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Xutos & Pontapés

Rita Carmo

Aos 40 anos, sem Zé Pedro, os Xutos & Pontapés são uma democracia com direito a veto. E com tanta saudade como vontade de continuar

A poucos dias da saída do novo disco, o primeiro sem Zé Pedro, os Xutos & Pontapés receberam-nos no seu quartel-general para falar sobre as canções de “Duro” e a forma como lidaram com a partida do seu companheiro de sempre. O carinho que receberam dos fãs, ao longo do ano passado, foi um combustível essencial para esta máquina continuar a carburar

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

“Duro”, o álbum de estúdio número 14 para os Xutos & Pontapés, está a dias de sair quando a banda nos recebe no seu quartel-general, na zona industrial de Lisboa. O entusiasmo com as novas canções é evidente e é bonito ver uma instituição desta envergadura pontuar o seu discurso com palavas como “desafio”, ou genuinamente preocupada com “abrir janelas de comunicação” na sua música. Nos posters que decoram as paredes do complexo, contando a longa história do grupo, as imagens recordam-nos o que é impossível esquecer: Zé Pedro, invariavelmente sorridente e confiante nos cartazes de tantos álbuns e digressões, já não está com os seus companheiros. A sua partida é uma ferida recente que Tim, João Cabeleira, Gui e Kalú não desejam, naturalmente, explorar, mas tentámos saber como é que os Xutos & Pontapés prosseguiram a sua caminhada, depois do adeus de um dos seus grandes timoneiros. E ficámos a saber que a saudade pode ser tão grande como o desejo de continuar.

Este é o vosso primeiro disco sem o Zé Pedro. Quando decidiram continuar com a banda?
Tim: Nós não decidimos isso. Entre nós, nunca falámos em acabar. Aqui e ali, alguém pode ter pensado nisso, mas nunca se falou em: “vamos acabar, se... se isto acontecer”.
Kalú: Pode ter havido um “como é que vamos continuar?”.
T: Sim, como é que se ia fazer. Mas estes processos têm o seu tempo e toda a gente arranja a sua maneira de resolvê-los e tentar fazer o melhor possível. Connosco, isso aconteceu ao longo de um ano. Em 2017, já houve concertos que fizemos sem o Zé, porque ele já não podia viajar de avião, e a partir daí começámos a ter a consciência de que nós os quatro podíamos segurar o barco, em termos de espetáculo e do que as pessoas estavam à espera de ver. Preparámos as coisas melhor e conseguimos. E a partir dessa altura, do verão de 2017, começámos a sentir que quando ele estivesse presente, estava, quando não estivesse, podíamos continuar a fazer as coisas. Ele zangava-se muito por não poder fazer [os concertos], mas pronto.

Chegava a zangar-se por não poder ir a certos concertos, certo?
Principalmente com as viagens de avião, custava-lhe muito ter de desistir. É um percurso muito semelhante ao que acontece a todos os que têm de lidar com esta doença [cancro]. E nós, como todas as pessoas que têm de passar por isso, tivemos de [encontrar o nosso caminho]. No nosso caso, era continuar a tocar. Por isso é que essa questão de “quando é que decidimos acabar” não se põe. Nós tínhamos de tocar para o Zé Pedro tocar. O Zé estava feliz quando tocava, por isso nós tínhamos de tocar para ele tocar. Mesmo que achássemos impossível, que ele não devia ir, por isso é que nunca se pôs a questão de acabar. Pôs-se a questão de como é que se vai fazer… paramos aqui seis meses? Fazemos luto, não fazemos? Metemos alguém para tocar? Essas questões apareceram todas.

Entretanto voltaram a ensaiar...
K: Ainda bem!
T: E a tournée correu muito bem e fomos muito bem recebidos, sem muita caridade e sem lamechice. Fomos muito bem acolhidos pelo público em todo o lado e os concertos foram uns belíssimos de uns espetáculos, pronto.

Ficaram surpreendidos com a intensidade da resposta do público, sobretudo nos concertos de homenagem?
João Cabeleira: Não, não me surpreendeu. (pausa) Foi bom, mas era o que se esperava.
T: Já sabia que ia ser uma coisa ‘fora’. (emocionado)

K: A do Rock in Rio foi intensa. Com aquela chuvada toda, ninguém arredar pé… Toda a gente ali. Foi especial.
T: Foi bem bonito isso, por acaso.

Xutos & Pontapés no Rock in Rio Lisboa'18
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Chamaram a este disco “Duro”. Duro de rijo, mas também de duradouro? E é um trocadilho com o anterior “Puro”?
T: Este disco tem uma história longa. Vem na sequência de outro disco, o “Puro” [2014]. Com esse álbum, fizemos umas belas tournées, e quando começámos a trabalhar noutro disco, não havia muita vontade de inventar ambientes novos ou partir para outros caminhos, porque aquilo estava bem feito e não estava acabado. Também brincámos com o “Puro” e “Duro”, um disco é branco, o outro é preto... O novo acaba por fechar este ciclo de trabalho de quatro ou cinco anos.

Qual a canção mais antiga e qual a mais recente, neste disco?
T: A 'Alepo' é a mais antiga. E talvez a 'Às Vezes' seja a mais recente. São coisas com pelo menos três anos de intervalo [entre si].

Na 'Alepo', partilham a autoria da letra com a menina síria que escrevia no Twitter...
Da Bana Alabed. Foi a partir dos tweets que vinham em nome dela [que escrevi a canção]. Foi como fazer um jornal de parede, apanhar as frases e pô-las ali; [quis] aproveitar esse poder de comunicação naquele bocadinho de música. E falar da situação vivida pela própria pessoa, porque quem sou eu para vivenciar aquilo. Mas realmente [a guerra na Síria] ainda hoje se arrasta e há aquela tendência para que caia no esquecimento, que é sempre mais confortável. Mesmo quando gravámos [a canção] já parecia que a coisa estava [arrumada]. Acaba por ser exemplo de uma série de situações que se multiplicaram.

É uma das letras mais diretas, ou literais, dos Xutos. Na altura do 'Senhor Engenheiro' (canção: 'Sem Eira Nem Beira', de 2009), muita gente pensou num certo engenheiro (José Sócrates), mas a sua identidade da personagem não foi confirmada pela banda...
T: Mas nessa altura havia aquela figura do engenheiro, que era essa. Alguém a personificava. Aquela figura do engenheiro que não era, que era o amigo... o primo. E que também era engenheiro, porque tinha de ser alguma coisa. E depois acabou por ser verdade. (risos) Uma série de vezes. Às vezes é aborrecido: um gajo canta coisas que depois acontecem. É preciso ter cuidado. (risos)

Os Xutos celebraram a 13 de janeiro 40 anos de carreira. Nesse dia, em 1979, davam o seu primeiro concerto de sempre

Os Xutos celebraram a 13 de janeiro 40 anos de carreira. Nesse dia, em 1979, davam o seu primeiro concerto de sempre

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Quanto à canção mais recente, a balada 'Às Vezes', é das mais bonitas do disco...
Kalú: Eu gosto imenso da música! Apesar de ter sido das últimas [a surgir]...
T: Ainda bem que vocês gostaram! Haja alguma! (risos)
K: A parte musical é boa, e a letra então… foi mesmo a cereja no topo do bolo! Fechou o disco impecavelmente.

T: Aquela coisa que se ouve ao princípio da música é muito o que nós fizemos, eu e o João [Cabeleira]. Aquele ambientezinho das guitarras sobrepostas. E a letra apareceu quase em simultâneo. Estávamos a fechar o disco e, já nas últimas sessões, decidimos [incluí-la no disco]. E depois acabou por se fazer tudo direto em Almada.

Que canções das novas já têm tocado ao vivo?

K: 'Mar de Outono', 'Sementes do Impossível', 'Alepo', 'Fim do Mundo'… que é outra de que eu também gosto muito.

O público tem reagido bem às canções novas?
T: Acho que sim! A 'Alepo' teve um princípio um bocado atribulado, da nossa parte… não estávamos muito seguros. Aparecia no concerto quase como uma questão de atitude. Estava muito verde. Mas, mesmo quando olhávamos para as pessoas e víamos que havia uma certa estranheza, ainda assim havia abertura e compreensão para o tema. Falar de certas coisas não é consensual, para o público. Parte acha bem, parte não gosta mesmo nada.

E na 'Imprevistos' contam com dois convidados algo inesperados: Jorge Palma e Capicua, apresentados pelo narrador Tim como “dois mestres da letra e do risco”. Como se lembraram de recrutá-los?
T: A música tinha um espaço que não estava preenchido. Havia um espaço para se falar! Eu já tinha tido, há bastante tempo, a ideia de pôr pessoas a falar de coisas que lhes aconteceram. Aquelas coisas 'fora'. Queria ter feito uma sessão alargada aqui [no estúdio]. Com os acontecimentos, a coisa não correu para esse lado, mas a música ficou. E ficou pendurada. Eu achava que a ideia não era má e que havia um desafio que podia ser feito. E como tinha estado com a Capicua no Porto, numa gala para o IPO, e tinha sido engraçada a comunicação entre nós todos, mandei-lhe um mail a desafiá-la. Ela disse logo que sim: que estava cheia de trabalho, atarefadíssima, mais a barriguinha, mas fez e mandou. Ao Palma também lhe disse que queria uma situação de imprevisto, e ele trouxe a história dele nos Açores. (risos) Em que pensou que ia morrer [depois de um encontro imediato com um touro]. E foi isso, uma janela de comunicação: abrir a janela e deixar entrar um bocadinho de ar e alegria.

A Capicua enviou a sua contribuição? Não esteve aqui convosco?
T: Foi uma sorte, que ela estava em estúdio [a acabar de gravar o seu novo disco, que deverá sair em setembro]. E tinha facilidade de 'roubar' 40 minutos de estúdio para escrever. Fez os takes muito rapidamente, e ainda bem. Já o Jorge Palma sentou-se aqui ao piano, a ler o seu texto, gravámos, editámos e levámos para o estúdio.

Abriram também uma janela para o Carlão, que canta em 'Duelo ao Sol'...
T: O Fred Ferreira, que estava a produzir o disco do filme “Linhas de Sangue”, disse: agora é preciso uma música vossa com o Carlão. Nessa altura, estávamos a trabalhar num tema com mais ritmo, que era propício para o Carlão. Falámos e ele escreveu aquele bocado que canta, eu fiz os refrões e foi muito engraçado porque foi tudo feito junto, não foi pela internet, com mail para cá e mail para lá... Sou o teu bilhete para a terra prometida” – a linha de que ele gostava era essa.

Guardar esse tema para o final do disco, com aquela letra (“Tudo depende do sol, nem tudo depende de ti”), comporta uma mensagem?
T: Estávamos a viver uma situação em que parecia que tudo dependia de nós. A nível pessoal, profissional, estava tudo focado no peso do mundo em cima das nossas costas. E não é bem assim: há coisas que não controlamos e que muitas vezes nos ajudam, e [a ideia] era por aqui. Estávamos a tentar abrir um bocadinho da janela e olhar, deixar entrar o ar. Ao fim e ao cabo tudo depende de ti, mas se nos puderem dar uma folgazita para a pessoa descansar…

Estes vossos convidados vão participar nos concertos de apresentação do disco, em Lisboa a 25 de janeiro e no Porto a 1 de fevereiro?
T: Não vamos ter a Capicua nem o Palma. Essa música não vai entrar, por enquanto fica de fora, por vários motivos. O Carlão é possível que venha, e o Manuel Paulo e o Vicente vão tocar teclas à vez - depois o Gui também tem o seu papel. Quem fez o disco é que irá tocar. Nessas noites vamos tocar o disco, mais uns temas do “Puro” para fazer um bocadinho de racord, para se perceber onde estamos, além de alguns temas que há muito tempo não tocamos e outros que são mais vulgares…
K: E os clássicos! (risos de todos)

Como se escolhe um alinhamento de Xutos, com tantos clássicos a ter em conta?

