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Sharon Van Etten

Mãe, estudante de Psicologia, atriz de uma intrigante série da Netflix e uma grande, grande cantora. Sharon Van Etten contou-nos a sua vida

Com disco novo acabado de sair, a artista norte-americana falou com a BLITZ sobre quase todos os aspetos da sua nova vida. Uma conversa tão lúcida como profunda com uma das cantoras mais valentes da sua geração, que em julho regressa a Portugal

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Tem uma das vozes mais carismáticas da última década e acaba de lançar “Remind Me Tomorrow”, álbum que põe termo a um silêncio de quase cinco anos. Desde que lançou “Are We There”, contudo, Sharon Van Etten não tem estado parada: ao telefone de Los Angeles, contou à BLITZ que, além de ter sido mãe pela primeira vez, voltou à faculdade para estudar Psicologia e estreou-se como atriz, participando na série da Netflix, “The OA”, e também em “Twin Peaks”. Conversa com a mulher que deseja tornar-se terapeuta mas continua a encontrar na música o maior exorcismo.

O seu novo disco tem uma sonoridade bastante diferente dos anteriores. Já partiu para as gravações com essa intenção ou foram as canções a ditar o caminho?
(Suspiro) Eu nem sabia se queria fazer um disco novo. Não tinha a certeza. Em 2015 fiz uma pausa nos concertos, porque quis concentrar-me na minha vida doméstica e viver um pouco. Queria aproveitar que estava em Nova Iorque e dedicar-me à minha relação com o meu parceiro, com a minha família, com os meus amigos. E entretanto surgiram vários projetos excitantes: voltei à escola, comecei a representar, fiz uma banda-sonora. No meio disso tudo, ainda arranjei tempo para escrever para mim. Quando estava a trabalhar na música para o filme “Strange Weather”, realizado pela Katherine Dieckmann, escrevi bastante à guitarra, porque ela deu-me como referência a banda-sonora do Ry Cooder para o “Paris, Texas”. Estava a tentar escrever naquele registo e, sempre que tinha bloqueio de escritor, pousava a guitarra e pegava num gravador e noutro instrumento. Na altura estava a partilhar um espaço de trabalho com o ator Michael Cera, que tinha lá uns teclados. Ele tocava no meu piano e na minha bateria e eu tocava no sintetizador dele. Fazia aquilo só para desanuviar, e depois voltava à guitarra de cabeça fresca e já conseguia escrever a banda-sonora. Mas no meio disso tudo acabei por escrever uma data de coisas, que eram muito diferentes dos meus discos anteriores.

Uma das canções mais empolgantes e imediatas é 'Seventeen'. Lembra-se como escreveu essa, em particular?
Sim! Fiz um intervalo do estúdio e andava a caminhar pela cidade quando passei por um sítio onde costumava ir muito e vi que tinha mudado muito. Tinha fechado e reaberto como outra coisa qualquer. Estavam lá uns miúdos mais novos... E lembro-me que me ri de mim mesma, porque dei por mim a resmungar por as coisas estarem a mudar, mas quando me mudei para Nova Iorque já elas estavam a mudar. Percebi então que foi a primeira vez que vivi tempo suficiente num sítio para reparar nessas mudanças. E quando pensei nisso desse ângulo até achei reconfortante, mas ao mesmo tempo assustador. (risos) Então escrevi uma demo, num instante. Ia ter um “songwriter's day” com a songwriter Kate Davis, e essas coisas podem ser um pouco stressantes: é como um encontro às cegas. Espera-se que façamos magia juntos, mas nunca sabemos o que vai acontecer. Na noite anterior, peguei na demo que tinha feito, com uns versos ao calhas: só tinha os refrões. Enviei-lhe a demo e disse-lhe: sei a história tenho na minha cabeça, mas quero que amanhã venhas ao estúdio com a tua perspetiva, para eu poder acabar de escrever a canção contigo. Pegámos naquela ideia inicial, eu e uma songwriter mais jovem, e juntas construímos esta versão final da 'Seventeen'.

O começo da primeira canção do disco, 'I Told You Everything', é muito semelhante ao da primeira canção do seu disco anterior, 'Afraid of Nothing' (de 2014). Foi propositado?
É engraçado, porque não me tinha apercebido das semelhanças! Mas escolhi a canção 'I Told You Everything' para primeira canção por ser a mais próxima de um som familiar. Aquela que eu podia apresentar aos meus fãs, para ir antecipando as mudanças que vinham aí. Não quis assustar os meus fãs logo no começo. (risos) Mas é engraçado, porque ambas as canções têm um sentimento semelhante: o de deixar alguém entrar na nossa vida. Queria que as pessoas ouvissem a minha voz, as minhas palavras, antes de a produção se começar a revelar.

