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António Zambujo

Rita Carmo

No dia em que o rei António Zambujo fez anos, visitámo-lo em estúdio. E ouvimos os seus segredos e os dos seus amigos

Em setembro, fomos até ao estúdio onde António Zambujo gravou “Do Avesso”, o álbum que este sábado apresenta no Coliseu de Lisboa. Entre amigos e companheiros de trabalho, o alentejano passou o seu dia de aniversário a gravar dezenas de takes de voz, em busca da perfeição. Filipe Melo, Nuno Rafael, João Moreira e Aldina Duarte ajudaram à festa, contando-nos alguns dos seus segredos

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Sentado sozinho na régie, Filipe Melo come uma sanduíche de queijo, retirando-a de um pequeno embrulho de papel de alumínio. Na véspera, o tondelense honorário foi com o resto da equipa pré-festejar as 43 primaveras de António Zambujo, que se celebram neste dia 19 de setembro, e entre sorrisos garante-nos já estar velho para tais noctívagas andanças. Aos 41 anos, o músico, realizador e ilustrador, muito recentemente galardoado no Festival de Banda Desenhada da Amadora (Melhor Álbum), não foi ao almoço de aniversário do cantor, que dali a nada chegará aos estúdios Atlântico Blue, em Paço de Arcos. De calções e camisa verde às riscas, numa tarde ainda quente de fim de verão, António Zambujo não vem sozinho. Num grupo numeroso e afável de amigos, familiares e representantes da sua editora, a Universal, entra na sala distribuindo sorrisos e agradecendo os sucessivos votos de felicidades.

Pouco a pouco, porém, todos os elementos estranhos à gravação vão-se despedindo e abandonando o estúdio, onde um dos músicos mais bem-sucedidos dos últimos anos em Portugal se prepara para recomeçar a trabalhar. "Do Avesso", o seu novo disco, naquela altura ainda sem título, está na fase final da gestação.

Hoje, António Zambujo gravará dezenas de takes de voz para 'Sem Palavras', a canção de João Monge e Mário Laginha que acabará por ser escolhida para primeiro single do seu oitavo álbum, nas lojas na próxima sexta-feira. Ouviremos também alguns takes de 'Até o Fim', com a Orquestra Sinfonietta de Lisboa (que por ali passou dias antes) a desenhar cornucópias em redor das palavras de Arnaldo Antunes, sobre música de Cézar Mendes. Ao fim da tarde chega Ana Cláudia Serrão, para "apagar um fogo" e regravar um contrabaixo que, na véspera, ficara aquém do idealizado por este grupo de perfeccionistas.

Desta vez, tudo sai como sonhado - a textura, a cor, o calor. "Soa mesmo a madeira", elogia alguém. Podíamos estar a falar de um vinho caro, mas é música que se bebe nos estúdios onde Madonna já esteve a gravar com batucadeiras de Cabo Verde. Ao longo das seis horas que medeiam o almoço e o jantar de aniversário de António Zambujo, apenas as mensagens que o alentejano vai espreitando no telemóvel e um simpático bolo de bolachas, que os músicos debicam distraidamente, nos dizem que é dia de festa. Sempre com boa disposição, aqui trabalha-se a sério.

António Zambujo gravando as canções de “Do Avesso”, em Paço de Arcos

António Zambujo gravando as canções de “Do Avesso”, em Paço de Arcos

Rita Carmo

Dono de um percurso atípico, o músico nascido em Beja só ao quarto álbum começou a construir a popularidade de que agora goza. Foi com "Guia", lançado em 2010 e casa de êxitos como 'Zorro' ou 'Readers Digest', que o rapaz de olhos rasgados e sorriso malandro inicialmente seduziu uma plateia não exclusivamente ligada ao fado, um dos meios que o viram nascer para a música. O outro foi a tradição musical alentejana, que absorveu diretamente da fonte mais pura: a sua família. "A minha avó é que me ensinava as letras", contar-nos-á semanas mais tarde. "Eu ouvia os homens a cantar, depois ia perguntar à minha avó as letras, e ela ensinava-mas, para eu poder ir cantar com os homens", recorda, sempre risonho. E a avó conhecia todas as letras? "Sabia muitas, porque o meu avô ensaiava grupos corais. Eu já não o conheci - aliás, nem a minha mãe o conheceu. Morreu uns meses antes de a minha mãe nascer. Mas, segundo o que a minha avó dizia, ele cantava bem e tinha jeito para ensaiar os grupos e preparar as modas. Era provavelmente daí que ela conhecia as letras." Apesar de reunir a desenvoltura necessária para juntar a sua voz a grupos de homens adultos, sendo premiado com copinhos de gasosa, António Zambujo era uma criança especialmente aluada. "Havia um cão que era de uma tia, mas passava os dias na nossa casa - estava sempre a visitar as famílias", ri-se. "Eu chegava a estar com uma sanduíche na mão, com o cão a comer-me o pão, e eu sem reparar... Era muito distraído!"