T: Ele [Kalú] chateia-se muito.
K: Porque estamos sempre a tocar as mesmas coisas! De vez em quando apetecia-me tocar outras coisas.
G: Ele quer tocar coisas de outras bandas. (risos)

K: A gente tem tantas músicas, algumas das quais gosto imenso, mas não podemos tocar porque não há espaço no alinhamento – por isto ou por aquilo não cabem. E há outras que temos de tocar, é obrigatório, não há nada a fazer! Se vamos fazer um concerto e não tocamos o 'Homem do Leme', ou 'À Minha Maneira', 'Maria', a 'Casinha'… tentámos uma vez não tocar a 'Casinha', mas as pessoas não se vão embora!
T: Se não tocarmos a 'Casinha', as pessoas ficam ali ad eternum.
K: Quando bate a 'Casinha' é que eles vão para casa! (risos) É inevitável e ainda bem que é assim, que temos músicas porreiras.

K: Este ano vamos tocar aí umas músicas que eu estou todo contente. Já não tocávamos há algum tempo.
T: A 'Avé Maria'?
K: A Avé Maria tocámos no ano passado. 'O Que Foi Não Volta a Ser', 'O Milagre de Fátima', que também é desafiante… Na parte rítmica, são músicas que me dão muita luta.
T: Este concerto que vamos apresentar é um bocadinho duro, um bocadinho pesadinho. Tem oito ou nove temas daqueles que o Kalú gosta. (risos)

A 'Minha Casinha' foi a canção que os Metallica tocaram no concerto em Lisboa, no ano passado...
T: Foi, sim senhora.

E vocês não estavam no concerto.
T: Não, que vergonha! Um embaraço! (risos)

Como souberam do sucedido?
K: Estava a minha mulher a sair para o trabalho, de manhã, quando lhe disseram: “olha, os Metallica tocaram uma música vossa!” E eu: “ya, está bem. Tangas…”.
T: A mim mandaram-me logo para o telemóvel.
JC: Sim, também me mandaram.
K: E a minha mulher disse: “então quando acordares vai às redes sociais!”. Claro que eu já não dormi, fui logo ver.
T: Eles fizeram isso na tournée toda [tocar canções de bandas locais] e aqui vinham tocar Xutos, mas era para ser outra música. Mas alguém lhes disse: “se vão tocar Xutos, toquem mas é esta”. Acho que eles também gostavam da 'Vida Malvada'.

E também há semelhanças entre a vossa 'Para Ti Maria', de 1988, e uma dos Pearl Jam, 'Down', de 2002...
T: É uma música popular parecida com 50 coisas! Um só-li-dó… (risos)

João Cabeleira, já lhe aconteceu sonhar que toca o riff errado, num concerto, como ao Keith Richards?
JC: Não, não. Ainda bem! (risos) Mas já me aconteceu olhar para o alinhamento, que nós temos uns alinhamentos no chão, e [perceber] de repente que saltei uma música. Eles começaram uma e eu comecei outra. (risos)

E como resolveram?
JC: Oh, parámos!
G: Mas olhámos uns para os outros e pensámos: até ficava bem! (risos)
K: Assumir a bronca é melhor. Pára-se e as pessoas até ficam naquela: “afinal estes gajos até são verdadeiros”.
G: São humanos!

Outra das letras curiosas neste disco é a da 'Espanta Espíritos': “admirável mundo novo/já nascem pintos sem ser do ovo/telepatia sem fios, nada se passa, cérebros vazios”. Como se sentem neste mundo de tecnologia e apatia, como referem na canção?
T: Agora as coisas parece que aparecem do nada, sem justificação, é o que Deus quiser. A canção começou por aí, por esse espanto com aquelas seringazitas, aqueles tubos de ensaio… dos quais nasce um rinzinho... O tempo, hoje, é muito mais rápido. Ainda estás a absorver o que poderá vir a ser e já está a aparecer o que seria. A 'Espanta-Espíritos' é sobre isso. Essa também gostei de fazer. Ia ficando para trás, mas gostei.

Neste disco canta palavras difíceis como “espectro” ou “índice médio de felicidade”. Não há palavras que lhe metam medo?

