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Skunk Anansie

Skunk Anansie, 25 anos depois. Uma história de superação, horas de sono perdidas e uma vocalista incendiária

Em entrevista à BLITZ, Skin e Ace, vocalista e guitarrista da banda britânica, falaram sobre as dificuldades dos primeiros tempos, as recordações que guardam da participação num filme de culto dos anos 90 e a relação que criaram com o público português

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Apresentaram-se ao mundo em meados dos anos 90 e em pouco tempo tornaram-se uma das bandas rock europeias de maior sucesso, muito por culpa do carisma e energia da vocalista, Skin, e de canções tão orelhudas quanto ‘Hedonism (Just Because You Feel Good)’, ‘Charlie Big Potato’ ou ‘Secretly’. No virar do milénio, os Skunk Anansie afastaram-se uns dos outros, dedicando-se, ao longo de oito anos, a carreiras paralelas, mas não resistiram à vontade de voltar a fazer música juntos e, no final de 2008, anunciaram o regresso ao ativo.

Onze anos, muitos concertos e três álbuns de originais depois, o quarteto londrino edita “[email protected]”, um duplo álbum ao vivo – o primeiro, se não contarmos com um registo acústico editado em 2013 – no qual tornam a mostrar o poder das suas atuações e passam em revista o bem-sucedido percurso de 25 anos. Numa conversa longa e desempoeirada com a BLITZ, Skin e o guitarrista Ace falaram sobre os obstáculos que enfrentaram, no início, por terem uma líder negra e queer, o facto de, agora, serem eles quem controla a sua carreira, a adaptação à era digital, a relação especial que criaram com os fãs portugueses e as dificuldades que têm em manter-se à tona no mercado britânico.

25 anos depois, não se sentem cansados de andar na estrada?
Skin – Não é cansativo estar em palco, é cansativo estar fora dele!
Ace – Para ser sincero, é algo que simplesmente faz parte de nós. Não sinto que seja particularmente cansativo andar na estrada. Tudo depende do que queres… mas há tantas tentações para ficares acordado a noite toda a divertires-te que pode ser cansativo. Se quiseres, podes ir para a cama logo a seguir aos concertos, todas as noites, e dormir o dia todo.
Skin – Que é o que eu faço! Eu acho que é cansativo porque dormir no autocarro de digressão não é o mesmo que dormir na tua própria cama todas as noites. O autocarro está em movimento e há pessoas a fazer barulho, portanto essa falta de sono, numa digressão, acaba por te deixar exausto. Li um livro fantástico sobre a importância de dormir. Se não dormires como deve ser envelheces mais rapidamente... Pode ser muito cansativo, mas assim que entras em palco e sentes o público, aquela vibração, tem o efeito oposto: ficas cheio de energia.

Tornou-se uma espécie de vício, tocar ao vivo?
Ace – Sim!
Skin – Acho que podes ficar viciado… mas não usaria essa palavra. É algo que gostamos muito de fazer. Para mim, é importante fazer concertos porque permite-me gostar da minha vida. É a razão pela qual quis estar numa banda. E é por isso que penso que é uma necessidade e que adoro.

Qual foi a mudança mais drástica na forma como os Skunk Anansie funcionam enquanto banda, ao longo do tempo?
Skin – A Internet alterou completamente a forma como trabalhamos. Fez com que toda a indústria mudasse. Deu-nos a capacidade de trabalhar de forma remota, porque podemos enviar peças diferentes de música uns aos outros. Mas a forma como escrevemos canções não se alterou, de todo. Somos nós os quatro numa sala a mandar ideias para cima da mesa, a tocar ao vivo e a fazer experiências. A forma como criamos não se alterou, mas à parte disso tudo mudou.

Aqueles oito anos em que estiveram separados ensinaram-vos algo sobre a banda que não sabiam antes?
Skin – Aquilo que aprendemos sobre nós foi que basicamente trabalhamos melhor juntos. Somos mais fortes juntos, não?
Ace – Acho que desenvolvemos algumas boas competências. Durante esse tempo, andámos a fazer uma série de coisas diferentes e trouxemos todo esse novo conhecimento para a banda. Tocávamos melhor, sabíamos produzir melhor, escrevíamos melhores canções, até uma forma melhor de nos apresentarmos no mercado. Todos nós fomos fazer coisas ligadas à música, portanto levámos toda essa nova bagagem para a banda.
Skin – Tornámo-nos todos melhores na nossa arte. Eu tornei-me uma melhor escritora de canções, uma melhor cantora. Mesmo quando não estávamos a tocar juntos, continuávamos a tocar com outras pessoas e mantivemo-nos na indústria, portanto ainda estávamos a desenvolver as nossas capacidades. Quando voltámos aos Skunk Anansie já estávamos noutro patamar.

