Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Billy McFarland

Toda a verdade sobre o Fyre Festival, o festival de música de luxo que se tornou o maior fracasso da década

Documentário sobre aquele que era anunciado como “o maior evento da década” estreia esta sexta-feira no Netflix

“Viver como estrelas de cinema, festejar como estrelas de rock e f*der como estrelas de pornografia”. Este será, certamente, um grande sonho para muita gente e era a ele que brindavam o empresário Billy McFarland e o rapper Ja Rule, cofundadores do Fyre Festival, quando esse sonho ainda não tinha passado a pesadelo. O brinde foi feito em privado, no cenário paradisíaco das Bahamas, mas o momento pode ser visto no documentário da Netflix “Fyre”, que conta a história daquele que prometia ser “o maior evento da década” mas que acabou por se tornar um gigantesco fracasso, levando McFarland a ser condenado por fraude.

Realizado pelo documentarista Chris Smith, responsável por “American Movie” (1999), o filme começa a relatar os acontecimentos cinco meses antes da realização do festival – que estava agendado para dois fins de semana em abril e maio de 2017 – e arranca com a apresentação do site e aplicação que estiveram na génese do evento: a Fyre, fundamentalmente uma empresa de booking, que tinha como objetivo tornar a contratação de artistas mais fácil e acessível. Na Web Summit de novembro de 2016, ano em que se realizou pela primeira vez em Lisboa, Rule e McFarland explicaram a ideia por trás da aplicação mas não chegam a referir o festival… até porque, aparentemente, nem era ainda algo que estivesse completamente certo… Numa reunião, durante a qual foram discutidas formas de promoção da nova plataforma, o diretor criativo MDavid Low sugeriu a realização de um concerto para profissionais da indústria e isso automaticamente se tornou, na cabeça de McFarland, e “de forma bastante dramática”, segundo Low, no Fyre Festival.

Claro que, nesses momentos iniciais do filme, já pensamos “será possível, com apenas cinco meses pela frente, começar do nada e montar um festival de luxo?”. 97 minutos depois, chegamos à conclusão que não. Pelo menos não com alguém como Billy McFarland, a quem pessoas que com ele conviveram chamam de “mentiroso compulsivo” ou “sociopata operacional”, a segurar no leme. Aquilo a que assistimos de seguida é, basicamente, o desenrolar dos acontecimentos, o rolar de uma ideia potencialmente vencedora para um gigantesco precipício. No fim, ficamos sem grandes explicações para o fracasso: apenas que a visão de uma pessoa gananciosa e umbiguista, com ideias megalómanas, arrastou consigo colegas de trabalho e parceiros de negócios aparentemente inteligentes, ficou a dever muito dinheiro a colaboradores e investidores e ludibriou e roubou, não há palavra mais indicada, milhares de pessoas que compraram bilhetes para algo que não só não era o que tinha sido prometido como nem chegou a acontecer.

Bem sucedido na tarefa de levar o espectador para dentro da ação, com a ajuda daquilo que parecem ter sido centenas de horas de filmagem “in loco” do "desastre" a acontecer, com alguns dos principais protagonistas – exceto, claro, Rule e McFarland – a prestarem declarações e a darem a sua visão dos acontecimentos, “Fyre” nem teria muito a ganhar se tivesse conseguido chegar à fala com McFarland (já Rule, é outra história), coisa que um outro documentário, estreado na plataforma Hulu quatro dias antes de "Fyre" chegar à Netflix, conseguiu (pagando, supostamente, ao empresário pelas suas palavras). As únicas declarações que ouvimos dele aqui, depois de a bomba rebentar, limitam-se a respostas evasivas a jornalistas que o abordam na rua para perguntar se está arrependido: “obrigado, farei comentários mais tarde”.

Ja Rule e Billy McFarland

Ja Rule e Billy McFarland

“Um nerd mas um empresário esperto”, “era muito carismático e confiável”, “tinha uma visão e parecia saber mover-se junto de investidores e criar equipas”… Estes testemunhos de pessoas próximas do projeto, que participam em “Fyre”, algumas confessando que McFarland centrava em si tudo o que fosse gestão de verbas, chocam com aquilo que se veio a saber mais tarde: que o projeto era “vendido” aos investidores como uma aposta certa, que estaria a gerar muito interesse e muito dinheiro, e estava assente em mentiras como “temos o Drake no cartaz” (nunca o rapper canadiano foi contratado). Quando os bilhetes foram colocados à venda, na verdade, ainda não havia nomes de maior monta confirmados: os anúncios de Major Lazer, Disclosure e Blink-182, os três projetos mais conhecidos a integrarem o cartaz, só seriam revelados posteriormente.

O Fyre Festival pode ter sido um grande flop, mas a forma como tudo se processou parece bem representativa desta era de redes sociais: o evento foi lançado, com grande pompa e circunstância e a ajuda de 400 dos maiores influenciadores mundiais (incluindo as modelos Kendal Jenner, Bella Hadid e Hailey Baldwin e a atriz Emily Ratajkowski), no Instagram. A ideia era, em abono da verdade, genial: no dia 12 de dezembro de 2016, essas centenas de personalidades fizeram um convite aos seus seguidores, partilhando um quadrado cor de laranja nos seus perfis e deixando um link para um vídeo onde várias modelos se passeavam numa ilha paradisíaca das Bahamas. Os bilhetes voaram em pouco tempo e o festival esgotou, com as pessoas a deixarem-se entusiasmar pela promessa de atividades tão diversas quanto yoga na praia, trampolins dentro de água, passeios de iate, comida feita por chefs de renome ou até uma caça ao tesouro na ilha.

A chegada do público às Bahamas

A chegada do público às Bahamas

As tendas - e não as "villas" que lhes tinham sido prometidas - que encontraram

As tendas - e não as "villas" que lhes tinham sido prometidas - que encontraram

Foi também nas redes sociais que o festival morreu, meses depois, com as primeiras pessoas a chegarem ao recinto – desviado para uma ilha que não aquela, paradisíaca, que tinham visto no vídeo e que, erroneamente, havia sido apresentada como a “antiga ilha de Pablo Escobar” – a partilharem aquilo que encontraram, já depois de os Blink-182 cancelarem a sua atuação: tendas sem eletricidade, que tinham servido para albergar vítimas do furacão Matthew, colchões encharcados devido à chuva que se fizera sentir na noite anterior e um jantar que consistia em duas fatias de pão de forma com queijo e uma salada a acompanhar. “Corremos um grande risco aqui e falhámos”, disse McFarland depois de anunciado o cancelamento do festival. Em outubro passado, foi sentenciado a seis anos de prisão e nunca mais poderá exercer cargos de direção numa empresa.

O poder de uma imagem: o Fyre Festival acabaria por ser cancelado depois de um post onde se via o jantar servido no recinto

O poder de uma imagem: o Fyre Festival acabaria por ser cancelado depois de um post onde se via o jantar servido no recinto

"Fyre" pode não ser um documentário brilhante, o enredo parece demasiado surreal para algo que efetivamente aconteceu e a ausência de Ja Rule nunca é verdadeiramente explicada - ficamos apenas a saber, no fim, que criou com o diretor criativo MDavid Low uma outra plataforma de booking de talento chamada ICONN -, mas torna-se impossível desviar o olhar à medida que as situações se desenrolam. A dado momento, quando percebemos que a teimosia e falta de noção de McFarland embate de frente contra todos os avisos que lhe foram feitos ao longo dos meses, chegamos a sentir vergonha alheia, como quando assistimos a um daqueles vídeos que sabemos que vai terminar numa queda aparatosa (e dolorosa).