Durante o tempo em que não lançou discos, voltou à faculdade, para estudar Psicologia. Como é estudar em adulto, por nossa vontade e não por sermos obrigados a fazê-lo?
Por um lado é muito bom, porque vais às aulas que queres ir, por tua vontade. E estou a aprender muito. Sinto-me mais motivada e estou mais disciplinada do que quando era adolescente. Por outro lado, acaba por ser mais stressante, porque tens muito mais coisas a acontecer na tua vida: tens uma família, uma carreira. Eu tenho responsabilidades domésticas, pelo que estudar tornou-se muito mais intenso. Tinha pouco tempo para descontrair e tinha de ler nos momentos em que conseguia, o que não era fácil, com o pequenino a correr por ali. (risos)

Neste “intervalo” também foi mãe pela primeira vez. Como está o seu filho?
Está bem! Super feliz, saudável, é incrível. Obrigada por perguntares.

Revelou a sua gravidez com uma foto muito bonita, já de fim de tempo, no Instagram...
Essa foto foi tirada por um grande amigo meu, que tem feito fotos para os meus discos. É alguém que me viu crescer como pessoa e como música. Que tenha podido tirar-me uma foto tão íntima significou muito para mim.

Instagram

Há cinco anos, dizia-nos numa entrevista que gostaria de ser mãe, mas que era mais complicado para uma mulher conciliar família e carreira. “Não podes simplesmente amamentar e conduzir a carrinha”, dizia então. Como tem lidado com esta nova fase na sua vida?
(Suspiro) Levando um dia de cada vez e tendo um parceiro incrível. Incentivamo-nos mutuamente e estamos sempre a falar... Acredito que, nas nossas vidas, as coisas vão estar sempre a mudar e nós havemos de nos adaptar e fazer ajustes. Ainda estamos a tentar perceber como é que vamos fazer quando eu entrar em digressão: provavelmente só poderei levar o bebé para alguns concertos. Inicialmente pensei que ele podia andar connosco durante toda a digressão mas quando estava em aulas, no outono passado, ele começou a ir à creche, e gosta tanto! Já fez amigos, por isso cheguei à conclusão de que talvez fosse mais egoísta levá-lo comigo em digressão. Porque ele também precisa de estar com outros miúdos.

Na faculdade, estuda Psicologia. Acha que é importante darmos mais atenção à saúde mental, até entre os músicos que passam muito tempo na estrada?
Penso que é muito importante tratarmos da nossa saúde mental e falarmos das nossas emoções. E admitir que não faz mal termos emoções. Muitas pessoas não se sentem confortáveis a falar do que sentem, porque foram educadas assim: simplesmente não se fala disso. Parte do problema passa por guardar tudo cá dentro.
Quer fales com uma pessoa ou encontres outra forma de partilhar o que sentes, isso ajuda-nos a ultrapassar esse obstáculo. A mim ajudou, com certeza. Encontrar a música foi a coisa mais importante da minha vida, criativamente. E espero tornar-me terapeuta. Adorava conseguir ajudar pessoas, lá mais para a frente.

É importante falarmos com alguém que seja profissional, além dos nossos amigos...
É tão importante! E sei que não é para toda a gente. Mas [quando tens um terapeuta], é uma relação que desenvolves com outra pessoa, partilhando uma parte de ti. Tens de estar preparado para isso e tens de ter vontade. Já tive alguns terapeutas que me ajudaram em alturas de transição, quando precisei de ajuda, e contar com o apoio de uma pessoa que não fazia parte da minha vida foi transformador. Ajudou-me a ver padrões na minha vida que nunca ninguém me tinha mostrado antes.

Também se estreou como atriz, na série “The OA”. Estava muita nervosa quando aceitou o convite?
Inicialmente até estive para recusar, porque tinha feito uma pausa nos concertos para me dedicar à vida familiar e à escola. Foi uma pausa muito dramática, que fizera apenas há duas semanas quando me convidaram para ir a uma audição. Senti que, se aceitasse o papel, seria uma impostora. Mas tenho um parceiro incrível, que me encorajou a aceitar o papel, porque – penso que foram estas as suas palavras –, “é uma aventura”. E tinha razão. Ainda bem que aceitei. Estava tão nervosa, mas foram eles que me procuraram, porque queriam uma cantora e o diretor de casting viu-me a abrir para o Nick Cave, em 2015, e quis que eu fizesse de Rachel na série “The OA” – achou que eu tinha o mood adequado. Ainda tenho muito a aprender. É algo que nunca pensei vir a fazer!