A forma como preparam os concertos hoje é muito diferente dos anos 90? Dão importância àquilo que podem levar de novo para os palcos?
Skin – Isso foi sempre uma grande questão, à qual gostamos muito de responder, a de desenvolver e trabalhar o aspeto visual de uma digressão. Somos uma banda que adora tecnologia, gadgets e coisas novas mas, ao mesmo tempo, o rock é um formato musical da velha guarda portanto trata-se de encontrar um equilíbrio entre o facto de já termos 25 anos de experiência e utilizarmos alguma nova tecnologia. É nisso que estamos a pensar neste momento. Mas é uma longa conversa… Essa é a parte divertida: quando pensas e decides aquilo que vais fazer na digressão.

Os concertos dos Muse, por exemplo, estão hoje mais perto dos espetáculos de música pop… Sentem que as bandas rock tiveram de elevar a fasquia?
Ace – Na verdade, acho que foram as bandas rock que deram início a isso. Se pensarmos bem, antes de os artistas pop fazerem isso, era nos concertos rock que havia coisas a descer do teto e adereços estranhos, coisas insufláveis… Os Rolling Stones e os AC/DC, foram eles que deram início a esses grandes espetáculos. Depois, toda a gente começou a usar grandes ecrãs porque era uma coisa nova… Os Muse tiraram ali algumas lições com os U2, não foi? Pegaram nesse conceito e transpuseram-no para o tipo de concerto deles.
Skin – Com essas bandas e artistas realmente gigantes, há tanto dinheiro envolvido que querem sempre tentar fazer melhor do que os outros. “Se aqueles tipos fizeram aquilo, nós vamos fazer isto”. Seja o Kanye West a roubar ideias à Dua Lipa ou a Dua Lipa a roubar-nos ideias a nós. O mais importante é a música e o espetáculo ao vivo e penso que é mau quando a tecnologia e essa vontade de tentar fazer melhor do que os outros tomam conta de tudo, fazendo com que pares de ser simplesmente uma banda incrível ao vivo. Desta vez, vamos concentrar-nos mesmo em sermos uma ótima banda em palco e ter alguns truques teatrais muito fixes… Mas esses truques teatrais estão apenas ali para engrandecer a banda. A banda está primeiro e a tecnologia em segundo: tudo aquilo só lá está para que possamos ser a melhor banda ao vivo do planeta.

Os Skunk Anansie nunca encaixaram bem numa qualquer gaveta e a imprensa sempre teve alguma dificuldade com isso. Alguma vez foi um problema para vocês?
Skin – Nunca nos analisámos demasiado. Com os Skunk Anansie, aconteceu um pouco como com os Oasis simplesmente funcionou. Foi algo que sempre funcionou e tentámos não nos preocupar muito com isso. Se a criatividade e a química estão lá, por que razão estragar isso? Foi sempre essa a nossa filosofia. Compreendemo-nos bem a nós próprios, somos verdadeiros connosco e, na verdade, nunca tivemos de nos preocupar em sermos uma boa banda ao vivo ou esse tipo de coisas. No que diz respeito a meterem-nos numa gaveta… Não há uma que nos sirva. Não há outros Skunk Anansie no mundo, não há outra banda no mundo como nós. Portanto, se naturalmente não estás numa gaveta por que razão haverias de te enfiar numa? Vamos apenas ser os Skunk Anansie. Nunca tivemos de nos preocupar com isso.
Ace – O teu poder está em seres quem és. No final de contas, o teu poder está naquilo que te torna único, que te faz seres quem és. Fizemos sempre o melhor que podíamos dentro daquilo que somos e acho que é por isso que conseguimos sobreviver àquela questão de todas as pessoas se copiarem umas às outras.

