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Wilko Johnson

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Teve os dias contados, fez uma digressão de despedida… mas afinal a morte não veio. A incrível história de Wilko Johnson

Olhando para os últimos exames, o médico disse-lhe: “não podemos fazer nada, o seu cancro é inoperável, restam-lhe 8 a 9 meses de vida”. Saiu do hospital sem verter uma lágrima, abandonou o seu papel em “Guerra dos Tronos”, gravou um álbum, fez uma digressão de despedida e… não morreu. Vamos vê-lo em Lisboa na próxima terça-feira, quase 40 anos depois. Esta é a sua história

Quando pisar o palco do Centro Cultural de Belém, na próxima terça-feira, 12 de fevereiro, Wilko Johnson protagonizará um dos mais improváveis e inesperados regressos ao nosso país. O histórico músico dos Dr. Feelgood teve, muito literalmente, os dias contados, quando, em 2013, lhe foi diagnosticado cancro no pâncreas. A notícia fez correr muita tinta na imprensa generalista britânica e os seus ecos chegaram, muito naturalmente, ao nosso país. Membro fundador dos Dr. Feelgood, Wilko Johnson, no entanto, já não integrava essa histórica banda aquando da sua primeira passagem por Lisboa, em 1979, para duas noites de concertos no Dramático de Cascais. Viria, porém, no ano seguinte, com os seus Solid Senders, ao pavilhão d’Os Belenenses, concerto que, aliás, contou com primeira parte dos então principiantes Xutos & Pontapés.

O veterano músico de 71 anos não disfarça um mais do que justificado deslumbramento perante o que encara como uma espécie de segunda oportunidade na vida. Em entrevista à BLITZ, gravada no mesmo Centro Cultural de Belém que agora o receberá, o vocalista e guitarrista desfila o novelo de uma história que chegou a ter o seu final dramaticamente anunciado.

O músico, que foi objecto de um aplaudido documentário que recebeu o título "The Ecstasy of Wilko Johnson", contava a Alexis Petridis do Guardian, antecipando a chegada desse filme às salas de cinema britânicas em 2015, que lhe estava a custar admitir que afinal tinha um futuro: “Já não consigo aprender um novo ofício. A única coisa que posso mesmo planear continuar a fazer é tocar ao vivo”, prometia ele há quatro anos. “Aconteceram coisas muito estranhas na minha velhice”, confirma-nos ele, referindo-se também ao seu papel nas duas primeiras temporadas de "Guerra dos Tronos". “Poderia até ter continuado, se não tivesse aparecido o cancro”, explica-nos, justificando porque não foi adiante a sua misteriosa encarnação de um carrasco mudo, personagem que assentou totalmente no seu profundo carisma. Johnson pode não ter tido uma longa carreira como ator numa das mais icónicas séries da actualidade, mas cá está ele, em Portugal, pronto para cumprir o seu desígnio rock and roll, quase quatro décadas depois do seu último concerto por cá.

Embora Wilko não goze do estatuto de figura de proa que é atribuído a gente como Paul McCartney ou Mick Jagger, os seus modelos no arranque de carreira, a verdade é que é elo fundamental numa história elétrica muito particular que une as rebeldes descargas de adrenalina de gente como os Rolling Stones, Kinks ou Yardbirds às explosões de inconformismo que, na segunda metade dos anos 70 do século passado, marcaram o arranque de carreira de bandas como os Sex Pistols, The Clash ou Buzzcocks. Naquele que é provavelmente o mais importante livro sobre o punk britânico alguma vez publicado, "England’s Dreaming", John Savage descreve os Dr. Feelgood como “a banda que electrificou a metrópole com concertos cortantes como navalhas” e que transformou o R&B numa “malha ameaçadora”. “Eles não eram”, garantia Savage, “apenas algo para acompanhar a vossa cerveja, antes algo de realmente ameaçador: Lee Brilleaux e Wilko Johnson, o par que liderava o grupo, pareciam vilões saídos de 'The Sweeney' [icónica série policial britânica dos anos 70]”

