Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Buzzcocks

Rápidos, melódicos, sónicos, românticos: não houve banda punk como os Buzzcocks. “Nós éramos diferentes dos Clash e dos Pistols”

“Quando eu e o Pete Shelley começámos, nenhum de nós tinha mais do que 20 anos. Ora, isso foi há… 43 anos. Não sei pode onde começar”, começa por dizer-nos o guitarrista Steve Diggle numa entrevista realizada poucos meses após a morte do líder da histórica banda de punk rock inglesa

A entrevista vai perto do fim e Steve Diggle – um dos homens da guitarra dos Buzzcocks, eméritos punk rockers da primeira vaga britânica, função que dividia com Shelley, a voz e o compositor primordial do grupo – já nos falou de como, por baixo da aparente acessibilidade, a música dos Buzzcocks era enviesada e complexa (“Não somos devidamente reconhecidos por essa faceta”), recordou o estalar do punk em 1976 (“Parecíamos todos iguais mas éramos tão diferentes”) e admitiu que, apesar da adversidade, o grupo não irá acabar (“As pessoas dizem-me: ‘continua, Steve’”). Depois de um voo rasante sobre a história dos primeiros anos da sua banda (aqueles onde ganharam forma as esplêndidas canções punk com apetite pop vertidas para os álbuns “Another Music In a Different Kitchen” e “Love Bites”, agora reeditados), Steve Diggle – que completará 64 anos em maio – olhou finalmente para dentro de si e para a falta que Pete Shelley, falecido súbita e inesperadamente há menos de três meses, lhe faz. “Conhecíamo-nos muito bem. Além de o admirar como ser humano, era com ele que compunha música. Se eu tivesse tocado com o Keith Richards ou com o Jimi Hendrix, não seria a mesma coisa – os melhores instrumentistas do mundo não conseguiriam a mesma química”. Como é que se consegue tão perfeito casamento de um par de guitarras programadas para soar de forma tão crispante e, ao mesmo tempo, tão arredondada (sal e açúcar em delirante competição no palato)? Diggle, ciente de que as cordas são seis e os dedos pouco mais, quase culpa forças sobrenaturais. “Nunca tentámos forçar nada, a magia estava toda lá. Complementávamo-nos na perfeição. Todo o processo era o reflexo do que éramos enquanto pessoas: crescemos ao mesmo tempo enquanto seres humanos e a música cresceu em nós ao mesmo tempo”.

No início desta história está Shelley mas não Steve Diggle. Em 1975, Peter McNeish responde a um anúncio de “procura-se músico” colocado por Howard Trafford num mural do Bolton Institute of Technology. O segundo vinha da música eletrónica, ao primeiro agradava-lhe o rock. Em fevereiro de 1976, McNeish (que assumiria o nome de palco Shelley) e Trafford (que se transmutara, estilosamente, em Devoto), leem uma reportagem do primeiro concerto dos Sex Pistols no ‘New Musical Express’ e decidem levar a banda londrina, em vésperas do ‘rebentamento’ punk, a um auditório público centenário em Manchester (o Lesser Free Trade Hall, hoje um hotel). O concerto acontece em junho, e a primeira parte deveria ter sido, evidentemente, dos Buzzcocks, mas os restantes músicos desistem à última hora, e só à segunda tentativa é que a banda se estreia em palco – em julho, na abertura de novo concerto dos Sex Pistols na metrópole do noroeste inglês. A acompanhar a parelha fundadora, John Maher na bateria e Steve Diggle no baixo, formação que pouco depois grava o seminal EP “Spiral Scratch” (um dos primeiros documentos do punk rock britânico, produzido por Martin Hannett, que viria a estar ligado aos dois álbuns dos Joy Division). Alguns meses depois, a revolução: Devoto sai para a formar os Magazine, considerando que o punk rock estava a ficar demasiado “limpinho” para o seu gosto; Shelley mantém-se na guitarra mas assume também o microfone; Steve Diggle deixa o baixo (para Steve Garvey) e pega na guitarra. ‘Orgasm Addict’ é o primeiro vestígio da nova vida e seria a abertura da ‘monstruosa’ compilação de singles “Singles Going Steady”, lançada em 1979, repositório de uma carreira ‘paralela’ de mimos avulso.

