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Mai Kino

Memorize este nome: Mai Kino, a portuguesa mais londrina da música. “Cantar era uma fobia, dava-me vontade de desmaiar” [VÍDEOS]

Deu que falar na sua cidade de eleição, em Terras de Sua Majestade, quando divulgou as primeiras canções e prepara-se agora para editar um novo EP. Em entrevista à BLITZ fala sobre aquilo que a move, os artistas que a influenciaram e o concerto que vai dar no festival NOS Primavera Sound

Os olhos grandes e expressivos de Catarina Moreno, em permanente comunicação com uma voz quente e doce (que, quando quer, se transfigura em acidez pura), são suficientemente intrigantes para que nos sintamos instantaneamente convidados a entrar no universo musical onírico e sedutor de Mai Kino, projeto musical da artista portuguesa a viver em Londres há mais de uma década. “Tenho uma vida noturna, a nível de sonhos, muito agitada e ativa”, começa por explicar quando a questionamos sobre aquilo que mais a inspira a escrever canções, “as minhas fontes principais são as minhas experiências reais, aquilo que sinto no momento, e também as coisas que sonho à noite. Tenho sonhos recorrentes, constantemente. Nunca têm diálogo, são sempre atmosferas, luz, ondas. É uma grande força de criatividade e o meu subconsciente ajuda-me muito, porque sou daquelas pessoas que pensa demasiado quando está acordada e depois, quando relaxo e durmo, o meu cérebro trata das coisas por mim. Ajuda a limpar e a pôr tudo no sítio”.

Estreou-se há quatro anos com o single ‘June’ e, já em 2016, lançou para as plataformas digitais o EP “The Waves”, com duas outras canções. Rapidamente, vários blogues britânicos especializados em música perceberam que havia ali algo de bonito a nascer. “Comecei por escrever canções na guitarra e dei alguns concertos por Londres, só eu com a guitarra e uma pessoa a tocar contrabaixo”, recorda a artista, “depois, coloquei duas canções no SoundCloud e tiveram imensa atenção. Iniciei-me nesse formato meio acústico, mas como ouço imensa música eletrónica começou a fazer sentido incluir isso nas minhas canções”.

Com formação e trabalho em áreas como a dança, o teatro, as artes visuais e o multimédia, Moreno quer que Mai Kino seja um gigantesco chapéu sob o qual consiga albergar toda a arte que tem para dar ao mundo. “O meu problema sempre foi decidir o que ia fazer, em qual das coisas me ia focar. Depois percebi que, através da música, tendo-a como plataforma, consigo exprimir-me, também, visualmente através de vídeos, de fotografia, das luzes que uso em palco, da indumentária que desenho, como fiz, por exemplo, agora para o concerto no CCB”, confessa-nos, poucos dias depois de regressar a Portugal para subir ao palco lisboeta, “quis escolher um nome que refletisse essa estética e que pudesse ser, ao mesmo tempo, um nome de pessoa mas também o nome do projeto. Quero fazer, paralelamente, instalações de arte e espero usar este mesmo nome”.

Recuando uns bons aninhos, afirmando que a música foi a sua “primeira paixão” (“mas em privado, no meu quarto, sem ninguém ouvir”), a artista explica que, no início, tinha pavor de “cantar frente a quem quer que fosse”. “Era uma fobia mesmo, então as raras pessoas que me ouviam cantar, quando era mais pequenina, diziam: ‘tens de fazer alguma coisa com isso’. A ideia de cantar para alguém dava-me vontade de desmaiar, quase”. Passados todos estes anos, reconhece que “devagarinho, fui melhorando e isso foi mudando”: “estive muito nervosa na semana anterior ao concerto no CCB, mas quando chegou o dia estava só cheia de vontade, entusiasmada. Canalizei aquela energia nervosa para entusiasmo e vontade de ir para o palco”.

Sobre a forma como encara as suas novas composições, quando comparando com as primeiras canções que apresentou ao público, não tem grandes dúvidas: “no primeiro EP, a música caiu-me um bocado ao colo, foi uma coisa que apareceu do nada, que eu não esperava… Agora, tive tempo para maturar, para crescer, para pensar bem nas coisas e como as quero a nível de produção e de escrita”. ‘Young Love’, tema que editou no ano passado, e o próximo single, intitulado ‘Talk’, que deverá ver a luz do dia em breve, são resultado de “experiências pessoais”. “Se calhar, todos os músicos dizem isto, mas sinto que sou ainda mais eu e que estas canções têm ainda mais de mim”. ‘Young Love’, acrescenta, “demorou-me muito tempo a escrever. Geralmente, sou muito rápida, mas lembro-me de estar fechada no quarto umas 14 horas a tentar chegar aonde queria. Os refrões vieram no fim, os versos chegaram primeiro. Tinha uma imagem de um novo dia, um amanhecer meio David Lynch, meio sonhador, estranho, desconfortável até, e tentei recriar isso na canção”. Para isso, diz ter recorrido a “field recording”, ou seja, gravou sons ambientes no armazém onde vive, “que tem imenso eco”: “gravei umas correntes a arrastar no chão e outros sons reais que depois introduzi para fazer um beat na canção”. Quanto ao EP, explica que deverá ser composto por quatro canções, que já estão escritas e com produção básica, “precisam só dos toques finais”.