Quando falámos pela primeira vez, há quase dez anos, disse-me que tinham finalmente controlo sobre a banda e o dinheiro que faziam. A vossa segunda vida é mais rentável do que a primeira?
Skin – Continuamos a ter 100% de controlo sobre a banda… e é mais rentável?
Ace – Este álbum marca a entrada numa nova era. É um passo à frente no que diz respeito ao nosso controlo total porque estamos a fazer acordos com editoras apenas relativamente a determinados serviços, o que representa um avanço face ao licenciamento.
Skin – Não sei o que isso significa, tenho de confessar.
Ace – Simplificando: quando assinas um contrato com uma editora discográfica, eles passam a ser teus donos, fazem outros contratos em teu nome e recebem todos os lucros. Portanto, quando passamos a ser a nossa própria editora podemos fazer contratos com outras editoras discográficas… Isso é um passo. Mas podes ir um passo mais à frente e nem sequer assinar contratos com outras editoras, podes simplesmente assinar acordos de distribuição com serviços de editoras que simplesmente colocam o álbum na rua por ti, sem precisares de fazer um contrato. Quanto mais controlo tiveres, tendo em conta a forma como as coisas funcionam agora, mais dinheiro ganhas e mais controlo tens. Podemos editar o que quisermos em qualquer lado e a qualquer altura.
Skin – Acho que aquilo que o Ace está a dizer é que estamos a cortar todos os intermediários. A cada passo que damos, estamos a cortar mais e mais intermediários e a pedir esses trabalhos a quem realmente os faz. Isso era uma coisa que, nos anos 90, ninguém sabia realmente fazer, porque era mais fácil assinar contrato com uma editora. Portanto, claro que há muitos rendimentos que vêm diretamente para nós, mas também envolve muito mais trabalho da nossa parte e temos de gastar muito mais. Não somos milionários, mas é fantástico sermos os nossos próprios patrões. O Ace é ótimo a coordenar esse trabalho com o nosso manager. E sentimo-nos muito melhor. Acaba por ser necessário numa era em que toda a gente quer que os artistas escrevam canções fantásticas mas ninguém quer pagar-lhes por elas. Quanto mais dinheiro conseguirmos reter, melhor, porque não há muito dinheiro na indústria musical nos dias que correm. Precisamos dele para ir gravar um álbum. Precisamos de dar emprego a pessoas muito boas para que tratem das nossas coisas. Dividimos tudo de forma igualitária e recebemos salário, o que é ótimo para podermos continuar.

A forma como a Skin se apresentava em palco, a sua androginia e o poder que demonstrava, numa época em que o preconceito com pessoas queer era aparentemente maior, era admirável. Apesar de hoje falarmos muito sobre fluidez de género, ainda há muitas ideias feitas sobre o que é feminino e masculino. Por que razão não avançamos mais rápido?
Skin – Há quem diga que estamos a avançar rápido demais. Penso que estamos a andar em frente e isso é a coisa mais importante. Não posso falar sobre a realidade portuguesa, sei que há uma mentalidade diferente aqui, problemas diferentes e maiores, mas em Inglaterra, em Londres, na Grã-Bretanha, as coisas estão muito melhores do que estavam. Na Grã-Bretanha, o facto de eu ser gay não interessa. Agora, os artistas surgem e se forem gay, transgénero ou queer, o que seja, acabam por ter mais fãs. É algo que os promove, saem-se melhor pelo facto de serem queer. Mais do que se forem heterossexuais, às vezes. Está mais na moda, é mais fixe. E agora tens aquela coisa de as pessoas dizerem que são queer. O Ace podia ser queer, o que significa que és pansexual ou aberto em termos sexuais… Na verdade não és, és heterossexual, mas queres saltar para a carruagem, a carruagem gay, portanto dizes que és queer. E, na verdade, não és… Nós somos gay. Vocês não são. E ficamos muito felizes por vocês serem nossos aliados, mas na verdade não é a mesma coisa. Fomos nós que fomos expulsos de casa porque as nossas mães e os nossos pais nos odiavam. Sinto que, de muitas formas, há pessoas a aproveitarem-se de pessoas como eu, que fomos realmente responsáveis por esta maior abertura de mentalidades. Vocês são fantásticos porque podem colher os benefícios, mas tenham cuidado para não espezinhar os que fizeram o trabalho por vocês e que se calhar não sabem bem o que devem dizer. Mas penso que as coisas estão muito melhores e mais abertas, em alguns aspetos. Ainda temos aquelas discussões sobre cor-de-rosa e azul e rapazes e raparigas, porque as empresas fazem as suas estratégias de marketing girar em torno do género e, por isso, colocam as crianças em caixas, no que diz respeito àquilo que devem ser e como se devem comportar. Essa discussão continua com força, mas sinto que estamos a avançar. Algumas lojas já disponibilizam roupas unissexo, com cores diferentes. Estamos a avançar, mas ao mesmo tempo sinto que as pessoas que estão contra nós também estão a aumentar e a ficar mais poderosas. Gostamos de acreditar que vivemos numa sociedade livre, mas fora da sociedade ocidental as coisas estão a ficar ainda piores para pessoas gay, pessoas queer. Estamos a andar em frente, mas temos de nos lembrar dos nossos irmãos e irmãs noutros países e continuar a lutar.