Ainda em Beja, Zambujo estudou clarinete, e quando se mudou para Lisboa experimentou a representação, participando na peça "Amália", de Filipe La Féria, como ator. Sobre todos os passos do seu percurso, que em "Guia" e "Quinto" (o disco de 'Lambreta' e 'Flagrante', de 2012) atingiu enorme exposição, o músico fala com uma simplicidade que engana. Na verdade, só com muito trabalho se chega ao patamar de sucesso que ele alcançou - quer nos discos, que marcam presença assídua nos tops de vendas, quer nos palcos, com digressões de mais de cem concertos por ano.

"Ele contou-me uma coisa que me marcou imenso", dir-nos-á Filipe Melo, um dos produtores do novo "Do Avesso".
"A certa altura, aceitou trabalho em casas de fados, a tocar guitarra, porque queria melhorar a tocar acordes! O que quero dizer é que ele não é um tipo que apareceu do dia para a noite. Sabe muito bem o que quer, e o que quer é uma carreira com estrutura. Não é um desses fenómenos [passageiros]." Sua amiga de longa data, Aldina Duarte confirma esta perceção. "O António é uma das pessoas mais dedicadas que eu conheço. Quando o conheci, ele ainda não tocava viola, praticamente", diz a fadista, que começou por se cruzar com Zambujo na casa de fados Senhor Vinho. "Foi aprender a tocar e hoje acompanha daquela maneira e compõe a música dele", elogia, com carinho.

Ainda que de facto assine várias das canções que canta, António Zambujo conta habitualmente com uma seleção de luxo de compositores e letristas que o ajudam a dar forma aos seus discos. Em "Do Avesso" volta a trabalhar com João Monge, Pedro da Silva Martins (dos Deolinda) ou Rodrigo Maranhão, convocando ainda os préstimos de várias mulheres: Luísa Sobral, Márcia e a amiga Aldina ofereceram-lhe canções. 'Retrato de Bolso', penúltima música do alinhamento, é uma peça especial, confirma a autora do tema. "Ele mandou-me a música, e eu perguntei: mas tens algum assunto, ou posso ser eu a escolher?", partilha Aldina Duarte. "E ele disse-me: faz o que quiseres, mas eu gostava de cantar qualquer coisa que tivesse a ver com uma memória. Eu registei isso e fiz este tema à memória do pai dele [falecido no ano passado]. Como a música era muito melancólica e nostálgica, fui buscar a ideia de testemunho que passa de geração em geração - daí a frase 'as melodias que o meu avô cantou por nós'. E remato com uma espécie de pai-nosso do cante alentejano, como símbolo da memória: avô, pai e filho."

Pai de dois filhos - o mais velho, já estudante universitário, "introvertido e com jeito para a escrita" e o mais novo "completamente distraído como o pai" -, António Zambujo pode ter-se tornado famoso por canções bem-dispostas e trauteáveis, mas é capaz das mais comoventes e despidas interpretações.
Aldina Duarte vai mais longe e confessa que tem saudades de ouvir o amigo "cantar coisas tristes. É um lado que não explorou tanto, dada a sua popularidade e a dimensão das salas onde atua. Ele tem ali um timbre e uma fragilidade lindíssimos. Não é o fado: é uma coisa que é só dele. Havia uns temas de cante alentejano que ele cantava à viola e eu chorava".

