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Gaspar Varela

Rita Carmo

Gaspar Varela, 15 anos. O talento e a dedicação do prodígio que conheceu Nova Iorque pela mão de Madonna

Revelação na guitarra portuguesa, lançou o primeiro álbum, “Gaspar”, aos 15 anos, e toca ao vivo no Lux, em Lisboa, na próxima quinta-feira. Bisneto de Celeste Rodrigues e sobrinho-bisneto de Amália, tem o fado no sangue e chamou a atenção da 'rainha' Madonna. Conversa com um músico em ascensão

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Gaspar Varela tinha sete anos quando quis aprender a tocar guitarra portuguesa. Pode parecer precoce, o chamamento, mas explicar-se-á pelo facto de o garoto, agora adolescente, ter nascido numa família especialmente musical. Bisneto de Celeste Rodrigues (a quem, nesta entrevista, se refere sempre como “avó”), desde cedo sentiu “o bichinho”. A dias de um concerto especial no Lux, no qual se fará acompanhar pelo saxofonista Ricardo Toscano e dois convidados surpresa, Gaspar Varela contou-nos como tudo começou. “Desde que me lembro que sempre quis aprender a tocar guitarra, para poder acompanhar a minha avó”. A orientá-lo nesta missão está, até aos dias de hoje, o seu mestre: o guitarrista Paulo Parreira, com quem continua a tocar semanalmente. “É um dos melhores guitarristas que há no fado”, apresenta. “Conheci-o uma vez que fui ao Senhor Vinho”, recorda, referindo-se à casa de fados lisboeta. “Andava à procura de um professor de guitarra, a Gisela João estava lá a cantar e disse-me: 'olha, o Paulo dá aulas, eu apresento-vos'. Apresentou e, uma semana depois, já estava a ter aulas com ele”. Que idade tinha?, queremos confirmar. “Foi há oito anos”, responde com timidez o miúdo de 15 anos, que no final do ano passado lançou “Gaspar”, o seu primeiro álbum.

Gaspar Varela tem 15 anos e toca guitarra portuguesa desde os 7

Gaspar Varela tem 15 anos e toca guitarra portuguesa desde os 7

Rita Carmo

Da guitarra portuguesa, que em casa toca “uma hora ou uma hora e meia por dia”, Gaspar Varela tira duas grandes satisfações: “acompanhar o fadista e tocar guitarradas. Acompanhar fadistas tem uma coisa interessante”, comenta, “que é teres de responder à voz e ao que a viola faz. Nas guitarradas, a meu ver, é onde se mostra mais a guitarra portuguesa, porque não há voz”. E foi este o caminho seguido em “Gaspar”, um álbum onde toca um alinhamento escolhido por si e pelo seu mestre. “São os primeiros temas que aprendi a tocar e uns mais recentes, mas sobretudo aqueles que me marcaram mesmo”, explica o instrumentista que na sua estreia interpreta 'Mudar de Vida' e 'Dança', de Carlos Paredes; 'Variações em Lá Menor' e 'Variações em Ré', do seu pai, Artur Paredes, mas também um original escrito a meias com o irmão, Sebastião. “Ele é músico e realizador, está a acabar o terceiro ano de cinema em Londres”, adianta Gaspar sobre o mano que, além de ter coescrito 'Lisboetas', realizou o vídeo deste tema e o de 'Mudar de Vida'. “Em casa, sempre fomos educados a ouvir de tudo. Rock, tango, flamenco”.

Na escola, os colegas de Gaspar Varela não estranham que o jovem se dedique à guitarra portuguesa. “Como estou num curso de produção musical, todos ou quase todos ouvem um bocadinho de todos os estilos de música. Não se prendem só ao hip-hop e ao trap”, diz, mostrando uma atitude que, há alguns anos, não seria comum encontrarmos em alguém da sua idade. “O fado é português, portanto não é esquisito uma pessoa ser jovem, como eu sou ainda, e gostar de tocar. É normal. Como eles gostam de tocar outros instrumentos, não acham esquisito eu gostar de tocar um instrumento tradicional do país”.

Quando, daqui a dois anos, terminar o curso de Produção e Tecnologias da Música, Gaspar Varela estará preparado para trabalhar como produtor musical. “É para isso que somos treinados, naquela escola, e isso interessa-me muito. Se um dia produzir os meus discos, ou os de outras pessoas, saberei que microfone usar, a distância de captação [correta] -- isso é muito útil”.

Na produção feita em Portugal, o guitarrista tem uma grande referência: José Mário Branco. “Adoro o trabalho dele. Trabalhou com o Camané e são os discos que são, trabalhou com a Kátia Guerreiro e é o disco que é, e também trabalhou no filme do meu pai [Diogo Varela Silva], que é o “Alfama em Si”, e fez um trabalho incrível. É muito bom naquilo que faz e sabe muito. Ele diz-me sempre: 'uma chave para seres um bom produtor é ouvires vários estilos de música, não te prendas só ao fado'”, partilha.

