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Kurt Cobain e Peter Shelley, Cascais, 1994

“Não percebemos que o Kurt iria acabar por se matar”. Como os Buzzcocks recordam a digressão dos Nirvana que começou em Portugal, há 25 anos

A banda britânica foi convidada por Kurt Cobain para aquela que viria a ser a última digressão da banda de Seattle. À BLITZ, Steve Diggle, guitarrista dos Buzzcocks, lembra os últimos tempos do líder dos Nirvana em palco - e fora dele. Mostramos também um vídeo de 'backstage' em Cascais

A 6 de fevereiro de 1994, os Nirvana pisaram pela primeira e última vez um palco português. O concerto da banda, que vinha apresentar as canções do novo álbum, "In Utero", editado cinco meses antes, realizou-se num Pavilhão Dramático de Cascais completamente esgotado.

O concerto em Portugal marcava o início da digressão europeia de Kurt Cobain, Dave Grohl e Krist Novoselic, que trouxeram consigo o guitarrista Pat Smear (ex-Germs, futuro Foo Fighter). Dada a dimensão que ganharia na memória de uma geração em Portugal (Cobain faleceria dois meses depois, a 5 de abril), talvez menos se recordem que os históricos do punk rock Buzzcocks - que Cobain reconhecidamente apreciava - fizeram a primeira parte.

À BLITZ, Steve Diggle, guitarrista dos Buzzcocks, recorda o primeiro contacto com Cobain, as incidências da digressão europeia que faria com os Nirvana - Portugal foi a primeira paragem - e o ânimo de vocalista da banda de Seattle ao longo da mesma.

"Assim que saímos de palco de um concerto nos Estados Unidos, no final de 1993, não é que tínhamos o Kurt Cobain no nosso backstage? Era a digressão de “Trade Test Transmissions”, o nosso álbum de regresso, e eu estava a rebentar com televisores todas as noites. Ele veio ter comigo e disse-me: 'adoro a forma como rebentas com aparelhos de televisão'. Falámos de choques elétricos e de como espatifar material ligado à corrente e ele perguntou-me se eu não queria continuar a fazê-lo no ano seguinte", recorda.

"Mal começou a digressão na Europa, em Portugal, estive todos os dias com ele a conviver no autocarro dos Nirvana. Saíamos, conversávamos, snifávamos cocaína. Ele confessou-me que adorava a minha voz em ‘Harmony in My Head’, uma canção dos Buzzcocks de minha autoria, e eu disse-lhe que tinha fumado 20 cigarros para ficar com aquela voz à John Lennon no ‘Twist and Shout’. Aquela vocalização não é muito diferente daquilo que ele fez em 'Nevermind'", recorda.

"Nada me dizia que ele ia acabar da maneira como acabou. Eu já tinha visto muitas digressões e sabia como era: vais ter sempre altos e baixos. Havia dias em que ele falava muito, outros em que estava sozinho consigo mesmo. Ele chegou a falar de armas e coisas do género, mas não percebi que no fim de contas ia acabar a disparar contra si próprio. Nunca se sabe o que passa pela cabeça das pessoas", conclui.

Um vídeo revelado em 2010 mostra o vocalista dos Nirvana à conversa no 'backstage' com Pete Shelley, vocalista e guitarrista dos Buzzcocks, falecido no final do ano passado. Entre tragos de cigarro e de champanhe, o ambiente é amigável e descontraído.

Há um registo vídeo do concerto dos Buzzcocks na primeira parte dos Nirvana em Portugal, 37 minutos que pode recordar aqui: