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MANUEL FERNANDO ARAUJO

Os fãs perguntaram a Nick Cave se ele acredita em Deus e Nick Cave respondeu

Nick Cave continua a responder às dúvidas dos fãs. Desta vez, dúvidas teológicas

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Continuando a responder a perguntas enviadas pelos fãs, Nick Cave abordou, na sua 11ª epístola aos seguidores, três questões sobre Deus.

Há décadas que ando às voltas da ideia de Deus. Tem sido uma viagem lenta, em torno da periferia de Sua Majestade, de caneta na mão, tentando trazê-lo à vida pela escrita. Por vezes, julgo que quase consegui. Quanto mais me mostro disponível para abrir a minha mente ao desconhecido, a minha imaginação ao impossível e o meu coração à noção de divino, mais Deus parece possível. Acredito que temos aquilo em que estamos dispostos a acreditar e que a nossa experiência do mundo se estende exatamente até aos limites do nosso interesse e da nossa crença. Interessa-me a ideia de possibilidade e de incerteza. Pela sua própria natureza, a possibilidade vai além dos factos provados e a incerteza leva-nos mais além. Tento ver o mundo com uma mente aberta e curiosa, insistindo sempre na liberdade de olhar para além daquilo que pensamos que conhecemos”.

“Será que Deus existe? Não tenho provas nem de uma coisa nem de outra, mas não sei se essa é a pergunta certa. Para mim, a pergunta certa é: o que significa acreditar? Na verdade, acho impossível não acreditar ou pelo menos não me envolver na demanda de tal coisa, o que de certa forma é a mesma coisa. A minha vida é dominada pela noção de Deus, pela sua presença ou pela sua ausência. Sou um crente - na presença e na ausência de Deus. Sou crente na demanda, mais do que no resultado da mesma. Como consequência desta crença, as minhas canções são perguntas e raramente respostas”.

“Com todo o respeito, não tenho estômago para o ateísmo e para a sua insistência naquilo que já conhecemos. Para mim, isso é um beco sem saída; não me serve de nada e é mau para o negócio da escrita. Partilho com os ateus muitos dos problemas que eles têm com a religião - o dogma, o extremismo, a hipocrisia (...) - só não comungo da certeza, muitas vezes arrogante, que acompanha a ideia de que Deus não existe. Não faz parte da minha natureza. Para o bem e para o mal, tenho uma predisposição para o pensamento perverso e contraditório. Talvez isto seja uma maldição, mas a ideia de incerteza, de não saber, é o motor criativo de tudo o que faço. É possível que esteja a viver uma ilusão, mas é uma ilusão que melhora muito a minha vida, criativamente e não só”.

Então, acredito ou não em Deus? Bem, comporto-me como se acreditasse, para o meu bem. Será que Deus existe? Talvez, não sei. De momento, Deus é um trabalho em curso”, remata Nick Cave.

Leia aqui a resposta no original.

Nick Cave deu no NOS Primavera Sound um dos nossos concertos favoritos de 2018. Recorde aqui.