seu espectáculo não deixa mais dados do que a passagem de uma excursão extraterrestre por um deserto americano.

A entrada, feita por um elevador que o coloca em palco no preciso ponto em que começa o espectáculo (portanto, sem ter de percorrer, como é habitual, a distância que vai do camarim até à boca de cena), e a saída, feita por um duplo numa engenhoca propulsora, servem também para enquadrar um espectáculo constituído por seis actos (o número é capaz de não ser inocente) que tinham representação nos dois enormes décors que ladeavam o palco

Isto é fogo de artifício

Está tudo controlado ao milímetro. Ali não há espaço para espontâneos, variações sobre a música, nem sequer para dirigir palavras ao público tal como estamos habituados nos megaconcertos de estádio. As marcações de palco são rígidas, apesar de a monotonia não estar presente durante apenas um segundo, enquanto Michael Jackson vai dando conta do seu recado acompanhado por uma equipa de quatro bailarinos e, já agora, por uma banda de músicos que de vez em quando lá dá um ar de sua graça. Apenas à loiríssima guitarrista é permitido o excesso de aparecer em tamanho decente nos três ecrãs Sony Jumbotron, que serviam aos milhares que não estavam nas primeiras filas defronte do palco para presenciar com pormenor todo o espectáculo.

No primeiro acto, o palco, de consideráveis dimensões, está ladeado pelos olhos de Michael Jackson tal como aparecem na capa de “Dangerous”. Nos ecrãs, antes da entrada em cena, passam imagens de outros concertos desta digressão, mostrando imagens do público em histeria (sem se chegar a perceber se era o público deste ou de outro concerto) e de Michael Jackson dirigindo-se ao palco, por vezes ladeado pela sua guarda pessoal. Nada disso se vê senão nos vídeos, criando-se assim mais uma ilusão acerca do facto daquilo ter acontecido ou não.

O que é certo é que Wacko Jacko surgiu no palco de Alvalade içado pelo tal elevador, depois de se ouvir os acordes (pesadíssimos e criadores de grande tensão no público) de "Carmina Burana" e um fogo-de-artifício de cortar a respiração. O primeiro acto é aquele que, por assim dizer, serve para apresentar Michael Jackson às massas. Quando entra no palco, os momentos de tensão são agravados pelo facto de permanecer imóvel durante uns bons três minutos, alimentando um nervoso miudinho que o público não consegue disfarçar. Então, lentamente, leva as mãos à cara, tira os óculos escuros e começa com toda a movimentação frenética que já lhe conhecíamos dos telediscos e que acompanha "Jam", o segundo single retirado de Dangerous. O público gritava "Michael, Michael", mostrando a satisfação de quem está esclarecido acerca das virtudes que tinham dado azo à sua deslocação ao estádio do Sporting.

As imagens de imensas massas populares que surgiam nos ecrãs serviam também, neste primeiro acto, para educar o público em termos de reacção a um espectáculo de Michael Jackson. Era assim que se devia fazer e não de outra maneira. Ao mesmo tempo faziam uma resenha histórica de toda a carreira do astro, desde a mais tenra idade até às capas de jornais e revistas que puseram Michael Jackson na primeira página. Michael Jackson, aliás, repete o número de paragem, qual estátua, durante várias vezes ao longo do espectáculo, mas criando sempre uma estranha sensação, dada a contradição com toda a movimentação que precedia esses momentos. Além do evidente suspense provocado por essas paragens, e à conta de não existirem melhores explicações para isso, concluía-se que aquela era mais uma faceta do "tolinho" do Michael Jackson.

Logo depois dos primeiros acordes de "Jam" descobrem-se os furiosos bailarinos, não só os do palco, mas também os que na relva mostram os seus atributos bailantes, imitando o melhor que sabem os gestos do seu ídolo. Os movimentos de Michael Jackson, de uma precisão extrema, variam entre a quietude total e qualquer coisa próxima de uma certa esquizofrenia, que vem a tornar tudo ainda mais irreal. "Wanna Be Startin' Somethin'", o tema que se seguiu, mostrou que a treta de Michael ter uma área de 15 metros só para si (espalhada pela organização) não era mais do que... uma treta, já que a confraternização com os bailarinos é mais que evidente. Novamente, a música pára a meio e arranca, passado um bocado de tempo, de maneira rápida e sôfrega. Parece criar-se uma respiração sobrenatural em relação ao esforço aeróbico que percorre o resto do espectáculo. Por esta altura, já é certo que os créditos de bailarino atribuídos a Michael Jackson não são deixados por pés alheios.