“Em 1960 eu tinha 13 anos”, começa por nos contar Wilko Johnson, “e nesse tempo, como acontecia noutros lugares, a Inglaterra era apenas uma pobre imitação da América, com cópias de segunda do Elvis Presley. Mas em meados da década, o aparecimento dos Beatles e sobretudo dos Rolling Stones, que entendiam bem de que eram feitos os blues, inspirou-me a pegar numa guitarra e a estudar os blues, os mestres de Chicago. Essa tornou-se a minha música favorita”. A Chess, explica o veterano, “foi uma revelação”, apontando para a histórica editora de Chicago de músicos como Muddy Waters ou Howlin’ Wolf e Chuck Berry como a fonte em que mais saciou a sua sede: “a música era tão poderosa, as capacidades técnicas daqueles músicos tão evidentes, que fazia toda a pop a que estávamos habituados ao crescer soar trivial”. “A partir desse momento”, recorda Wilko, “fiquei a saber que o meu coração estava em Chicago”.

A geração nascida depois de 1945 cresceu, justificadamente, com algum ressentimento, só aumentado com a guerra do Vietname, a oposição ao apartheid, as pressões políticas e o futuro pouco risonho de meados dos anos 70, admite Wilko. “Pegar na música de gente oprimida do lado de lá do oceano era uma forma de nos afirmarmos. E para lá de motivações políticas, a música era incrível. Até poderia ter vindo do Luxemburgo”.

Depois de viajar pela Índia, “como um hippie”, como nos conta, tendo até chegado a passar uma temporada em Goa onde recuperou, num hospital construído por portugueses, de uma hepatite, Wilko Johnson regressou a Inglaterra, ingressou no sistema com um emprego diurno como professor, mas cumpriu o seu papel de jovem rebelde alinhando-se também nas barricadas rock ao integrar os Dr. Feelgood, banda com que depois gravou, entre 1975 e 1977, quatro importantes álbuns ("Down By The Jetty", "Malpractice", "Stupidity" e "Sneakin’ Suspicion"). A ferocidade e o minimalismo descarnado de temas como 'Back In The Night', 'Sneakin’ Suspicion' ou 'Roxette' foram reconhecidos pelo então nascente movimento punk que percebeu que o que Johnson, Brilleaux e companhia estavam efectivamente a fazer era escancarar as portas dos clubes para que grupos como os Eddie & The Hot Rods, Stranglers ou os 101’ers de Joe Strummer pudessem começar a mostrar o que valiam.

“Eu nunca quis ser um músico, na verdade. Os Dr. Feelgood eram apenas uma banda local que tocava para se divertir”, desvaloriza, com sentida modéstia, Johnson. “E na verdade estávamos completamente desalinhados com a moda dos Yes e bandas do género. Éramos amadores, eu era professor, o Lee Brilleaux era funcionário no escritório de um solicitador, e tocávamos de vez em quando. Nesse tempo apurámos o nosso visual e o concerto e depois começámos a ir tocar a Londres e o nosso impacto ficou a dever-se ao facto de soarmos diferentes. O público que nos aplaudia em 1975 era o mesmo que um ano depois estava a formar as bandas punk. Penso que nos pode ser atribuído o pontapé de saída à ideia de que se podia criar excitação com equipamento muito simples, desde que se empregasse a energia certa. Foi isso que as bandas punk aprenderam connosco”

A carga de compromissos que o sucesso em Londres trouxe aos Dr. Feelgood, incluindo a pressão de tocar na América, cavou um fosso entre Wilko Johnson e Lee Brilleaux – “não gostávamos um do outro, odiávamo-nos mesmo e nem sei porquê” – que acabou por ditar a saída do guitarrista. Durante as gravações de "Sneakin’ Suspicion", Wilko encontrou o caminho da porta e fez-se à estrada. E apesar de todos os anos volvidos, à distância confortável de 2019, o veterano não esconde que ainda reserva uma certa mágoa para esse episódio: “ainda tínhamos coisas para fazer”, desabafa.

Os Solid Senders, banda que trouxe a Portugal em 1980, foram o capítulo seguinte da sua atribulada história. Gravou um álbum homónimo com o grupo antes de ingressar temporariamente na banda de de Ian Dury, os Blockheads onde acabaria por recrutar para a sua banda aquele que diz ser o seu baixista favorito, Norman Watt-Roy, que ainda hoje o acompanha.