T: Eu gosto dessas palavras! Tenho sempre umas dessas guardadas. É por causa do Gimba. (risos)
G: Foste às aulas do professor Gimba?
T: É para ele depois me citar nas aulas. (risos) O Gimba é um poço de conhecimento e de criação.
G: Essa cena começa logo no amiúde! [letra de 'Para Ti Maria']

Ou, como muitas pessoas percebiam...
T e G: “Mais a miúda!”.
G: Lembro-me quando escreveste “amiúde”, eu fiquei: “eh pá, sim senhor, formidável!”.
T: O Reininho ouvia os 'Contentores' e perguntava: “mas o que é que este gajo está a cantar? Um porco de pé?”. (risos)

Porque escolheram a canção 'Mar de Outono' para antecipar, em vários meses, a chegada do disco?
JC: Eu acho que é porque a música é boa!
T: O João Martins, que produziu o disco, estava muito satisfeito com a música. E se era para sair alguma, na situação em que estávamos...
G: Tocámos a música, o Martins dizia que não estava boa, melhorou-a e…
T: E já a tínhamos tocado ao vivo…
G: E tocámos com o Zé, também.
T: Sim, e tem o Zé, e vem numa lógica de continuidade. Era a que estava a seguir para sair.

Quais as canções em que o Zé Pedro ainda tocou?
T: Acho que são quatro. 'Alepo', 'Duro', 'Mar de Outono' e 'Sementes do Impossível'. E depois havia mais um par delas, mas já não valia a pena. Porque o processo dele foi em fade out. Houve uma altura em que o que ele esteve aqui a trabalhar ainda não era para gravar. Era só para estar a trabalhar, a tocar. Ainda havia um tema ou dois que se podia fazer um bocado de ginástica, mas não era isso que ele queria que aparecesse no disco, de certeza.

Foi fácil escolher o alinhamento do disco?
T: Houve o drama da última música do alinhamento, 'Imprevistos': não sabíamos se ia a algum lado. E o disco ficava um bocadinho desequilibrado para o curto. De resto foi mais ou menos intuitivo. Havia a ideia de ter o 'Duro' a abrir, e a seguir o 'Alepo', que é como vamos tocar ao vivo, o pacote é assim.

Fora de palco, são pessoas muito discretas. O que gostam de fazer quando não estão a gravar ou a dar concertos?
G: É gritar e meter-me com as pessoas… (gargalhadas de todos)
K: Bricolage!
JC: Por acaso tenho lá umas coisas para arranjar… (risos)
K: Manda lá para casa!
T: Eu gosto de viajar e ir à praia.
JC: Também gosto de ir à praia. Ainda outro dia lá estive. Não foi a tomar banho, mas…
G: Eu só não gosto de ir ao doutor!

Viajar para o estrangeiro ou em Portugal?
T: Aqui. Para mim, o melhor mar é dos Açores. As praias nem tanto…

Insistiram em falar os quatro, na entrevista. Aos 40 anos, os Xutos ainda são uma democracia?
T: Uma democracia com direito a veto. Quando há alguma coisa que realmente não [queres fazer], não é não. Não vale a pena estar a [teimar], que vai sempre correr mal.

E qualquer pessoa pode exercer esse direito de veto?
T: Sim, e pela razão que lhe apetecer.

Em tempos o Tim disse, numa entrevista, que os Xutos não são eternos. Mas às vezes parecem...
T: O que queres que te diga? (risos)

Sentem-se revigorados para “atacar” esta nova fase? Depois de todo o carinho que receberam no ano passado?
T: Infelizmente, foi muito bom o ano que passou. Os concertos foram muito fixes, tocámos bem, as pessoas gostaram, fizemos o circuito bem...
K: Sem quebras. Com boa energia.
T: Na manhã seguinte, ao sair de cada terra com o João, havia sempre alguém mais novo ou mais velho que nos felicitava e dizia que tinha sido um grande concerto! Sentimo-nos bem. E agora vamos continuar. (sorrisos de todos)

“Duro”, o novo álbum dos Xutos & Pontapés, chega às lojas e às plataformas de streaming a 25 de janeiro. Nesse dia, tocam no Lisboa Ao Vivo. A 1 de fevereiro, estarão no Hard Club, no Porto.

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