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Jonathan Wilson

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Jonathan Wilson finalmente em Portugal. A entrevista com o braço direito de Father John Misty e guitarrista de confiança de Roger Waters

Na semana em que foi anunciado o primeiro concerto de Jonathan Wilson em Portugal, publicamos a entrevista com o músico norte-americano, cujo disco “Rare Birds” foi, em 2018, o melhor do ano para a BLITZ. “Achei Lisboa fantástica, já andei a ver casas para comprar”

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

“Não posso agradecer-vos o suficiente por esta grande honra”, insiste, ao telefone da Colômbia, Jonathan Wilson. Em 2018, o cantor, compositor e guitarrista que conhecemos em 2011, com “Gentle Spirit”, esteve em Portugal, tocando e cantando com Roger Waters, na digressão que passou pela Altice Arena, em Lisboa, para duas datas esgotadas. Também conhecido como o homem por detrás dos três primeiros álbuns de Father John Misty, que produziu, Jonathan Wilson permitiu-se, este ano, algum protagonismo, e lançou o seu próprio disco a solo. Depois da revelação “Gentle Spirit”, há sete anos, e do seu sucessor, “Fanfare”, de 2013, “Rare Birds” é um álbum à moda antiga: cheio de canções e ambição, perfeccionismo e amor à causa do rock, mas também da folk, do psicadelismo e dos outros mundos que cabem na sua guitarra. À BLITZ falou com alegria por ter sido eleito autor do álbum do ano, interrompendo o telefonema para “tomar um duche” e correr para os ensaios com Roger Waters, mas ligando mais tarde para rematar a conversa.

Passou o ano na estrada, entre os seus concertos e os concertos com Roger Waters. Quais foram os pontos altos da sua digressão?
Nos intervalos entre os concertos com o Roger Waters, dei alguns concertos com a minha banda, e terão sido esses os pontos altos da digressão. Alguns dos espetáculos a solo também têm sido maravilhosos, porque toco com o baixista que toca com o Roger Waters; apresentamo-nos como duo e tocamos em clubes de jazz, que têm sempre um ambiente porreiro. Demos grandes concertos no Brasil e, recentemente, um bem divertido, em Santiago do Chile. Dos concertos que dei com a minha banda, sem dúvida que o meu favorito foi o que dei na minha cidade, Los Angeles. Foi o maior que alguma vez dei e muito divertido. Tínhamos uma lista gigantesca de convidados, com centenas de amigos!

E com o Roger Waters? Tocou em lugares enormes, inclusivamente em Portugal…
Os maiores concertos que demos aconteceram na América do Sul. Nesta digressão, temos tocado em espaços enormes, ao ar livre, como estádios de futebol. Tocamos para 70 mil ou 80 mil pessoas, é uma cena gigantesca. Por outro lado, a plateia é maior e os espaços são maiores, mas já fazemos isto há tanto tempo que já temos uma certa confiança e uma certa consistência, como banda.

Com Roger Waters na Altice Arena, Lisboa

Com Roger Waters na Altice Arena, Lisboa

Rita Carmo

Em Portugal, quando cantou as canções de David Gilmour, recebeu grandes ovações. Isso deve ser emocionante?
Sem dúvida. São canções que aquelas pessoas adoram, tal como adoram a pessoa que as cantava. Na verdade, eu canto… (conta alto até cinco). Canto umas cinco canções e é fixe, porque os fãs têm-me aceitado muito bem. Não se põem a dizer: “Meu, tu não és o David Gilmour!”. E a banda tem uma química inegável, porque eu, o baterista [Joey Waronker] e o baixista [Gus Seyffert] já tocamos juntos para aí desde 2004. Na verdade, o que o Roger fez foi juntar-se a um conjunto de pessoas que já era uma banda.

Vi no seu Instagram que, quando esteve no Brasil, aproveitou para conhecer o Milton Nascimento. Como aconteceu esse encontro?
Sou grande fã dele, então perguntei às pessoas da minha equipa de produção, no Brasil, se seria possível conhecê-lo. E se seria possível ir para estúdio com ele. E assim, levámo-lo a ver o concerto do Roger Waters no Rio de Janeiro, ele passou aquela noite na cidade e depois fomos de carro para casa dele, que é numa cidade mais pequena. Alguns amigos meus de lá levaram um estúdio móvel e gravámos umas coisas: uma canção minha, do “Gentle Spirit”, e duas canções dele, e ficou fantástico! Vai sair como um split: um split Jonathan Wilson/Milton Nascimento. E depois ainda tocámos e jammámos com ele no seu 76º aniversário! Foi mesmo muito especial.

Essa geração de músicos brasileiros lendários parece estar a envelhecer extremamente bem…
Sim, ele ainda canta lindamente! E também conhecemos vários dos tipos brasileiros mais lendários, o que foi extremamente fixe.

Conhece Caetano Veloso?
Claro, sou grande fã! Vi-o recentemente no Primavera [em Barcelona], foi ótimo.