No seu primeiro álbum, Gaspar Varela seguiu esse conselho, convidando Ricardo Toscano para tocar saxofone em 'Mudar de Vida'. “O mestre Carlos Paredes gravou com flauta transversal, eu decidi pôr saxofone, e combinou. É um instrumento de que gosto, adoro o som e ele toca muito bem, pelo que foi fácil juntar os dois. No fundo, fui buscar um bocadinho de jazz”.

“A minha avó Celeste, aos 95 anos, tinha mais power do que eu!”

Quando disse à bisavó que queria aprender a tocar para acompanhá-la, Celeste Rodrigues ficou naturalmente feliz. “Gostou que estivesse alguém a segui-la, não só no ramo da música como do fado”, lembra o bisneto. Mas, como é recordado no booklet do próprio disco, a veterana não acreditou que o pequenito Gaspar aprendesse tão rapidamente como viria a suceder. “Eu sempre lhe disse: 'quando souberes tocar, já eu fui viajar. Ao que ele me respondeu: 'não faz mal, avó, eu espero'. A verdade é que acompanhou e bem. Nunca imaginei que fosse possível tocar desta maneira em tão pouco tempo. Tenho muito orgulho nele”, disse Celeste Rodrigues, citada no primeiro disco do bisneto.

O sentimento é mútuo e os olhos de Gaspar Varela, que brilham ao falar na bisavó Celeste, não deixam dúvidas quanto à forte inspiração que a ela foi beber, não só musicalmente como a nível pessoal.

Eu adorava a minha avó, ela era o pilar da família”, afirma. “Ela adorava viver. Não gostava de estar em casa. Aos 95 anos, queria estar sempre a sair. Então à noite! Todos os fins-de-semana queria ir para os fados. Era o que gostava de fazer, não gostava de estar presa -- queria era viver. Ela só dormia três horas por dia”, conta, emocionado. “Não gostava de dormir. Para quê? 'Eu quando morrer vou ter muito tempo para dormir', era o que ela dizia. Era uma mulher incrível. Com 95 anos tinha um power... mais power que eu!”, ri-se

Gaspar Varela fotografado na cidade em que nasceu, Lisboa

Gaspar Varela fotografado na cidade em que nasceu, Lisboa

Rita Carmo

No meio do fado, Gaspar Varela sente-se acarinhado pelos músicos e intérpretes mais velhos. “Penso que eles gostam de ver uma geração a crescer. Obrigatoriamente vão dar conselhos aos mais novos e acarinham-me no sentido de dar conselhos, ensinar”, confessa o músico que, além de Celeste Rodrigues, também já acompanhou Ana Moura no Montepio Fado Cascais e Ana Sofia Varela no Há Fado no Cais. “No concerto de homenagem à minha avó, no dia 21 no CCB, vou acompanhar o Ricardo Ribeiro, o Camané, a Sara Correia e a Teresa Landeiro”, desvenda, falando ainda sobre as colaborações que gostaria de concretizar. “Gostava de ter acompanhado a minha tia, a Amália, e desta geração [gostaria de tocar com] Ricardo Ribeiro, Camané, Ana Moura, Gisela João, Carminho... são todos fadistas bons”.

Tendo tido Celeste Rodrigues como grande referência pessoal e “madrinha” musical, Gaspar Varela hesita e faz uma pausa prolongada quando lhe perguntamos qual o conselho mais importante que a bisavó lhe deu. “Foram tantos... A minha avó dava conselhos não dizendo, mas mostrando. E sempre mostrou muito respeito por outras pessoas, por outras fadistas, não se via como o topo máximo. O respeito é uma coisa que tem de haver muito no fado, e a minha avó tinha. Isso para mim foi um conselho: não mo disse diretamente, mas mostrou-o, ao longo deste tempo tempo todo. Para mim, foi o maior conselho que me deu: não falar mal de ninguém. Ela era incapaz de falar mal de alguém, incapaz! E isso conta mesmo muito”.

Gaspar Varela toca no Lux, em Lisboa, a 14 de março

Gaspar Varela toca no Lux, em Lisboa, a 14 de março

Rita Carmo

A alegria de viver de Celeste Rodrigues serve de inspiração a Gaspar Varela e seduziu, também, uma outra rainha: Madonna, que há dois anos levou a fadista e o seu bisneto a Nova Iorque, para uma passagem de ano muito especial. “Foi incrível”, entusiasma-se o português, que então tinha 13 anos. “Só tenho de agradecer a Madonna por me ter dado essa oportunidade, porque sempre quis ir a Nova Iorque e foi incrível poder conhecer a cidade, ainda por cima com a minha avó! Isso ainda me deixou mais contente. Só tenho de lhe agradecer”, repete, “ela é querida, muito querida. E era muito simpática com a minha avó, o que para mim conta muito”.