“Londres era a capital, um ‘planeta’ com muito mais glamour. Manchester era cinzenta e industrial, era preciso procurar alguma cor dentro da nossa própria alma”

“Em Manchester havia menos distrações do que em Londres, não havia como não olhar para dentro de nós próprios. Londres era a capital, um ‘planeta’ com muito mais glamour. Manchester era cinzenta e industrial, era preciso procurar alguma cor dentro da nossa própria alma. A busca interior refletiu-se nas canções e diferenciou-nos”, considera Diggle, que não vê no prosaico ‘inimigo prog’ o papão pintado por alguma historiografia punk. “Não éramos propriamente antagónicos em relação a bandas como os Emerson Lake & Palmer, mas as canções deles ocupavam o lado inteiro de um LP e nós queríamos ser breves, concisos, rápidos, diretos e, sobretudo, relevantes para alguém da nossa idade”. “Another Music In a Different Kitchen”, gravado nos londrinos Olympic Studios entre dezembro de 1977 e janeiro do ano seguinte, firmava uma banda simultaneamente capaz da velocidade punk movida a três acordes (‘Fast Cars’, ‘No Reply’, o caminho traçado por ‘Orgasm Addict’), de bubblegum irrecusável (‘I Don’t Mind’) e do rock angular que praticamente funda o pós-punk mais caudaloso (‘Sixteen’, ‘Fiction Romance’ e, principalmente, ‘Autonomy, com o riff de guitarra de Diggle a desenhar uma nova geometria). Um plano tão distante dos Sex Pistols como dos Clash: “O punk era a atitude, a reação em relação ao que se passava. Claro que no início era um assalto intelectual às pessoas, mas tinhas de encontrar uma consciência para reagir à música, para reagir ao seu poder e à sua beleza. A beleza, o perigo, a excitação: essa combinação é tudo. Debaixo do guarda chuva da atitude punk, os Sex Pistols eram diferentes dos Clash e os Clash eram diferentes dos Buzzcocks. Percebemos que tínhamos ótimas canções e a nossa própria maneira de fazê-las”.

Transbordante de criatividade, os Buzzcocks lançam “Love Bites” apenas seis meses depois do álbum de estreia. Com “Ever Fallen In Love (With Someone You Shouldn’t’ve”, o punk encontra o seu braço declaradamente romântico, vulnerável e ambíguo, e os Buzzcocks distanciam-se claramente do paradigma do punk ‘rijo’ e da agressividade ‘macho’. “Love Bites” não é tão incensado como o disco de estreia, mas é – quatro décadas depois – aquele que apresenta maior completude: volta a abrir o caminho aos espinhos do pós-punk antes de todos os outros (‘Walking Distance’), olha para os Kinks com devoção (‘Love Is Lies’) e termina de forma empolgante com dois portentos sónicos (‘E.S.P.’, riff febril, e ‘Late For the Train’, cavalgada de kraut psicadélico), revelando uma faceta experimental que coloca os Buzzcocks num sítio mais próximo dos aventureiros Wire do que dos melodistas Undertones. “Estávamos interessados em noise”, assume Diggle. “Nos anos 60 havia gente a destruir pianos em busca de noise. Antes de entrar nos Buzzcocks, eu estava a gravar aspiradores e coisas assim. A cena vanguardista ofereceu-nos o lado angular das guitarras nas nossas canções. Ouves melodia, sim, mas de vez em quando ouves algo discordante a meio. O barulho e a desestruturação da sociedade traduziam-se assim. Estávamos a refletir sobre os tempos modernos”.

Não é essa, porém, a ‘marca’ que os Buzzcocks deixaram no intenso viveiro punk, o que motiva lamentos no guitarrista. “O lado pop dos Buzzcocks é sempre mais observado. Mas quando tocávamos juntos, fazíamos jams, interagíamos. Canções como ‘Autonomy’, ‘Moving Away From the Pulsebeat’ ou ‘Late for the Train’ são enormemente experimentais, mas como éramos tão bons a fazer canções punk pop pegadiças, não foi por isso que tornámos conhecidos. Nós éramos mais do que meros fazedores de canções pop”, desabafa Diggle. Ainda vamos a tempo de entendê-lo.

Originalmente publicada na revista E, do Expresso, de 23 de fevereiro de 2019