Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Duas guitarras e um sonho de primavera-verão. Peixe e Frankie Chavez receberam uma “prenda do destino”

Ambos fazem da guitarra a sua vida e juntaram-se, primeiro em palco e agora em disco, para tecerem imagens com cordas a que chamaram Miramar. À BLITZ, Peixe e Frankie Chavez contam como começaram a tocar, que guitarristas tentavam imitar e porque é que uma canção não tem de ter letra. O “regresso” dos Ornatos Violeta também passa por aqui

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Conheceram-se em Lisboa, num concerto de They're Heading West, e começaram a tocar juntos a convite do festival itinerante Guitarras ao Alto, que anualmente se desenrola no Alentejo. Mas foi em Gaia, mais precisamente na praia de Miramar, numa casa junto ao mar, que Peixe e Frankie Chavez passaram para disco a química que sentiram quando, de guitarra ao colo, se sentaram lado a lado. Entre “belas almoçaradas” à beira-mar, a dupla gravou o primeiro disco da aventura Miramar: canções sem palavra mas com muitas imagens, banhadas pela cumplicidade de um encontro inesperado.

Quando começaram a tocar guitarra?
Peixe: Ontem descobrimos que começámos exatamente ao mesmo tempo!
Frankie Chavez: Eu com 9, ele com 14…
P: Deve ter sido em 88, o ano dos Xutos! (risos)
F: Comecei a tocar na escola, com o professor que nos dava aulas de música. Estava na quarta classe, inscrevi-me nas aulas de guitarra e ao princípio não conseguia fazer praticamente nada. Mas um ano ou dois depois já tentava sacar músicas de ouvido, Pink Floyd e essas coisas que ouvia lá em casa, por influência dos meus irmãos, que tinham muitos discos – eu sou o mais novo de quatro irmãos. Acho que a primeira música que tentei sacar foi o 'Is There Anybody Out There?', dos Pink Floyd. Continuei a ter aulas com esse professor, inscrevi-me no Conservatório, comecei a ter bandas e percebi que me dava tanto gozo aprender aquelas coisas mais clássicas como tentar sacar as músicas que ouvia em casa, de rock.

E o Peixe?
P: Eu tinha 14 quando comecei a experimentar os primeiros acordes na guitarra. Nos primeiros anos fui autodidata: aprendi a fazer os acordes maiores, os menores, as barras, tudo com o livro do Eurico A. Cebolo, “Guitarra Mágica”. Mais tarde acabei por formar uma banda com os meus amigos, os Ornatos. (risos) Entretanto aprendi a escala pentatónica e percebi que também dava para fazer solos na guitarra, era só seguir os pontinhos. Foi uma revolução! Basicamente, formámos a banda antes de sabermos tocar, o que foi engraçado. Tínhamos de nos valer das ideias e da criatividade, porque a parte técnica... (risos) Pelo menos falo por mim. Entretanto comecei a levar cada vez mais a sério a música e a guitarra. Estive no Conservatório e na Escola Superior de Música, pelo meio passei pela Faculdade de Belas Artes, com o resto dos Ornatos. No fim não acabei nenhum curso, por isso continuo absolutamente iletrado. (risos) Mas mantenho o mesmo gosto que tinha em tocar guitarra, se calhar por causa disso, até.

Se soubesse mais, teria menos prazer?
P: Acho que, a partir de certa altura, o academismo começa a ser limitador. Senti isso nas Artes Plásticas, como na música. São coisas muito muito formatadas não senti que estimulassem a minha criatividade, o meu gosto pessoal. No Conservatório, na Escola Superior de Música e com professores privados de jazz aprendi imensas coisas que me são úteis… Mas cheguei a um ponto em que pensei: “agora é demasiado específico”. Teria de virar a minha cabeça só para uma linguagem ou só para um mundo, e não é isso que me fascina na música. O que me fascina é o lado infinito de fazer tudo, e para estar aberto à exploração desse mundo sem limites é fixe não estar demasiado formatado numa linguagem.