Mais um exemplo de um septuagenário muito ativo…
Pois, as pessoas dessa idade parecem ser o meu público-alvo! (Risos)

Disse numa entrevista que gosta de promover o encontro entre músicos de gerações diferentes, para escapar ao “aborrecimento do indie rock…”
Tal e qual! Prefiro passar tempo com o Milton do que, sei lá, com um tipo como o Brett Dennen [cantor folk americano de 41 anos]! (risos)

O seu álbum já tem quase um ano. Desde então, a relação com as canções mudou? Tem novas favoritas, por exemplo?
Há uma canção que toquei ontem à noite, para a qual até estamos a preparar um vídeo. É a ‘Living With Myself’, a que tem a Lana [del Rey] a cantar. Eu nem ia pôr essa canção no álbum, ia ser um lado B. O disco já estava misturado, e eu estava em Nova Iorque a começar a digressão Us and Them, quando o meu manager me diz: “Meu, mas esta canção é especial, tens de a incluir no álbum”. Misturei-a no meu computador, no quarto de hotel, e mandei-a ao meu engenheiro de som, que a misturou no meu estúdio. E acabou por revelar-se uma das melhores para tocar com a banda. E claro que adoramos tocar a primeira faixa do álbum, ‘Trafalgar Square’. É a canção que costumamos tocar para abrir o concerto, para dar aquele entusiasmo inicial. E é o tipo de canções que eu gostaria de conseguir escrever mais. Canções mais fuzzy, mais à John [Lennon] no “White Album”. À moda do Marc Bolan e dos T-Rex. Parecendo que não, essas canções são muito difíceis de escrever.

Acha que a participação da Lana del Rey na canção lhe trouxe novos fãs?
É provável que sim! Nós não quisemos explorar isso, nem colocámos…

Um “featuring”?
Exatamente! Nem pusemos um “featuring”. Porque às vezes sinto-me ofuscado por aquela coisa de “este disco tem este convidado, e aquele amigo, e o outro…”. Quis evitar isso. Posto isto, a contribuição dela é fantástica!

Em ‘Loving You’, a primeira canção que escreveu para este disco, tem a participação de Laraaji, um cantor pouco conhecido por cá mas que dá toda uma nova vida à melodia…
Sim, ele é um homem cósmico e mágico, que com os seus cânticos conseguiu transformar toda a canção! Estou a pensar juntar outras remisturas da canção, e também um dueto que fiz com a Weyes Blood, que tem uma voz lindíssima – talvez numa edição super deluxe do “Rare Birds”!

Este ano foi tocar ao programa do Conan O’Brien. Nos comentários do Youtube, alguém escreve: “É refrescante ver que alguém ainda toca guitarra elétrica em 2018”. Ouve muitas vezes esse tipo de comentário?
Por vezes! Sinto que é um pouco agridoce… Onde eu percebo que não há o mesmo entusiasmo é nas lojas de guitarras. Dantes, esses sítios estavam cheios de miúdos todos entusiasmados. Hoje já não se vê tanto isso.

Segundo um artigo da Forbes, há cada vez menos miúdos a comprar guitarras. Mas, dentre os que compram, há cada vez mais raparigas. E muitas delas inspiradas pela Taylor Swift, que toca guitarra em palco…
Pois, isso faz sentido! Há uma banda de que gosto, chamada Khruangbin – são uma banda instrumental, funky, de afrobeat misturado com surf music dos anos 60… O gajo [guitarrista, Mark Speer] é novo, deve ter uns 28 anos! É um miúdo, que acho fantástico na Stratocaster. Mas cada vez é mais raro encontrar alguém como o David Gilmour. Será que ainda existem? Tens os ícones rock, como os Foo Fighters, por exemplo, que representam uma marca, dentro do rock and rol. Ou, no que toca aos blues, o Joe Bonamassa… Mas já é uma coisa meio aguada. No que respeita a arte que seja vital, e feita com a guitarra, já não se vê muito.

Há um grande guitarrista que em janeiro lançará um novo disco, o William Tyler… mas toca mais guitarra acústica.
Ah, claro! Ele deu uns concertos connosco, abriu os nossos espetáculos na Costa Oeste [dos Estados Unidos]. É fantástico. Segue o exemplo de [guitarristas] como o John Fahey ou o Reverend Gary Davis. É mesmo muito bom.

Jonathan Wilson

Jonathan Wilson

Ainda pensa em mudar-se para o deserto de Joshua Tree, como nos tinha contado no início deste ano?
Não, já mudei de ideias! Em vez de ir para o deserto, comprei uma casa em Topanga Canyon. É outro dos desfiladeiros mais famosos, na Califórnia, onde já estiveram o Neil Young [que lá gravou “After the Gold Rush”, de 1970] e de onde vem uma banda que eu adoro, os Canned Heat. Topanga: é o meu novo spot!

Deve estar ansioso por chegar a casa e voltar ao estúdio…
É o meu plano! Construir um estúdio e transferir todo o meu equipamento para Topanga Canyon.

Tem trabalhado com o seu “irmão”, Father John Misty?
Infelizmente não, porque passei o ano fora de casa. Mas o Josh gosta de trabalhar, e sei que, enquanto estive para fora, já foi ao meu estúdio umas cinco ou seis vezes. Quando regressar, vamos voltar a trabalhar.

Está mais desafogado financeiramente, agora? Li numa entrevista que, com a digressão do último álbum, perdeu 100 mil dólares…
(Risos) É verdade. É por isso que ainda estou em digressão. Mas sem dúvida que, desta vez, tivemos melhores resultados. Mas isto é um investimento a longo plano. Tens de ir avaliando se está a correr bem por coisas como esta conversa, pelo sucesso do disco, pela capacidade financeira que tens – ou não – de voltar a certo sítio para tocares com a tua banda em festivais…

Quando esteve em Lisboa este ano, conseguiu ter tempo para passear?
Sim, achei Lisboa uma cidade fantástica. Já estive a ver uma propriedade para comprar, na net…

Em maio, disse que os seus pais o iriam ver a tocar no Hyde Park, em Londres, com o Roger Waters. Chegaram a ir?
Sim, da Carolina do Norte para Londres, e aproveitaram que estavam em Inglaterra e também foram a Liverpool, onde o meu pai, como grande fã dos Beatles que é, fez uma daquelas tours! Foi ao Cavern Club e tudo. (risos)

Publicado originalmente originalmente na revista anuário BLITZ 2018. Jonathan Wilson atua no Vodafone Paredes de Coura a 16 de agosto.