Em setembro de 2018, nos estúdios Atlântico Blue

Em setembro de 2018, nos estúdios Atlântico Blue

Rita Carmo

Em "Do Avesso", um álbum estilisticamente diverso, essa tristeza não é esquecida - pelo contrário, é a nota emocional que abre o disco, num tema-título cantado apenas ao piano, e a que o fecha, 'Moda Antiga', uma canção de voz e guitarra. Em relação à primeira, António Zambujo não tem qualquer pejo em reconhecer que 'Do Avesso' é "completamente copiado de uma música do [brasileiro] Rodrigo Amarante. Mostrei-lhes o disco e disse: é este o som de piano que eu quero!", conta, soltando uma gargalhada. Filipe Melo, a quem coube emular o som de piano de "Cavalo", confirma, mas explica que procurou uma outra coordenada. "Eles falaram-me do disco do Rodrigo Amarante, mas a minha referência foi um disco do Bonnie 'Prince' Billy, 'Arise Therefore'. Quando o ouço, passo o tempo todo a tentar perceber se o pianista sabe ou não tocar", exclama, divertido. Para quem estes nomes nada disserem, o pianista tem uma imagem perfeita para ilustrar a abordagem que seguiu na canção que dá nome ao disco. "Dantes pensava mais como pianista, agora talvez pense mais como intérprete ou como um ator. Ao tocar essa música, pensei como é que um sem-abrigo a tocaria. Se fosse uma pessoa completamente nas últimas a tocar, possivelmente não teria energia, nem técnica, nem preocupações, só o desleixo total. O som do piano, ali, é isso. Foi a minha tentativa de fazer uma coisa completamente crua."

Curiosamente, couberam também a Filipe Melo os momentos mais complexos ou ornamentados do disco. Foi da sua pena que saíram os arranjos para orquestra de cinco temas, interpretados depois pelos músicos da Orquestra Sinfonietta de Lisboa, sob direção do maestro Vasco Pearce de Azevedo.
"O Filipe deve ter estado muitas noites sem dormir, só a fazer os arranjos", diz Nuno Rafael, outro dos produtores do álbum. "E fez um trabalho inacreditável. Aquilo é um centro comercial, um prédio cheio de apartamentos, e ele tem de encher os apartamentos todos. São muito complexas, as partituras - há muitos mundinhos naquele mundo que é o arranjo de orquestra de uma canção."

Num dos últimos dias das gravações, o terceiro elemento deste dream team - João Moreira, trompetista que há muito integra a banda de António Zambujo - fecha os olhos. Observadores incautos poderiam imaginar que cochila, até que o músico se ergue do pequeno sofá da régie e, sugerindo uma subtil alteração, resolve um impasse na gravação do violoncelo na canção 'Amor de Antigamente'. Os companheiros riem-se da intervenção súbita, batem palmas, esboçam sorrisos ao avistar a meta do fim do dia de trabalho. Para Filipe Melo, João Moreira, que foi seu professor, tem "o melhor ouvido" do mundo. Nuno Rafael, com quem falámos em separado, replica o elogio, e todos garantem que, em estúdio, houve discussões mas nunca atropelos ou excesso de cabeças e sentenças. Quando as coisas se complicavam, o líder intervinha. "O polícia sou sempre eu, porque sou o tipo com piores fígados", assegura António Zambujo. "Às vezes, passo-me.
Depois tentamos meter água na fervura e a coisa segue. Mas o mau era eu."

Na tarde que passámos em estúdio com os cinco obreiros de "Do Avesso" (inclua-se nestas contas o engenheiro de som, Fernando Nunes), ninguém diria que o "papas moles" - expressão que o cantor usa para ilustrar a sua distração de criança - é capaz de dar um berro para impor a ordem. "Não é sempre!", esclarece ele. "É só quando é preciso... Normalmente, sou tranquilo, pachorrento." Fácil? "Sou", confirma, o sorriso a voltar ao rosto de onde nunca se ausenta por muito tempo. "Se fosse um cão, seria um basset hound. Fofinho, com aquelas orelhas e aqueles olhos assim...", brinca. "Ele é um bom líder", acredita Filipe Melo. "E atenção que não disse 'chefe'.
Tem uma noção muito clara do que quer, e quando chegava aquela altura do 'cada cabeça sua sentença' mandava um berro e a coisa ficava resolvida. O disco é dele, mas a verdade é que ouvia sempre toda a gente. É uma conjuntura rara", sublinha, salientando a excelência do intérprete e dos músicos. "Isso dá uma responsabilidade tremenda: se alguma coisa correr mal, a culpa é nossa! Temos de dar o litro, e foi o que aconteceu com todos."

Rita Carmo

"Menos jazz, Filipe, menos jazz." Lá dentro, Filipe Melo toca repetidas vezes a sua parte de 'Até o Fim' num piano Nord que recebeu para estas gravações (quando, mais tarde, lhe perguntamos se irá para a estrada com António Zambujo, diz a rir-se: "Acho que sim, até porque tenho um piano para lhe pagar! Ele comprou-me um piano elétrico para eu gravar!"). Cá dentro, na régie, Nuno Rafael dá indicações verbais, ao passo que João Moreira vai fazendo air piano, esbracejando no ar. "Mais largo, mais planante", pede a Filipe Melo, enquanto lá em cima, impiedoso na sua marcha, o contador mostra segundos, décimas de segundo, centésimas de segundo. "Posso entrar?", pergunta o 'piloto' que opera a mesa de som, como se o estúdio fosse um bloco operatório e os músicos autênticos cirurgiões, tentando acertar - ou contornar - um qualquer nervo.