Apesar de querer levar o seu tempo, porque a pressa é geralmente inimiga da arte, Moreno assume que sente alguma pressão, “tudo isto existe em paralelo com a minha vida pessoal e as fases por que estou a passar. A nova canção que vou lançar, ‘Talk’, tem uma história muito engraçada. Escrevi-a numa fase de bloqueio criativo… Tentava escrever durante o dia e não saía nada de que gostasse e uma noite, enquanto estava a adormecer, veio-me a canção à cabeça, completamente formada. Eram umas três da manhã... É impressionante como o nosso subconsciente trabalha para nós quando o consciente coloca demasiados entraves e obstáculos. Então, levantei-me e gravei no meu iPhone. O piano final é samplado dessa gravação”. O facto de sempre ter sido independente, “nunca tive uma editora”, ajuda-a a ganhar tempo. “Hoje em dia, a indústria da música, qualquer indústria, acho, põe imensa pressão temporal nos artistas”, defende, “o Leonard Cohen disse, numa entrevista, que às vezes demorava oito anos a acabar uma letra… Claro que não nos podemos dar ao luxo de levar oito anos para terminar uma canção, mas às vezes a pressa e a pressão são incompatíveis com a arte. Interessa-me fazer algo honesto e genuíno, portanto acho que fiz bem em levar o meu tempo e quero continuar a levá-lo”.

Cita nomes como Jon Hopkins ou Mount Kimbie, quando a questionamos sobre as influências que transporta para a sua música, mas ressalva que teve uma “educação” musical muito eclética. “Cresci a ouvir grunge, Nirvana, e o trip-hop de Bristol, especialmente Portishead. Mais tarde, descobri a bossa nova, a Billie Holiday e depois apaixonei-me por música eletrónica. Acho que [a minha música] é a mistura de todas essas influências: elementos mais orgânicos, reais, crus, com ambientes eletrónicos mais futuristas, espaciais”, explica, “vivemos agora, em 2019, por isso é bom não negar a realidade e o que está à nossa volta. Acho que não devemos ser extremos e dizer coisas como ‘só gosto de música dos anos 70’ ou ‘só gosto de ouvir martelada’. É importante movermo-nos livremente entre as coisas e podermos retirar um pouco daquilo que gostamos de áreas diferentes”.

Londres é também uma grande influência na sua arte, até porque é a sua casa há mais de uma década, mas sente que o Brexit implicou menos investimento cultural na capital britânica. “Bastantes salas de espetáculos de música e centros culturais começaram a fechar”, afirma, “há muito dinheiro neste momento em Londres, muitos hotéis e apartamentos de luxo, está a gentrificar muito rapidamente e de forma agressiva”. Essas mudanças, contudo, não a fazem pensar num regresso a Portugal. “O que me prende a Londres é o facto de ser a minha casa. O meu cérebro adulto, a minha carreira, tudo o que experimentei a nível de trabalho e arte foi em Londres, então, por agora, vou lá ficar. Mas sim, vamos ver o que acontece. Acho que as pessoas estão muito desiludidas, porque quando vives em Londres vives numa bolha e, se calhar, crias uma ideia do Reino Unido que não reflete, necessariamente, a realidade. Londres é uma cidade feita por essa diversidade e perder-se isso é um pouco triste”. Por outro lado, sente que Lisboa está a fazer o caminho inverso, “acho que há uma abertura muito maior do que havia quando saí daqui, há muito mais diversidade, pessoas de culturas diferentes e uma maior abertura de mentes”.

Sobre o espetáculo que trará ao NOS Primavera Sound – atua a 6 de junho, primeiro dia do festival portuense – ainda não abre muito o jogo, mas diz esperar “continuar a desenvolver aquilo que comecei a criar agora no CCB: um espetáculo completo a nível de iluminação, indumentária, da minha presença em palco e da maneira como vou apresentar as canções. Ainda estou a descobrir e a pensar se faço algumas coisas mais acústicas para contrabalançar aquela parte eletrónica tão intensa. É algo que vou descobrir nos próximos meses”.