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Foals falam sobre o inescapável Brexit, um Paredes de Coura especial e o novo “álbum vermelho”. Nada se perde, tudo se reinventa

No momento em que acabam de editar “Everything Not Saved Will Be Lost - Part 1”, primeira parte do duplo quinto longa-duração, a BLITZ conversou com o vocalista dos Foals, Yannis Philipakkis, sobre aquilo que influenciou as novas canções mas também sobre a relação próxima que criaram com os fãs portugueses

O percurso dos Foals não é fácil de resumir. Desde que se estearam, há 11 anos, com um “Antidotes” muito celebrado pela crítica especializada britânica mas praticamente ignorado no resto do mundo, a rota do agora quarteto de Oxford (ficaram sem o baixista no ano passado) foi sempre no sentido ascendente: ‘Spanish Sahara’ reapresentou-os com vontade de mostrar que não tencionavam ficar encerrados na gaveta do rock alternativo de traço brit, “Holy Fire” provou que também eram capazes de cruzar para território mais pop (‘My Number’ continua a ser o maior sucesso até ao momento) e “What Went Down”, editado há quatro anos, dotou as guitarras de uma violência controlada (‘What Went Down’ é um portentoso exercício rock).

Chegados a 2019 sem o baixo de Walter Gervers, os quatro elementos da banda resolveram adaptar-se e reinventar-se novamente, assinando no novíssimo “Everything Not Saved Will Be Lost – Part 1” uma coleção de canções arriscadas, nascidas de uma nova mecânica de estúdio. A primeira parte de um álbum duplo – cuja segunda parte chegará mais para o final do ano - tanto pende para a sensibilidade com interferências eletrónicas da canção de abertura, ‘Moonlight’, como para as guitarras desbragadas de ‘On the Luna’ ou as teclas sonhadoras da faixa de encerramento, ‘I’m Done with the World (& It’s Done with Me)’.

O que continua bem constante, desde o início, é a voz encorpada e facilmente identificável de Yannis Philipakkis, carismático líder do coletivo inglês. Em conversa telefónica com a BLITZ, o cantor nascido em Karpathos, na Grécia (filho de pai grego e mãe sul-africana), e radicado em Inglaterra, falou sobre as dificuldades que o Brexit veio impor, a saída do baixista (que continua a ser considerado família), a razão pela qual este é o “disco vermelho” dos Foals e a relação de proximidade que têm vindo a criar, ao longo da última década, com os fãs portugueses.

“Everything Not Saved Will Be Lost” foi planeado desde o início como um projeto dividido em duas partes ou só a meio do processo perceberam que esse seria o melhor formato?
Não foi uma decisão inicial. Não tínhamos um plano definido quando fomos para estúdio… Foi um início um pouco atribulado desta vez, mais do que das vezes anteriores, porque tivemos de abordar as coisas de forma diferente, dado que o nosso baixista tinha abandonado a banda. Começámos a trabalhar neste disco logo num estúdio de gravação em vez de o fazermos numa sala a tocarmos juntos ao vivo. Portanto, sim, não tínhamos uma ideia definida daquilo que ia sair dali, mas uns cinco meses depois de termos iniciado o processo percebemos que tínhamos muito material e que era importante tentar terminar todas as canções em vez de simplesmente ir embora. Podíamos ter deixado cinco ou seis canções para mais tarde, mas corriam o risco de não serem usadas, portanto era importante terminá-las. E, quando as completámos, começámos a debater qual a melhor forma de as agrupar para comunicarem com o mundo. Percebemos que seria mais excitante sequenciá-las em dois álbuns que se acompanham um ao outro. Ambos se ouvem bem melhor do que se juntássemos as canções todas num só. Separá-los foi algo que nos satisfez muito, em termos artísticos.