"Eu vou cantar já!", entusiasma-se António Zambujo, correndo para o microfone como uma criança para mais um mergulho na piscina. "Ah, isto é a voz dos 43 anos!", rejubila Fernando Nunes. Segue-se um momento de relativa tensão, quando Filipe Melo mostra o seu desconsolo pelo que sente ser um vago desencontro entre as suas teclas e a voz do nosso anfitrião. "Até tive a gentileza de trazer o Nord...", queixa-se o homem do piano, sugerindo uma nova gravação e vendo os seus desejos barrados pelo engenheiro de som e pelos deuses do tempo. "Nesta altura do campeonato não, meus amigos, nesta altura não!", é o veredicto final de Fernando Nunes, antes de a concentração de todos se voltar para os takes de voz.

Aos ouvidos de um leigo, mesmo que melómano, todas as interpretações de António Zambujo soam praticamente impolutas. Para Filipe Melo, Nuno Rafael e João Moreira, contudo, há sempre pormenores que podem - e devem - ser melhorados. “Está muito exposto na primeira parte", observa João Moreira. "Está meloso", reconhece o próprio intérprete, antes de uma pausa para brincadeira e convocatória de um 'músculo' que há algum tempo não exercita: "Vou fazer uma versão fadista", anuncia e concretiza, para risada geral. "Não está nasalado, pois não?", preocupa-se mais à frente. Se esta sessão fosse uma história de banda desenhada, os balões das falas mostrariam todos estes reparos e mais alguns: "Aquela nota está sempre torta"; "Preocupa-te com o tempo, mas não faças quadradão"; "A entrada ainda não foi na batata"; "Está um bocadinho Sérgio Godinho demais"...

Descontraído como é seu apanágio, António Zambujo deixa-se dirigir sem um queixume, mas a certa altura a boa disposição é demasiado flagrante na gravação. "Estás a rir-te, e isso nota-se", reclamam os parceiros. "Então queres que chore?", riposta ele de imediato, com o sotaque alentejano a mostrar o seu mel. "Boa, o gajo mandou o vibrato!", aprova Filipe Melo, após mais um take de 'Até o Fim'. "Está brutal!" A 'senhora' que se segue é 'Sem Palavras', uma canção pop que põe toda a gente a dançar - superpoder que António Zambujo possui desde a nascença.

António Zambujo e Nuno Rafael, um dos produtores do disco

António Zambujo e Nuno Rafael, um dos produtores do disco

Rita Carmo

"Quando ela começou a ganhar a textura que tem hoje, foi na minha casa, com o meu piano desafinado", recorda. "E só me apetecia andar aos pulos! Era Paul McCartney meets Brian Wilson, todos felizes e contentes!" Na hora de gravar, todas as indicações são válidas para se conseguir o resultado desejado. "A métrica tem de ser mais pop, mais alegre, menos para dentro", começa Nuno Rafael por enunciar. Seguem-se dezenas de takes, obedecendo às instruções mais coloridas: "Pensa num crooner de Festival da Canção"; "Canta como se fosses um bacano impecável com um microfone no chuveiro"; "Imagina aquele senhor no festival com calças de bombazine"... "Mas mais António Calvário do que isto é impossível", reage às tantas António Zambujo, recebendo resposta pronta do incansável Nuno Rafael, incapaz de se sentar: "Pensa mais em Carlos Mendes, 1966." Semanas mais tarde, Filipe Melo, que assistiu a este processo com preocupação ("Desculpa ser sempre o 'cortes', mas começou bonito e perdeu simplicidade", criticava então), ri-se ao recordar os mil e um takes dessa tarde. "E no disco não ficaram esses!" Caminhando para trás e para a frente como forma de se manter desperto, o jovem arranjador e orquestrador comenta, a certa altura: "O pessoal está habituado a ouvir-te cantar bem, é bom ouvir-te cantar o mínimo possível." A apreciação vai de encontro à aversão que António Zambujo sempre demonstrou por aquilo a que chama overacting.