Quando começaram a tocar guitarra, quem eram os guitarristas que mais vos inspiravam?
FC: Nessa altura era o Jimi Hendrix, que é transversal a qualquer miúdo que comece a tocar guitarra. Ouvia muito Jimi Hendrix, Rolling Stones, Pink Floyd, David Gilmour... Só mais tarde me apercebi que a forma de ele tocar tinha muito a ver com o que eu gostava de fazer. E à medida que me ia interessando por este ou aquele género musical, ia descobrindo este ou aquele guitarrista. Como o Peixe estava a dizer, o fascinante é cruzar todas as influências e tentar criar a nossa própria linguagem.

P: O Jimi Hendrix só descobri muito mais tarde. O primeiro guitarrista que em deixou boquiaberto foi o Mark Knopfler; os Dire Straits eram muito mais mainstream e, na altura, não havia tanto acesso a coisas não mainstream, para miúdos de 12 ou 13 anos. Eu via o que dava na televisão e o Jimi Hendrix não dava tanto. (risos)

FC: Quando ouço o Mark Knopfler é que sinto o quão influente ele foi na minha maneira de tocar.

P: Os Dire Straits tinham grandes solos e ele tocava super bem. Eu tinha um concerto gravado em VHS, ao vivo em Wembley, com o Eric Clapton, que era convidado e fez o concerto todo. Fartei-me de ver aquilo. Mas o que mais tentei imitar foi o Jimmy Page, porque tinha acabado de comprar um gira-discos quando alguém me ofereceu um vinil duplo do “The Song Remains the Same”. Uns amigos dos meus pais, que trabalhavam com discos, ofereceram-me uma catrefada de discos, coisas muito pirosas, e lá no meio vinha esse dos Led Zeppelin, ao vivo no Madison Square Garden. E as guitarradas do Jimmy Page partiram-me todo. A partir daí tentei sacar as cenas do gajo. O David Gilmour também acaba por influenciar qualquer puto que está a começar e ouve aquelas guitarradas.

Peixe, de 44 anos, e Frankie Chavez, cinco anos mais novo, começaram a tocar guitarra no mesmo ano: 1988

Peixe, de 44 anos, e Frankie Chavez, cinco anos mais novo, começaram a tocar guitarra no mesmo ano: 1988

Uma das canções do disco, 'Nazaré', tem uma guitarra portuguesa. Tocá-la é um desafio diferente?
FC: A guitarra portuguesa tem uma afinação específica e eu aprendi a tocar alguma coisa nessa afinação. Mais tarde, quando comecei a explorar afinações abertas noutras guitarras, tentei transportar isso para a guitarra portuguesa e cheguei a um compromisso entre uma afinação aberta e o som da guitarra portuguesa, que me fascina por isso mesmo: continua a soar a guitarra portuguesa, mas com uma abordagem totalmente diferente. E comecei a tentar compor coisas ali. Quando me convidaram para fazer a banda-sonora de um documentário sobre a Nazaré e me enviaram as imagens, aquilo bateu-me bastante, porque gosto muito do mar e de me deixar influenciar por imagens. Quando vi aquelas ondas incríveis, o riff da música 'Nazaré' saiu-me quase imediatamente. É um cruzamento original, o da guitarra portuguesa com aquela afinação e com a guitarra elétrica que o Peixe meteu ali.

Referem-se às vossas composições instrumentais como canções. O que é, para vocês, uma canção?
FC: Uma canção, a meu ver, é algo que se pode cantarolar, mesmo não tendo letra. E acho que as músicas que gravámos neste disco são muito cantáveis. Mesmo sendo instrumentais, têm sempre uma melodia e um acompanhamento é quase como se fosse uma voz e uma guitarra. São duas guitarras mas há uma que é sempre mais melodiosa que outra, sendo eu a fazer essa parte ou o Peixe. A 'Canção Muda' é um tema que eu vejo como uma conversa entre duas guitarras há espaço para eu fazer acompanhamento e ele ter uma melodia, há uma melodia constante… Apesar de sermos dois guitarristas a fazer música instrumental, não caímos naquele lado de: “isto é fixe para quem está a tocar”. Quem ouve consegue perfeitamente cantarolar os temas.