Percebi que a forma como vivenciamos o mundo nos dias que correm e tudo aquilo com que, enquanto seres humanos, nos devemos preocupar, influenciaram as novas canções. De que forma se reflete isso no disco?
A forma como nos sentimos, como o futuro da nossa geração está ameaçado, seja em termos políticos, sociais ou ambientais, está presente na arquitetura do disco. Definitivamente. No que diz respeito às questões ambientais, penso que é muito difícil ignorar, a não ser que sejas ignorante e não prestes atenção ao que se passa com o mundo. É esse o cenário em que vivemos portanto foi partindo daí que comecei a construir as canções. Há muitas referências poéticas a coisas como a destruição, ameaças à civilização e a forma como a sociedade mudou… A confusão que resulta disso tudo. E ao ponto de interrogação que surge com todas essas questões, porque é muito difícil saber como proceder. Isso também contrasta, de certa forma, com o facto de muitas das canções, em termos musicais, serem muito confiantes e otimistas. Portanto, nem penso que seja um álbum deprimente, visto que a música é bastante enérgica.

E preocupações decorrentes do Brexit também tiveram algum impacto na banda?
É um pesadelo para toda a gente, basicamente. Não sei se é importante o facto de estares numa banda ou não… É uma situação profundamente desapontante. E não deixa de ser uma surpresa. Penso que as pessoas estão muito surpreendidas em todo o lado. É muito difícil ignorar o Brexit e claro que teve o seu impacto neste álbum, da mesma forma que o Trump ou o facto de a extrema direita estar a ganhar poder… Influenciou-nos a situação política em geral, mais do que outra coisa qualquer. Não é necessariamente o Brexit, em específico, mas aquilo que vês a acontecer em todo o mundo: as pessoas a extremarem opiniões… São esses extremismos que são assustadores.

E como lidaram os Foals com o facto de já não terem o Walter Gervers, o vosso ex-baixista, convosco em estúdio?
De certa forma foi triste, obviamente, porque ele é um dos nossos melhores amigos, é como se fosse família, mas no que diz respeito à musicalidade do álbum acabou por ser um pouco libertador. Forçou-nos a abordar as coisas de forma diferente. Quando estávamos a terminar a digressão do “What Went Down” já sentíamos vontade de fazer as coisas de outra maneira e se o Walter não tivesse saído se calhar não teria acontecido. Formos forçados a adaptar-nos, basicamente. Eu toquei muito mais baixo no disco, o [teclista] Edwin [Congreave] tocou baixo também. Trabalhámos muito mais em ambiente de estúdio. Foi lá que escrevemos as canções e deixámo-nos influenciar por esse ambiente. Criámos um loop de feedback muito interessante entre nós. Tivemos de abordar o trabalho de modo diferente, o que significou que tivemos de ser mais criativos. Não nos podíamos apoiar em velhos hábitos.

Ao ouvir a primeira canção do álbum, ‘Moonlight’, percebi rapidamente o quão longe os Foals já estão daquilo que fizeram no primeiro álbum. Tirando a sua voz, nem parecem a mesma banda. Quando pensa sobre as primeiras coisas que gravou e aquilo que fazem agora sente que estão a viver outra vida?
Não, nem por isso. Penso que evoluímos, progredimos imenso. Experimentámos e tentámos fazer coisas diferentes, mas isso é o que sempre quis desta viagem. Nenhum de nós tinha interesse em sermos daquelas bandas que faz o mesmo em todos os álbuns. Parte daquilo que nos faz sentir realizados nos Foals é a experimentação. Reinventamo-nos a cada disco, mantendo obviamente o mesmo espírito, o mesmo núcleo. Não sinto que sejamos uma banda diferente, mas reconheço que mudámos muito.

Acontece muito terem pessoas a dizerem-vos que são fãs do vosso trabalho mais antigo e outras que só se entusiasmaram com a vossa música muito depois?
Depende muito. Há todo o tipo de pessoas por aí… Algumas só criaram uma ligação connosco com “What Went Down” e esse é o álbum favorito delas e outras juram que “Total Life Forever” ou “Holy Fire” são os seus preferidos. Olhando para isso de forma otimista, significa que cada um dos álbuns que gravámos tem uma consistência em termos qualitativos. Com muitas outras bandas torna-se muito claro qual é o melhor álbum e eu gosto do facto de com os Foals isso ser uma questão muito debatida.

‘Spanish Sahara’ foi a canção que levou mais gente a ouvir a vossa música. Também olham para esse momento como um ponto de viragem?
Sim, sem dúvida. Mas penso que a explicação para isso reside no facto de ter sido a canção que talvez tenha mostrado ao mundo que tínhamos ambições criativas… Porque estava integrada no segundo álbum e, geralmente, é nesse segundo disco que as bandas se repetem. Vindo de “Antidotes”, a ‘Spanish Sahara’ era muito diferente. Foi um grande salto, portanto sinto que foi mesmo um ponto de viragem. Quando lançámos essa canção cá para fora foi como se tivéssemos dito que não estávamos aqui para brincadeiras. Não íamos simplesmente continuar a fazer o mesmo.

