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O terraço é o limite. Há 50 anos, os Beatles faziam história... e diziam adeus

30 de Janeiro de 1969. Os Beatles davam o seu último 'concerto' ao vivo, enquanto banda idolatrada por multidões em todo o mundo. Foi no terraço da Apple, editora dos 'Fab Four'. Não mais voltou a acontecer, jamais acontecerá!

Luís Pinheiro de Almeida

Luís Pinheiro de Almeida

Jornalista veterano

Foi o êxtase no terraço da sede da editora da banda, Apple, em Saville Row, a rua londrina dos alfaiates, abruptamente interrompido pela polícia, atónita pelo inusitado e pela temeridade dos quatro de Liverpool.

Rebobinemos, por uns instantes, a cassete. Os nervos estavam em franja e o jornal português Diário Popular preencheu grande parte da sua primeira página do dia 18 de Janeiro de 1969 com a notícia. «Os Beatles zangaram-se», assinalava o vespertino lisboeta, lado a lado com a aterragem da Soyuz 5 na Rússia e com o novo Plano Geral do Porto de Lisboa.

Compreende-se que a notícia era interessante para o regime marcelista. O fim dos Beatles representaria o acabar das «más influências» que o grupo estava a provocar na juventude nacional, cuja «obrigação era defender o Ultramar». «Surgiram desinteligências entre os Beatles, a propósito do seu consórcio Apple, cujo valor se eleva a um milhão de libras (cerca de 70 mil contos). George Harrison, de 25 anos, foi para casa de seus pais em Liverpool, depois de uma discussão com John Lennon. Lennon, de 28 anos, admitiu que a Apple está a perder dinheiro semanalmente e preveniu: "se isto continua assim, estaremos todos arruinados nos próximos seis meses". A discussão ocorreu nos estúdios de Twickenham, onde os Beatles têm estado a ensaiar para um concerto que deveria ser dado e filmado hoje.

Os técnicos descreveram a discussão como "muito acalorada". Um empregado da Apple, porém, deitou água na fervura, afirmando: "tratou-se apenas de uma pequena querela pessoal e os ensaios terminaram cedo nesse dia. A vida entre os Beatles nunca foi um completo mar de rosas. E assim acontece com qualquer grupo de pessoas. Todavia os Beatles têm sempre sabido, até aqui, remendar as suas divergências". Entretanto, a zanga é um facto e os Beatles separaram-se, apreensivos» (Diário Popular, 18.01.69).

Em Janeiro de 1969 outras notícias preenchiam os jornais portugueses «visados pela Comissão de Censura», como a aceleração dos estudos para a construção do novo aeroporto de Lisboa, o regime da prioridade absoluta à direita na condução automóvel, o aumento da licença de isqueiro de 48$50 para 60$50 (Portugal era o único país do Mundo com tal exigência, alegadamente para protecção da indústria fosforeira), Marcelo Caetano iniciava as suas «conversas em família», morria o intelectual e pensador António Sérgio.

No entretenimento, os Sheiks actuavam no Casino Estoril, o engenheiro Heitor de Morais sagrava-se campeão nacional de ralis num Morris Cooper S com a matrícula FE-69-92, enquanto o piloto sueco Bjorn Waaldegaard espatifava um Mercedes em Oliveira de Frades, inaugurava-se a boîte Cacto Velho em Cascais com um horário das 10H00 às 03H30, e no cinema Estúdio (acoplado ao Império) estreava-se o filme Eu Sou Bob Dylan (Don't Look Back, de D. A. Pennebaker).

O Diário Popular de 7 de Janeiro publicava as fotografias de Daniel, Teresa Paula Brito, Fernando Tordo, Ana e Elísia Lisboa com a informação de que «são estes os cinco jovens praticamente desconhecidos do público que emprestarão ao Grande Prémio TV um curioso aspecto de renovação de intérpretes».

Era este o contexto nacional na altura em que os Beatles, sobretudo Paul McCartney, procuravam militantemente encontrar a solução mágica que evitasse o desmembramento. Só conseguiram adiar o desenlace para 10 de Abril de 1970.

UMA DESPEDIDA SUPERIOR

Num pormenor o Diário Popular estava certo: havia mesmo a ideia de um concerto dos Beatles nesse dia na famosa Roundhouse, em Chalk Farm, na fronteira de Camden Town, em Londres. Era mais uma tentativa de McCartney no sentido de manter a unidade. Para trás tinham ficado os concertos inaudíveis, a guincharia dos fãs, a correria dos aeroportos, dos hotéis, a loucura de concertos a toda a hora e também as experiências em estúdio, os pioneirismos de Sgt. Pepper's e de The Beatles, vulgo «álbum branco».