Participa em séries, foi ao programa de Jimmy Kimmel, teve uma grande entrevista no New York Times... sente-se confortável com esta fase de grande visibilidade na sua carreira?
Estou tão nervosa! Confortável nunca estou. (risos) Fico contente por saber que o disco vai chegar a mais pessoas, mas também nervosa.

No programa do Jimmy Kimmel parecia muito à-vontade...

(Risos) Isso foi do fato vermelho!

É verdade que também experimentou a stand up comedy?
Sim, a minha babysitter encorajou-me a fazer stand up comedy pela primeira vez. Embora eu ache que não sou a melhor comediante, não me parece que possa vir a fazer carreira disso. Mas interesso-me muito pelo processo de escrita e gostava de explorar isso, no futuro.

Não é uma atividade stressante para alguém que parece um pouco tímida?
A comédia é certamente a mais stressante das formas de entretenimento. Tenho um grande respeito pelos comediantes. Com as tuas canções, sabes o que estás a fazer: as pessoas podem relacionar-se com elas à sua maneira, interpretá-las. Na comédia, estás ali sozinha e há muita coisa que passa pela vibe das pessoas no público. Com a música, as pessoas estão ali para te ver; na comédia, muitas das vezes ninguém sabe quem tu és. E ou tem piada ou não, não há meio termo.

No ano passado entrevistámos a Lucy Dacus, cuja voz me faz lembrar a sua. Agora, vão cantar juntas. Como descobriu a sua música?
Foi a minha amiga Julien Baker que me fez interessar pela música da Lucy Dacus. Acho que é muito inspirador que as jovens songwriters se apoiem umas às outras; temos de incentivar a comunidade e isso é bom para a confiança e a escrita de todas. É muito complicado [andar em digressão] e estar sempre longe de casa. Se sentires que há um espírito de comunidade, mesmo quando estás a viajar, isso ajuda-te. Tenho amigos que me vão apresentando música nova e estou contente por ir tocar com a Lucy Dacus, espero poder falar mais com ela!

Em julho regressa a Portugal, para um concerto no NOS Alive. Está entusiasmada?
Sim, divertimo-nos tanto em Portugal, da última vez que aí estivemos! Os concertos tiveram tanta paixão, energia e vida. Divertimo-nos muito a explorar as cidades, espero que desta vez tenhamos mais tempo para descobrir mais coisas.

“Remind Me Tomorrow” é o quinto álbum de Sharon Van Etten, que se estreou em 2009 com “Because I Was In Love”

“Remind Me Tomorrow” é o quinto álbum de Sharon Van Etten, que se estreou em 2009 com “Because I Was In Love”

É uma das cantoras mais intensas da sua geração. Para si, cantar é um prazer?
Cantar faz-me sempre sentir melhor. É a minha terapia. Independentemente do que estiver a viver, canto, e é sempre muito animador. Leva-me para outro lado. Sinto que tenho a sorte de ter esse superpoder. (risos)

Um prazer físico, mesmo?

Sem dúvida. Não há nada assim. Quando canto, sinto-o por todo o corpo, como se estivesse a exorcizar alguma coisa, sempre.

Para terminar, enquanto mullher no mundo da música e agora da televisão, qual a sua opinião sobre o movimento Me Too?
Fico feliz por as mulheres sentirem coragem de falar e contar as suas histórias. Creio que, agora, muitas mulheres na música, no cinema e espero que noutras áreas sentem que têm a confiança e o apoio necessário. Tenho muita sorte, porque no meu meio laboral, sobretudo na música, nunca tive dessas experiências. Mas conheço músicas que não tiveram a mesma sorte e espero que encontrem a coragem para falar, quando quiserem fazê-lo. Eu tenho tido a sorte de estar rodeada por pessoas fantásticas que me vêm apoiando ao longo dos anos. Espero que as pessoas encontrem a paz e a confiança necessária para falarem. E que sejam apoiadas.

“Remind Me Tomorrow”, o novo disco de Sharon Van Etten, está nas lojas. A norte-americana toca no NOS Alive a 11 de julho.