A cor em destaque na capa deste novo álbum é o vermelho… E quando olhamos para as capas dos álbuns anteriores, percebemos que há sempre uma tonalidade dominante: amarelo, azul, verde e agora vermelho. É algo a que prestam particular atenção ou é mera coincidência?
Presto mesmo atenção a isso. É importante que cada álbum tenha um esquema de cor e gostamos de nos assegurar que é aquele que melhor representa as canções. Sou um pouco cético relativamente àquela coisa da sinestesia, mas sinto definitivamente que as canções têm uma determinada palete na forma como as sentimos. Têm uma determinada temperatura. E, portanto, este pareceu-me ser um disco vermelho. E tenho também de acrescentar que, olhando para a trajetória dos álbuns, foi bom ter um padrão. No que diz respeito à imagem em si, sumariza muito daquilo que temos no disco: a extravagância daquilo que a humanidade construiu, com um grande, opulento e impressionante edifício do passado, que ainda está de pé, e, a contrastar, aquela natureza estranha, uma natureza vermelha e surreal a entrar ali e a sobrepor-se a ele. O conflito entre a natureza e a arquitetura, a obra da humanidade. Gosto do facto de haver simbolismo na capa do disco.

A capa de "Everything Not Saved Will Be Lost - Part 1"

A capa de "Everything Not Saved Will Be Lost - Part 1"

Ao longo dos anos, desenvolveram uma ligação especial com os fãs portugueses… Espero que Portugal não tenha tido influência na saída de Gervers, visto que o último concerto que deram juntos foi no festival Vodafone Paredes de Coura, em 2017…
(risos) Não, não. Já todos sabíamos há alguns meses que ele ia sair. E, sendo sincero, aquele último concerto em Portugal com ele vai ser sempre muito especial para nós. Fico feliz que tenha sido em Portugal, que possamos guardar esse último bonito momento com ele nesse festival, porque foi um concerto muito bom, de que gostámos muito.

Foals no Vodafone Paredes de Coura'17
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Rita Carmo

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Yannis Philippakis, dos Foals, visto do fosso
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Yannis Philippakis, dos Foals, visto do fosso

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Os Foals "fecharam a porta" no palco principal
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Os Foals "fecharam a porta" no palco principal

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Yannis Philippakis, dos Foals

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A despedida da 25ª edição, ao som de "All My Friends", dos LCD Soundsystem
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A despedida da 25ª edição, ao som de "All My Friends", dos LCD Soundsystem

Rita Carmo

Foals no Vodafone Paredes de Coura'17
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Foals no Vodafone Paredes de Coura'17

Rita Carmo

Os vossos concertos em solo português, pelo menos aqueles a que assisti, têm sido cada vez mais intensos. Que tipo de energia recebem do público?
Costuma ser uma loucura onde quer que vamos, mas diria que todos os concertos que demos em Portugal estão lá em cima junto com os mais memoráveis que demos. Há países onde as pessoas se expressam mais, estou a pensar nos países mediterrânicos e os da América Latina. É aí que acontecem os melhores concertos. Quanto mais para norte formos, mais sentimos que as pessoas são mais reservadas. São culturas diferentes. Mas sim, sempre nos correram muito bem os concertos em Portugal.

O que querem os Foals da música, hoje? Os vossos objetivos são os mesmos que tinham quando começaram a banda?
Não, não são os mesmos. Basicamente, quero fazer música que seja fantástica, quero oferecer música, trabalhos gráficos e concertos que façam do mundo um sítio um pouco melhor. Quero inspirar as pessoas e sentir que retiram do nosso trabalho algum conforto e entusiasmo. É o nosso dever fazer isso, obrigarmo-nos a tentar fazê-lo. Da mesma forma como a minha vida se tornou melhor ao ouvir um disco do Leonard Cohen. Fui transportado para algo que era sublime. Penso que esse é o objetivo de todos os artistas, portanto é isso que queremos.