Segue-se a primeira balada xaroposa das muitas entoadas por Michael durante a noite, altura em que o frenesim provocado por bailarinos, vídeo e fogo-de-artifício acalmavam consideravelmente. "Human Nature", assim se chamava a coisa, mostrava sobretudo que Michael também canta bem e pouco mais. Este tema fechava o primeiro acto e precedia a fase seguinte, a de "Hotel", na qual Jackson muda de roupa, travestindo-se de gangster de Chicago com casaco e chapéu branco e fazendo jus à sua admiração por Al Capone. A confusão entre o que se passa no palco e no vídeo surge outra vez e o décor muda para uma ilustração de um hotel com os correspondentes gangsters. Apesar disso, a coreografia não chega a cair no mais que previsível, que aliás é o habitual em números com homens vestidos à Chicago dos anos 30. No final do primeiro tema todos morrem com rajadas de metralhadoras simuladas com fogo-de-artifício. Enquanto os corpos são arrastados para fora de cena, Michael Jackson aplica mais um xarope, com nova roupa, e acompanhado por uma vocalista, uma tal de Laila Qualquer-Coisa que chega a roçar-se e a apalpar o rapaz de maneira pouco condizente com os pergaminhos cristãos da nossa estrela. A fase xaroposa continuou em grande, agora com "She's Out of My Life", e, num momento que se julga também já previsto, há uma rapariga que sobe ao palco, vinda da assistência (mas que foi, aparentemente, sacada da plateia da altura exacta, como acontece noutros espectáculos), e que se abraça a Michael Jackson. Ele não pára de cantar agarradíssimo à cachopa de negro vestida. Os seguranças tentam separá-los com gestos comedidos e, quando a rapariga se vai embora definitivamente, ele lança-lhe um beijo e começa a chorar em silêncio, abrindo mais um capítulo (outro) do manual do Homem-Estátua. O público delira e chega a aplaudir o choro de Michael.

Planeta Jackson

"Workin' Day and Night" dá início ao revivalismo dos Jackson 5, cotando-se como a melhor canção da noite, mas logo se volta às baladas, desta vez acompanhado por Siedah Garrett, bastante parecido com algum dos irmãos Jackson. O vídeo traz à memória toda a carreira do primeiro grupo de Michael Jackson e ele volta a chorar, desta vez motivado pela ausência e separação da família. Pronuncia o seu nome, um a um, e diz que os ama muito. Novo décor, entrada do terceiro acto, ilustrado pelo famoso passo de dança popularizado por Michael Jackson, "moonwalking". "Thriller" revive em palco a magnificência do vídeo, com esqueletos e zombies em palco, enquanto o próprio Michael Jackson é iluminado por luzes azuis que lhe dão umas cores consentâneas com o tema da canção que finaliza com a conhecida gargalhada. "Billie Jean" é então a primeira oportunidade para Jackson maravilhar a assistência com o tal famoso passo de dança e ainda mais quando leva a mão à braguilha e faz movimentos pélvicos indecorosos. Volta o frenesim dançarino que é ligado a uma passagem da parte censurada do vídeo de "Black or White" e que termina com a canção que fecha o terceiro acto.

O quarto acto traz para as luzes da ribalta a loiríssima guitarrista que executa um daqueles solos que nunca mais acaba, chegando Michael a ajoelhar-se perante a virtuosa instrumentista. Mais uma paragem e Michael, no meio da barafunda, desaparece debaixo de um lençol para aparecer poucos instantes depois já com nova roupagem e a cantar numa grua que paira sobre a assistência disposta nas primeiras filas, enquanto interpreta "Beat It" e os bailarinos andam à porrada uns com os outros. Desta vez, o décor recorria novamente à capa de Dangerous, mais concretamente ao pormenor do cão e do pássaro que estão sentados num trono. Entram bailarinos de turbante para mais momentos caquéticos e a turba comove-se e bate palmas. Michael, pela primeira vez, manda um "I Love You" de partir corações enquanto o acto final é preparado com o tempo disponibilizado pela passagem da parte inicial do vídeo de "Black Or White" com o miúdo de “Sozinho em Casa”. Mais um momento de auge, aquele proporcionado pelo primeiro single extraído de Dangerous, que conduz ao quinto acto durante o qual o décor é preenchido com faixas pretas e brancas em xadrez. O público exulta de contentamento pelo que, aquando da audição dos acordes de "We Are the World", a malta entoou em coro a conhecida canção de Natal que prega o amor entre semelhantes. Tudo em comunhão foi a melhor maneira de entrar no acto final, onde dois mapa-mundis ladeavam o palco. O tema era obviamente "Heal the World", o tal que é abrilhantado por uma menina que brinca com uma bola, num simbolismo patético, e que a deixa cair para ser apanhada por... Michael Jackson. As crianças do Coro de Santo Amaro de Oeiras entram em cena conduzidas pela mão do próprio que chega a pegar uma ao colo e a beijar-lhe a face.

Depois de mais não sei quantos "I love yous", o rapaz ri-se e prepara-se para a última música, à qual ninguém ligou nenhuma porque queria era ver o número do propulsor que levava o duplo de Michael Jackson para fora do palco. Depois de equipado com um fato-macaco branco e capacete, Michael é trocado por outro que sobrevoa a assistência em voo planado, diz adeusinho e desaparece por detrás do palco. A voz que se ouviu no final confirmou que Michael já tinha saído do estádio. Será que foi mesmo ele?

Originalmente publicado na edição 413 do jornal BLITZ, a 29 de Setembro de 1992