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Mark Hollis, dos Talk Talk, em 1984

Getty Images

Mark Hollis (1955-2019): o incrível músico que fazia puzzles no escuro

O vocalista e líder dos Talk Talk, falecido esta semana aos 64 anos, deixa-nos uma carreira ímpar: desde os singles pop como 'It’s My Life' até aos dois últimos álbuns da sua banda, obras primas em que o rock ascendeu a qualquer outra coisa até aí desconhecida

Tiago Soares

Sabemos hoje que o primeiro esboço daquilo que agora consideramos pós-rock nasceu na cabeça de Mark Hollis. "Spirit of Eden" (1989) e "Laughing Stock" (1991), os dois últimos álbuns dos ingleses Talk Talk, não só ultrapassaram o pop que caracterizou os primeiros anos da banda, como expandiram o rock para um território até então desconhecido. Foram álbuns gravados com pouca ou nenhuma luz do dia, às vezes em total escuridão, num estúdio onde o tempo não passava.

Durante esses períodos - mais de um ano para cada álbum - Hollis convidou dezenas de músicos e libertou-os para tocar e improvisar no seu instrumento, em busca da essência de cada um deles. O processo resultou em centenas de horas de gravações: segundo Phill Brown, engenheiro de som durante as sessões, apenas 20% terá sido aproveitado, e tudo o resto foi destruído. Mas a verdade é que o puzzle encaixou. Para Brown, “o álbum é uma ilusão”, mas é uma ilusão perfeita. Os Talk Talk criaram uma nova forma de fazer e gravar música: o álbum como um puzzle, um jogo minimalista de encaixe, apenas dependente da perfeição necessária para colocar cada nota - e cada silêncio - exactamente onde deve estar. E em toda esta equação, Hollis trata a sua voz como mais um instrumento a pairar sobre a paisagem, não a deixava “dominar”, não a sobrepunha à música, deixava-a fazer parte do puzzle. Escrevia as letras de forma a poder acreditar nelas quando as cantava. O princípio básico era sempre o mesmo: “Antes de tocares duas notas, aprende a tocar uma nota. E não toques uma nota a não ser que tenhas uma razão para o fazer”. "Laughing Stock", sobretudo, oferece-nos esse privilégio: o privilégio da simplicidade, da nota certa, do silêncio necessário.

Hollis defendia o espaço físico da música, o espaço entre todos os músicos, mesmo que não gravassem todos ao mesmo tempo. Os dois últimos álbuns dos Talk Talk são obras primas porque as notas respiram esse mesmo espaço, e os músicos tocam todos juntos, ainda que nunca se tivessem cruzado. Independentemente do instrumento. Em 'Ascension Day', por exemplo, o baixo acústico e a guitarra dissonante parecem perder-se por cima do ritmo da bateria, mas tudo se resolve com a entrada do orgão, numa graciosidade arrepiante, que altera todo o contexto emotivo da música. 'New Grass' faz da harmónica, do piano e da guitarra elétrica uma só textura. Os vários órgãos de 'Wealth' vão partilhando sempre a sensibilidade da voz de Hollis, ora num murmúrio, ora expansiva. Dezenas de músicos tocaram para Hollis: os mais variados instrumentos surgem nas músicas, mas esses pormenores nunca destoam de tudo o resto que ouvimos: como canta Thom Yorke dos Radiohead, uma das bandas fortemente influenciadas por Talk Talk, “everything is in its right place”.

Hollis cumpriu o seu objectivo: "Spirit of Eden" e "Laughing Stock" são, de facto, trabalhos “intemporais”, não “reconhecíveis como sendo de uma época”. São melodias trabalhadas de forma obsessiva mas que soam livres e atingem uma naturalidade musical que poucas bandas até hoje conseguiram. O equilíbrio e a textura das músicas é inigualável. E ele soube disso na altura, porque se retirou da música pouco depois de "Laughing Stock", sentindo o objectivo cumprido, desgastado com a indústria musical, em paz com os dois álbuns que criou, satisfeito por nunca mais tocar ao vivo para uma plateia. A influência que os Talk Talk tiveram no desenvolvimento da música nos últimos 30 anos é incalculável, e já há muito tempo tinha ultrapassado o próprio Hollis, que nunca quis ser o modelo de ninguém.

São dois álbuns que nunca vão envelhecer. Foi tudo montado artificialmente, sim, mas a música é viva, orgânica, está a ser tocada mesmo à nossa frente, e cada momento se dilui no seguinte sem esforço, quando assim tem de ser, depois e antes do silêncio. Hollis criou uma atmosfera onde se respira até hoje, e é por isso que vai ser recordado. Sobre "Laughing Stock", a sua grande obra-prima, ele próprio sugeriu a melhor forma de a ouvir: “Sozinho, extremamente baixo. Não acho que se deva aumentar o volume para lá do volume natural dos instrumentos caso estivessem a tocar na sala.” São puzzles perfeitos.