Contrariamente ao que pensaríamos, dada a juventude do aspirante a produtor, Madonna acaba por ser, também, uma referência para si. “Eu gosto muito de pop antigo”, diz, candidamente. “Não gosto do pop moderno, porque acho que é tudo igual, hoje em dia. Naquela altura, cada artista tinha um som específico. E a Madonna por alguma razão é a rainha da pop, não é só pelas vendas que tinha. É uma artista incrível”.

Na viagem a Nova Iorque, que durou um fim-de-semana, Gaspar dançou com Celeste, ignorando - tal como ela - que nem tudo estava bem a nível físico. “Outro dia pus um vídeo no meu Facebook: eu a dançar com a minha avó e ela tinha 95 anos! O mais giro é que ela tinha uma costela partida, rachada, só que não sabia. Queixava-se, mas não tinha ido ao médico... mas fez um voo para Nova Iorque e voltou, e entretanto ainda dançou. Dá-me prazer saber isso”.

Instagram

No dia em que o entrevistámos, Gaspar Varela partilhou no Instagram um vídeo onde aparece a tocar guitarra portuguesa numa versão “lusófona” de 'Like A Virgin', de Madonna. Impossibilitado de revelar mais informação sobre o encontro com a norte-americana radicada em Portugal, o músico, que também toca “guitarra elétrica, baixo e bateria, mas só na brincadeira”, prepara-se para dar o segundo grande concerto de promoção a “Gaspar”. O primeiro aconteceu no final do ano passado, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. “Foi o meu primeiro concerto a solo, a convite da doutora Sara Pereira, do Museu do Fado. Deu-me uma pica gigante fazê-lo. Recebi o convite quando tinha 13 anos, aos 14 gravei o CD e aos 15 toquei no CCB e lancei o meu álbum. Foi incrível”, exclama, elogiando os músicos com quem toca e que o viram “crescer: o André Ramos toca viola e o Francisco Gaspar baixo. Eram os músicos da minha avó, estou habituado a tocar com eles”, diz, sublinhando que a guitarra portuguesa exige “muita, muita prática. E não é só em casa. Tens de ir a casas de fado. Essas é que são as escolas do fado e aí é que praticas mesmo. É preciso perceberes os violas com quem tocas e os fadistas”.

Na guitarra e além do seu mestre, Paulo Parreira, e da lenda Carlos Paredes, Gaspar Varela admira o trabalho de Pedro Castro, Luís Guerreiro, Bernardo Couto, Ângelo Freire e José Manuel Neto. “Da outra geração são tantos!”, diz, ganhando balanço. “Raul Nery, Jaime Santos, José Fontes Rocha e Ricardo Rocha -- da geração mais nova é um dos meus favoritos, de topo”, elogia. “É um grande músico”.

Mas Gaspar Varela está, também, atento às palavras do fado. “Dos poemas da minha tia, há alguns que ainda não percebo. Mas há um poema, que o António dos Santos cantava, que é lindo: 'Partir é Morrer um Pouco'. Esse eu já percebi mais ou menos”, diz, com modéstia. “Então quando a minha avó morreu, fiquei a percebê-lo mesmo bem. Choro sempre que o ouço - ainda outro dia o Hélder Moutinho o cantou, numa casa de fados, e eu... baba e ranho! Não aguento, é um dos poemas que mais me marcam”.

“Quando um fadista canta sobre certo [assunto], é porque já passou por ele e quer passá-lo ao público. E quando percebes o que o fadista está a cantar é sempre melhor, se a letra te toca, a maneira de cantar te toca... Por isso é que a minha tia [Amália] é considerada a rainha do fado, porque passava as mensagens que queria de forma incrível e tinha a voz que tinha, portanto... era fácil”.

Gaspar Varela é bisneto de Celeste Rodrigues e sobrinho-bisneto de Amália

Gaspar Varela é bisneto de Celeste Rodrigues e sobrinho-bisneto de Amália

Rita Carmo

A terminar o disco, Gaspar Varela faz uma singela homenagem à bisavó, colocando um pouco da sua voz em 'Fado Celeste'. É a única voz que se ouve no álbum e tem um significado muito especial. “O Pedro Pinhal, que fez o tema, toca viola, e o Pedro Castro, que era o guitarrista da minha avó, toca comigo, com o Francisco Gaspar no baixo. E fui buscar um bocadinho do tema que a minha avó gravou para pôr no fim. Acho que foi uma bonita homenagem”, sorri.

A 21 de março, Celeste Rodrigues será homenageada com um concerto no CCB, em Lisboa. Antes disso, já na próxima quinta-feira, dia 14, o seu bisneto dará tudo em defesa do seu álbum de estreia, num concerto numa das discotecas mais famosas da capital. “Eu nem sequer posso entrar no Lux, então tem ainda mais piada!”, ri-se o guitarrista, que só completa 16 anos no final do ano. A sua maioridade musical poderá ser comprovada junto ao rio, a partir das 22h30.

Gaspar Varela

Gaspar Varela

Rita Carmo