P: E tem a ver com a estrutura, também. Pelo menos para mim, canção é uma composição musical com texto, com um formato e uma mensagem muito direta. Normalmente, as canções têm essa vertente de as pessoas poderem reproduzi-las facilmente, porque são melodias simples. Quando estamos a fazer uma canção, há uma estrutura quase inconsciente: os degraus que vamos subindo até à ideia de que terá de haver um refrão, que é uma espécie de clímax... Todos estes conceitos estão presentes [em Miramar], de forma inconsciente, exceto o texto. Mas não deixam de ser canções, porque têm todos os outros ingredientes implícitos na narrativa da música. O texto tem uma mensagem, que pode ser mais abstrata ou concreta, e não tendo texto [a música] acaba por ter uma mensagem abstrata, que às vezes pode ser tão abstrata como algumas letras de escritores mais enigmáticos. (risos)

Não tendo texto, como decidem os títulos das canções? Tem a ver com a inspiração das mesmas?
FC: No meu caso, sim. Estou a lembrar-me da 'Pine Trees', que tem a ver com o pinhal frente a casa dos meus pais, onde praticamente cresci. Quando o toco, lembro-me do pinhal e de brincar lá, em miúdo. E de ver o pinhal de casa dos meus pais.

Crescemos a ouvir “música de guitarras”, mas hoje os topes são dominados por outros géneros e há cada vez menos miúdos a comprar guitarras e a aprender a tocar... Acham que a guitarra vai sobreviver às modas e tendências?
FC: Acho que há de haver sempre guitarristas. E pessoas com interesse por instrumentos. Modas são modas, vão e vêm, não consigo fazer futurologia em relação a isso, mas se depender de mim… (risos) Eu pelo menos vou continuar a tocar guitarra. Até me vejo a cruzar o instrumento com outro género musical, e já aconteceu, mas…

Nos Estados Unidos, dentre os miúdos que compram guitarras, há cada vez mais raparigas, inspiradas pela Taylor Swift, que toca guitarra em palco...
FC: Eu nunca tive no futebol nenhum herói, nunca segui muito. Estou a dar este exemplo porque hoje em dia os rock stars são os futebolistas… e a malta do hip-hop, em quem os miúdos tentam rever-se. Na nossa altura eram os Jimmy Pages, os Mark Knopflers… eu pelo menos olhava para eles e pensava: “Isto é que é!”. Estar num palco a tocar um instrumento e conseguir mexer 80 mil ou 100 mil pessoas, como eles faziam…

P: A guitarra elétrica é o instrumento mais cool de sempre. E dificilmente vai ser destronado, por muita tecnologia que apareça. (risos) A guitarra é um bocado como os livros. Não há tecnologia que os substitua. Falou-se muito na morte dos livros, quando começaram a aparecer os livros digitais, e a verdade é que as pessoas continuam a comprar livros, porque é insubstituível a ligação que crias com o objeto… E com a guitarra é a mesma coisa: é tão orgânico, tão pessoal, tão portátil e tem tantas possibilidades, e é tão barato – alguns modelos, pelo menos –, que nunca vai desaparecer. Na música mais mainstream, pode haver alturas em que esteja mais ou menos na moda, mas isso para mim é secundário.

FC: Mas um dos [músicos] que está no top é o Ed Sheeran. Já viste o concerto do Ed Sheeran? É o gajo sozinho com uma guitarra acústica e uma pedaleira, cria loops. É um fenómeno! E vai fazer duas noites no Estádio da Luz.

P: Como professor de guitarra, noto que os miúdos que tocam guitarra, hoje, cada vez tocam melhor. Não sinto que haja menos gente a tocar, pelo contrário. Com o YouTube e os tutoriais, só tens de escolher: “how to play this”. Aparecem-te dez e tu vês qual é o menos cromo. (risos) Quando os professores estiverem no desemprego, porque o pessoal já não precisa deles, pode haver uma nova profissão: os aconselhadores dos melhores vídeos! Porque quem não sabe não consegue distinguir quem são os gajos que tocam bem e os que são um bocado cromos.

Quantas guitarras têm?
FC: Eu tenho uma catrefada delas, porque felizmente consegui ir juntando. Vendi uma guitarra uma vez: foi a minha primeira guitarra elétrica… arrependi-me tanto que disse “nunca mais”. Como tive muito tempo em que a música não era a minha profissão principal, ia gastando em guitarras. Tenho umas mais baratas, de 100 euros, umas um pouco mais caras...
P: Mas quantas é que tens? Já contaste?
FC: Já contei… tenho algumas. Entre guitarras, baixos e outros instrumentos de cordas.
P: Eu tenho para aí dez.