Foi recentemente distinguida com o prémio de “Artista Inspiração” nos Women in Music Awards. Alguma vez sentiu dificuldade em ser ouvida, por pessoas externas à banda, por estar rodeada de três homens?
Skin – Sempre falei muito alto (risos). Penso que, no início, o nosso trabalho era muito mais difícil porque era eu a líder da banda, porque tinhas uma mulher negra e queer a liderar a banda. Muita gente não conseguia entender mas, no final de contas, rapidamente, depois de cerca de um ano e meio, isso tornou-se a razão pela qual toda a gente gostava dos Skunk Anansie. Tornou-se aquilo que nos distinguia dos outros e ao que as pessoas se agarraram, acabando por ajudar a banda a ter mais sucesso. Portanto, acho que acabou por ser um pau de dois bicos.

Sempre tiveram uma ligação muito próxima com o vosso público português. Lembram-se do momento em que perceberam que os portugueses gostavam realmente dos Skunk Anansie?
Skin - Não sabíamos o quão grandes éramos aqui nem qual seria a reação, portanto quando viemos cá pela primeira vez ficámos admirados e percebemos que os portugueses realmente entendiam a banda. “Eles percebem que isto é diferente e não se importam com o facto de ser uma mulher negra a liderar uma banda rock. Na verdade, gostam disso”. Portugal é um país muito diverso, também, portanto acho que isso foi muito fixe. “Estamos a adorar isto”.

Naquela mesma entrevista de 2010, disse-nos que o Reino Unido era o mercado mais difícil para os Skunk Anansie. Continua a ser assim?
Skin – Sim! O nosso próprio país é provavelmente o mercado mais difícil que temos. Vamos a Itália e tocamos para 15 mil pessoas num só concerto numa só cidade, para nove ou doze mil pessoas numa série de países diferentes. Não fazemos concertos para menos de duas mil pessoas e depois vamos para Inglaterra… Em Londres, tocamos para sete ou oito mil, mas a indústria em Inglaterra é obcecada por jovens bandas. Sempre tivemos dificuldades por ser eu a líder da banda… Sempre foi complicado para a indústria musical inglesa ultrapassar isso. E, na verdade, ainda não conseguiu fazê-lo completamente. Mas as pessoas adoram-nos, identificam-se connosco e têm ótimas memórias dos Skunk Anansie. Sempre que fazemos digressões elas esgotam, o que, de certa forma, até sabe melhor.

Que recordações guardam das gravações do filme “Estranhos Prazeres”, de 1995?
Ace – A festa depois das filmagens. A Skin a atirar os vasos de flores de um lado para o outro no quarto de hotel…
Skin – Não me lembro disso. Acabaste de inventar?
Ace – Basicamente, foi uma festa divertida. A Sony Epic, na América, pegou em nós…
Skin – Infelizmente…
Ace – Sim… E acharam que uma boa forma de nos fazer romper o mercado era incluir-nos no filme. Conheciam a realizadora e ela disse “se pagarem por uma cena no filme, a cena da passagem de ano, colocamos a banda lá”… Então, pagaram pela cena. Basicamente, voámos para lá.
Skin – Eu não sabia disso! Pensava que a Kathryn Bigelow nos tinha escolhido. Houve uma negociata envolvida?
Ace – Sim, uns 100 mil dólares ou assim.
Skin – O quê? Acabaste de me partir o coração. Estou tão desapontada… Mas lembro-me de ter sido a coisa mais dura que os Skunk Anansie e eu alguma vez fizemos. A ‘Selling Jesus’ [canção que tocaram na referida cena] era a canção mais pesada de todo o álbum, de tudo o que tínhamos feito até àquele momento. Agora, imaginem tocar essa canção, e fazer stage-diving no final, durante oito horas sem parar. Destruiu-me as costas. Fiquei completamente exausta na semana seguinte. Acho que, até hoje, nunca fiz nada tão duro quanto tocar aquela canção durante oito horas. É como fazer um concerto de metal de oito horas. Foi divertido, mas meu Deus, foi cansativo. Não sei o que eles estavam a filmar, mas para tudo o que filmavam nós tínhamos de estar em plano de fundo a atuar e tínhamos de fazer exatamente a mesma coisa de todas as vezes. A mesma canção, com a mesma ferocidade, a mesma energia… Achei que ia morrer quando ainda só estávamos a meio. Foi como escalar o Evereste. Foi trabalho duro.

Já estão a pensar num novo álbum?
Skin – Estamos prestes a fazer uma sessão de composição durante duas semanas. Vamos estar apenas concentrados em escrever música e ver o que sai dali. Esperamos ter um par de novas canções ainda este ano e acabar um novo álbum, se as canções forem boas o suficiente.