“Senti-me perdido logo depois de sair dos Dr. Feelgood, não é fácil encontrar músicos daquele calibre e a banda que criei logo depois tinha gente boa, mas não era a mesma coisa”, concede o músico, referindo-se aos Solid Senders. “Quando estávamos a gravar o disco dos Solid Senders, o Vic Maile, que tinha sido o produtor do primeiro álbum dos Dr. Feelgood, aproveitou um momento em que os rapazes saíram e disse-me que achava que eles não eram a banda certa para mim... ‘Tira um ano de folga, vais ver que a banda certa acaba por aparecer’, disse-me ele”. Mas Johnson não aceitou as palavras do produtor e continuou a tocar com os Solid Senders algum tempo – “sou um músico de palco, precisava de tocar” – até que Ian Dury o desafiou para fazer um single com os Blockheads. “Poder tocar com o Norman, que eu adorava como baixista, era uma oportunidade irrecusável. E depois disso acabei por tocar com os Blockheads por um par de anos”.

Com "Ice on the Motorway", de 1981, Wilko Johnson começou a sua mais duradoura aventura à frente da sua própria Wilko Johnson Band, com o fiel Norman Watt-Roy ao seu lado. Gravou vários álbuns que sustentaram apresentações por todo o mundo até que, no arranque de 2013, fez saber ao mundo que lhe tinha sido diagnosticada uma doença terminal, cancro no pâncreas.

“O que poderá pensar alguém que vai ao médico e recebe uma sentença de morte? Quando o médico me falou na massa que eu tinha no pâncreas, no cancro, eu tinha o meu filho ao lado e senti-me estranhamente calmo, mesmo depois de me terem dito que não era possível operar-me e que eu só teria uns 8 meses de vida. Olhei para a janela e o dia estava bonito, vi as árvores, o céu, e tudo parecia vibrar. Talvez, pensei, isto fosse a forma como eu estava a lidar com o choque, mas a verdade é que depois entrei num dos mais fantásticos anos da minha vida: vou morrer, mas estou em estúdio com o Roger Daltrey e tudo parece um sonho”.

O músico veterano tinha-se cruzado um par de anos antes com o histórico vocalista dos The Who e, em conversa, ambos perceberam ter a mesma paixão por Johnny Kid & The Pirates, pioneiro inglês do rock. A descoberta dessa paixão partilhada levou-os a planear uma colaboração que acabou por se tornar quase uma espécie de despedida, já que as gravações aconteceram após o preocupante diagnóstico.

“Gravei com o Roger naquele contexto particular em que estava convencido que ia morrer”, prossegue, num tom de voz perfeitamente normal. “Fizemos o disco rapidamente, em 7 ou 8 dias, e estava a soar muito bem. Eu via o disco como uma espécie de memorial, mas a editora estava contente com o resultado e propôs-nos que o disco saísse com selo da Chess Records. Para mim foi incrível: adorava a editora quando era miúdo e se algum dia alguém me dissesse que eu haveria de ter um disco na Chess, não acreditaria. Foi uma homenagem bonita”, admite o músico, dando a entender que a sugestão serviu sobretudo como uma espécie de “prenda de despedida”.

Johnson chegou a pensar que não viveria o suficiente para assistir à edição de "Going Back Home", o álbum que gravou com Daltrey e que se tornou o seu maior sucesso de vendas desde os tempos dos Dr. Feelgood, mas num dos concertos que assinou depois, e que julgava que poderia ser dos últimos, um fã, médico, sugeriu-lhe que consultasse um especialista num hospital de Cambridge que decidiu operá-lo, dando-lhe, no entanto, apenas 15 por cento de chances de sobrevivência. Contra todas as possibilidades, Johnson superou os obstáculos que a vida pôs diante de si. Mas, isso não lhe retirou nenhum pragmatismo: não foi o rock and roll que o salvou, foram os médicos.

“Depois das operações, muitas vezes quando me entrevistavam, perguntavam-me se teria sido a minha paixão pela música que me deu forças para sobreviver, mas eu respondi sempre que fui salvo pelas pessoas no hospital de Addenbrooke e pelo senhor Huguet, o cirurgião que me operou”, sublinha. “O doutor nem era grande fã de rock, mas depois começou a apreciar mais e um dia até apareceu em Dublin, num concerto meu, com blusão de cabedal e tudo. Até comprou bilhete, vejam lá... Tive que lhe explicar que ele estará para sempre na minha guest list”.

Vídeos: Paula Fellin