Mesmo com orquestra em vários temas, o seu lema continua a ser "menos é mais: aquilo de que mais gosto na música são os silêncios e as respirações", resumirá. Esta filosofia faz sentido para Filipe Melo, outro curador da elegância sonora. "Vivemos numa altura em que a música está cheia de artifícios e com pouca intenção", considera. "E às vezes é preciso reduzir ao mínimo todos os artifícios para que se ouça a letra e se perceba a personalidade da pessoa que está a cantar. Tivemos uma discussão a propósito do 'Amapola'", revela, referindo-se à versão do standard incluída em "Do Avesso". "Ele tinha uma versão em que o final ia muito para cima; alterava a melodia do tema. Eu dizia-lhe: estou a ouvir muito mais o cantor do que a canção. E ele: mas uma pessoa também não pode fazer as coisas frias. Eu [concordei], mas depois ele ligou-me a dizer que eu tinha razão e escolheu um take em que o que faz no final é, honestamente, genial. Quase consigo sentir o que ele está a sentir quando canta aquilo, e na outra [versão] não conseguia, porque estava distraído com o aparelho vocal dele", conta Filipe Melo, descrevendo todo o processo como "uma aprendizagem de como a subtileza e a emoção continuam a ser as coisas que fazem a diferença".

Fotografado em 2018 por Rita Carmo

Fotografado em 2018 por Rita Carmo

Rita Carmo

No final de uma tarde de trabalho árduo mas com emoções serenas, a chegada de Ana Cláudia para regravar o violoncelo em 'Amor de Antigamente', tocando sobre uma trilha pré-gravada de guitarra acústica, é um bálsamo acolhido com uma sinestesia de direções. "Mais baço, Ana"; "Só com um cheirinho"; "Fica lá a respiração toda, sabe bem"... Impressionados com o desempenho da instrumentista, os quatro timoneiros relaxam e ela brinca, desenhando com o seu arco a melodia do 'Parabéns a Você'.

Nascido a partir de esboços de melodias que António Zambujo regista no seu telemóvel e de contributos de amigos e colaboradores como Miguel Araújo, Jorge Benvinda (dos Virgem Suta), Jorge Drexler ou Paulo Abreu Lima, além dos parceiros já referidos, "Do Avesso" começa a ganhar forma de gente. Ao sétimo trabalho de originais (há dois anos lançou "Até Pensei Que Fosse Minha", com versões de Chico Buarque), o músico congratula-se pelo futuro que o presente lhe oferece. "Este disco permite-me abrir vários caminhos. Daqui para a frente posso seguir qualquer um deles, que ficarei feliz e realizado. Não sei o que vai acontecer", ressalva, "mas a parte da orquestra foi muito enriquecedora. Senti-me mesmo naquela cena de crooner."

Continuando a colocar no altar das referências a santíssima trindade de João Gilberto, Chet Baker e Tom Waits ("ainda não encontrei melhor", confirma, acrescentando o nome de alguém que trata por tu: Caetano), António Zambujo quis terminar um disco recheado de refrãos sumarentos e arranjos sumptuosos com o máximo de simplicidade.
Em 'Moda Antiga' entoa a melodia da sua autoria e a letra de João Monge com a companhia singela da sua própria guitarra acústica e um piscar de olho ternurento às raízes alentejanas. "É importante que o final do disco remeta para um renascer. Dali para a frente está tudo despido, tudo nu, sem roupa, sem nada, e podemos fazer o que quisermos."

Liberto da pressão das redes sociais, onde deixou de ter conta por considerar estas plataformas "o maior cancro da sociedade e uma arma perigosíssima contra a democracia", e livre também do stresse que lhe causava a condição de adepto de futebol, que desistiu de acompanhar por saturação com as polémicas, António Zambujo segue agora caminho para a vida dos outros que há muito chamam suas às canções dele. 'Algo Estranho Acontece', um dos temas do álbum "Quinto", por exemplo, é banda sonora frequente de casamentos. "É o sonho de qualquer casal", justifica ele. "Pelo menos no dia em que se casa! No dia a seguir já passa", ri-se aquele que a amiga Aldina Duarte diz ter um sentido de humor "ácido" e delicioso. "Mas no dia em que se casa quer 'viver aquilo tudo novamente'", diz, citando a letra da canção. E no novo álbum há alguma marcha nupcial em potência? "A 'Fruta Boa' é uma música muito bonita", escolhe, referindo-se à versão do tema de Milton Nascimento. "A versão que mais me impressionou foi a da Nana Caymmi com o César Camargo Mariano. É capaz de ser uma música dançável para dois noivos que acabaram de se casar."

António Zambujo apresentou “Do Avesso” no Coliseu do Porto a 23 de fevereiro e volta a tocar no Coliseu de Lisboa a 1 e 2 de março.

Artigo publicado originalmente na revista E, do Expresso, a 17 de novembro de 2018