Revigorado com umas férias em Portugal, no Algarve, Paul McCartney planeava um autêntico regresso às origens, ao primeiro amor, na expressão de Mark Lewisohn, o actual biógrafo dos Beatles. Era a esperança: o regresso aos concertos ao vivo. Várias hipóteses foram lançadas para a mesa, algumas admite-se estapafúrdias, todas elas rejeitadas por John e George. Falouse num anfiteatro romano no Norte de África ou mesmo num palco em pleno deserto do Saara. Ideias que só mesmo quem viveu aquela época poderiam ser admissíveis, pois tudo então era possível. Numa última e desesperada tentativa, Paul propôs então que se enfiassem os quatro numa carrinha e se apresentassem anonimamente numa igreja ou num pub (McCartney viria a fazer isso mais tarde, com os Wings, em universidades).

E chegou-se ao concerto de 30 de Janeiro de 1969, no telhado do nº 3 de Saville Row, Londres, sede da Apple e dos estúdios subterrâneos e uma das mais selectas ruas londrinas onde pontificam as alfaiatarias reais. A Apple já lá não está desde 1972 (os estúdios só foram abandonados em 1975), mas os alfaiates permanecem, bem como a esquadra de polícia que recebeu a missão de devolver a ordem pública ao caos instalado pela ousadia inédita dos Beatles.

Ironicamente, a outra Apple, a dos computadores, está lá perto com uma loja gigantesca, sem montras, mas onde toda a gente pode mexer em tudo o que está exposto em mesas, mesmo que não compre. E os «bespoke tailors» têm agora a concorrência da Abercrombie & Fitch, uma loja de moda que apresenta à entrada um modelo que se predispõe a fotos com potenciais clientes.

O concerto, no telhado, foi, afinal, o local mais próximo das discussões infindáveis nos estúdios da Apple, situados na cave do prédio. Longe ficavam as ideias de um concerto megalómano num cruzeiro no Queen Elizabeth 2, no aeroporto de Biafra, no Parlamento britânico ou noutro local inóspito ou proibido onde a polícia os prendesse.

À hora do almoço, com um frio tal que dificultava os acordes, John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, agasalhados com os casacos de Inverno das mulheres, levaram até ao telhado o organista Billy Preston (pelo que recebeu 500 libras) e o cineasta Michael Lindsay-Hogg.

Num palco improvisado e no meio de câmaras de filmar, os Beatles tocaram durante 42 minutos «Get Back» (três vezes), «Don't Let Me Down» (duas), «One After 909», «I've Got A Feeling» (duas) e «Dig A Pony». Quando a polícia, após dezenas de queixas dos «gentlemen» de chapéu de coco, chegou para repor a «normalidade», já os Beatles se sentiam satisfeitos: «on behalf of the group, we hoped we passed the audition».

Passaram a audição, mas ficaram desapontados. A polícia foi deveras simpática e não os prendeu, apenas solicitou, delicadamente, que os Beatles baixassem o som da amplificação. «Shit!», pensaram os Beatles, lá se foi o «grand finale»! Fiel à sua determinação, George Harrison não autorizou que qualquer das suas canções fosse interpretada. Glyn Johns e Alan Parsons ficaram na cave, monitorizando o som e dando instruções à banda por intercomunicadores. George Martin foi apenas um observador. O irónico da situação é que a multidão em Saville Row, de nariz no ar, não conseguia ver os Beatles, lá no alto, no telhado, só ouvia o som ensurdecedor que inclusivamente impedia as reportagens de rua da televisão. A cena mais caricata e sintomática ocorre quando se vê um cavalheiro de cachimbo e chapéu de coco a subir uma escada de aço de telhado para melhor observar os «delinquentes sonoros».

Não há edição oficial do concerto, embora alguns registos tivessem sido parcialmente utilizados no álbum e no filme Let It Be (e depois na série Anthology), mas os fãs dos Beatles esperam para breve (esteve para ser este Natal) um DVD com o documentário de Lindsay-Hogg, que os lisboetas tiveram ocasião de reapreciar em Setembro de 2008, no ciclo Rock Numa Noite de Verão, da Cinemateca Nacional. Nesse improviso de 81 minutos, há 22 que são preenchidos com o inusitado concerto de há 40 anos que ninguém viu, mas todos ouviram. E não, os Beatles ainda não acabaram.

Publicado originalmente na BLITZ de fevereiro de 2009