Nunca tentou encontrar a guitarra que vendeu em sites de segunda mão, por exemplo?
FC: Já me deram essa dica. Também emprestei a primeira guitarra em que toquei slide a um rapaz a quem estava a dar umas aulas e ele nunca ma devolveu. Faço aqui o apelo: se tiveres a guitarra, trá-la.
P: Também vendi a minha primeira guitarra, uma Washburn HB35. Era tipo guitarra de jazz, uma guitarra fixe, mas queria comprar uma Gibson e como não tinha dinheiro vendi essa. Foi a única vez que vendi uma guitarra. Passados uns anos, falei com a pessoa a quem a tinha vendido e que também já não a tinha, tinha-a vendido a um colega das Belas Artes. Acho que vou tentar reavê-la!
FC: A minha era preta, a imitar as Gibson Les Paul, e nunca mais a vi… Não era boa, mas era a primeira, onde aprendi a tocar.

Este ano vão andar ocupados com outras aventuras. O Frankie tem uma digressão a solo...
FC: Sim, estou com uma digressão a solo agora e tenho algumas datas já marcadas para o final do ano, umas com banda, outras com duo… e espero vir a ter mais datas com Miramar.

E o Peixe vai tocar com os Ornatos Violeta...
P: Sim, vamos tocar com Ornatos: fazer outra vez concertos, aproveitando o aniversário de “O Monstro Precisa de Amigos” [o segundo e último álbum da banda], que faz 20 anos. Foi uma ideia que surgiu há algum tempo, acho que até foi o Kinörm, o baterista, que lançou o desafio de fazermos pelo menos um concerto num festival. Era fixe, para assinalar esta data. Entretanto a coisa expandiu-se para mais dois: vai ser no Porto, em Lisboa e em Faro. E estou entusiasmado com isso. Fizemos [concertos] em 2012 e pensámos que nunca mais iríamos repetir, mas percebemos que éramos capazes de voltar a tocar as músicas dos Ornatos, sem que issso fosse esquisito. Tínhamos algum pudor: será que conseguíamos ter a mesma onda e a mesma pica a tocar? E correu tão bem que ficámos todos com aquela vontade de voltar a fazer – e vai acontecer.

Já começou a “estudar”, ou ainda se lembra de tudo?

O Kinörm e o Nuno [Prata, baixista] já começaram a praticar, eu ainda não, mas brevemente vou juntar-me a eles, para me relembrar.

Peixe com os Ornatos, no Coliseu de Lisboa, em outubro de 2011

Peixe com os Ornatos, no Coliseu de Lisboa, em outubro de 2011

Rita Carmo

Para terminar, qual a surpresa mais grata deste encontro entre um gajo do Porto e um gajo de Lisboa?
FC: Foi termos feito um disco. O disco foi gravado há precisamente um ano. Mas ainda bem que assim foi, porque deu para fazer as coisas com calma. É bom termos preparado tudo bem e o disco ter saído exatamente como queríamos, com o som que queríamos. Juntámo-nos para fazer quatro concertos e muito rapidamente percebemos que íamos ter de gravar. Só que às vezes caímos naquela de: “ah sim, temos de tratar disso”. Desta vez, a vontade era tanta que conseguimos chegar a vias de facto e ir para estúdio gravar.

P: Concordo. Esperava que a nossa experiência funcionasse bem e fizéssemos uns concertos fixes, no Guitarras Ao Alto, mas o facto de se ter prolongado e termos feito um disco é uma surpresa, e uma excelente surpresa, porque quase do nada aparece um projeto pelo qual temos muito carinho e no qual acreditamos muito. No espaço de um ano, tens mais uma coisa bonita na tua vida que há um ano e um dia não imaginavas. (risos) É quase um bónus, uma prenda do destino.

“Miramar”, o primeiro disco conjunto de Peixe e Frankie Chavez, está nas lojas e nos serviços de streaming. A 14 de março, a dupla atua na Casa da Música, no Porto, a 26 no Teatro Villaret, em Lisboa, e a 30 no Salão Brazil, em Coimbra. Os espetáculos terão projeções do realizador do Porto, Jorge Quintela.