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Tim Bernardes, revelação brasileira hoje no Super Bock em Stock: “As pessoas dizem-me: parece que você fez o disco pensando na minha vida”

Em 2017, lançou um álbum que já é um clássico da nova música brasileira. Hoje, regressa a Portugal, onde em junho deu quatro concertos esgotados, para uma atuação no Super Bock em Stock. A BLITZ falou com Tim Bernardes sobre música, Bolsonaro e muito mais

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Letras emotivas, escritas pelo autor “no quarto, no silêncio da noite”; uma sonoridade sem tempo e uma voz de comovente intensidade, que não é disparate comparar à do cometa Jeff Buckley: nascido em São Paulo há 27 anos, Tim Bernardes começou por se destacar à frente da banda indie O Terno, mas foi com a estreia a solo, “Recomeçar”, que conquistou o público português. Depois de quatro concertos esgotados, em Lisboa, Espinho e Setúbal, em junho, o brasileiro regressa a Portugal para, este sábado, tocar no Super Bock em Stock. É no Tivoli, às 20h30, e dificilmente não será bonito. Antes do concerto, falámos com ele.

Tim Bernardes é também o frontman da banda indie O Terno

Tim Bernardes é também o frontman da banda indie O Terno

Em junho, deu quatro concertos em Portugal. As salas esgotaram e o público acompanhou as letras com emoção. Ficou feliz com uma receção dessas, do outro lado do Atlântico?
Muito feliz, porque desde a primeira vez que vim a Lisboa, com a minha banda, O Terno, gostei muito da cidade e senti muita identificação. Há essa coisa de as pessoas poderem entender a letra, por falarem a mesma língua. No Brasil, eu sabia que ia chegar a uma cidade nova e que algumas pessoas conheceriam o meu disco. Mas fora do meu país, não imaginei que fosse ter uma receção como se estivesse lá. As pessoas sabiam as músicas, os concertos esgotaram, foi ótimo.

Que tipo de coisa lhe dizem os fãs do disco? Que se identificam com as letras?
Neste disco, muito! Há uma identificação com as letras, uma identificação na solidão. “Parece que você fez o disco pensando na minha vida”, é o que me dizem. Ou contam-me histórias bonitas, como: “estava a passar por uma situação difícil na minha vida, ou pelo término de um namoro, e o seu álbum embalou-me ou ajudou-me”. Este disco é especialmente emotivo e toca as pessoas nesse lugar.

Escreveu e canta todas as canções. Também toca todos os instrumentos?
Gravei a maior parte dos instrumentos sozinho. Gravei piano, guitarra, violão, baixo, bateria, metalofone, montes de coisinhas. As vozes, os coros. E depois chamei os músicos, que são meus amigos e muito talentosos, para gravarem os arranjos mais orquestrais que eu tinha feito: para violino, harpa, trombone, eufónio, saxofone…

Com que idade começou a aprender música?
Comecei com 6 anos. Já gostava de música desde bebé. Os meus pais perceberam e puseram-me nas aulas de música. Acabei por especializar-me em guitarra e violão, mas sempre gostei de tocar um pouco de tudo.

Tem algum instrumento favorito?
De certa forma, a guitarra, porque é a que eu mais desenvolvi. É o centro, o instrumento que eu usei para estudar música. Aquele que mais conheço e no qual tenho mais recursos. Mas gosto muito de bateria, piano, baixo… gosto de tudo! Mas a guitarra é a minha condutora.

E é à guitarra que costuma compor? Ou no piano?
Varia! Muitas vezes escrevo sem nada, sem instrumento; gosto de escrever cantando! Afinal, a voz é o instrumento em que me descobri como cantor, e que talvez seja anterior até à guitarra, no sentido de imaginar algo e conseguir reproduzi-lo sem ter uma teoria à minha frente. A voz é o mais intuitivo: parece que estamos a cantar o que sentimos ou pensamos.

E tem também gosto e facilidade em escrever letras?
Isso surgiu com o tempo, porque a facilidade com a música veio antes e eu sentia que, se fizesse uma música legal, não adiantaria escrever uma letra que fosse mais ou menos. Foi mais empírico, o caminho com a letra, porque não é tanto uma coisa que se estude, mas sim uma expressão muito pessoal, autoral. Mas venho descobrindo uma identidade minha e gosto de experimentar, fazer coisas diferentes. A parte da letra, de compor, é um mistério constante.

Não sabe bem de onde vem?
Há muito a parte de organizar o que estou a pensar e sentir, de deixar as coisas claras e sintetizá-las de maneira comunicativa e bonita. A busca é por aí. [As ideias] podem vir de qualquer coisa, fico sempre atento ao que me poderia despertar o interesse.

Fica atento às conversas dos outros, por exemplos?
Muitas vezes é uma coisa bem interna. Gosto de fazer sozinho, no meu canto, e ir imaginando. Na música, gosto de poder imaginar uma coisa que não existe e ir construindo até ela passar a existir.

Muitas pessoas ficam espantadas com a maturidade de muitas das suas letras, incluindo as primeiras da sua banda, O Terno, escritas ainda na sua adolescência. Sempre sentiu essa facilidade em chegar às pessoas?
Sempre me liguei muito em comunicar, em chegar às pessoas. Se estou a sentir algo, quero expressar isso a alguém, e não simplesmente falar sobre isso. Eu gosto de comunicação. Por isso é que gosto muito de música pop. Temos o experimentalismo, a melodia, a beleza, o que é maluco, a criatividade, mas em prol de comunicar, de falar com as pessoas. Sempre procurei isso. Mas as minhas primeiras composições foram muito tentativas, e sempre com muita autocrítica! Sempre que não achava legal, jogava fora. Não faço muitas músicas. Só engato a fazer uma quando sinto que ela está a falar comigo.

Há muitos cantores e compositores com que se identifique?
Músicos e cantores, muitos. Compositores, durante muito tempo não pensava nisso. Como se compusesse as coisas na minha cabeça, de uma maneira inconsciente e intuitiva. O que era mais consciente eram as melodias, as harmonias -- aí é que pensava “gosto daquele autor”, ou do tipo de sonoridade ou da bateria de certo disco… Formei-me ouvindo muito os Mutantes, uma banda do tropicalismo dos anos 60 no Brasil, e muito Beatles. Esse tipo de música que é muito viva, muito livre, experimental e criativa, mas também é muito popular, é para todos. Também gosto muito do Caetano Veloso. E gosto de entender o meu contexto musical e estético, conversando com aqueles por quem me interesso, hoje, no indie, seja Fleet Foxes ou Mac DeMarco. E gosto muito de música antiga: a melodia no samba, como [na obra de] Cartola, Dorival Caymmi, coisas realmente melodiosas. E de standards… não me interesso pela parte careta, mas pela beleza das melodias. Henry Mancini, coisas assim.

Vive em São Paulo. Como está o ambiente na sua cidade, desde as eleições presidenciais?
Agora as coisas parecem ter acalmado um pouco. O ambiente é mais de receio e atenção ao que vai ser o novo governo a partir de janeiro. Mas durante as eleições o clima estava muito polarizado e à flor da pele, como claques de futebol nas ruas, de grandes rivais! Já há algum tempo que o país está numa crise tanto económica como política, as instituições estão muito enfraquecidas e a população deseja uma grande mudança e está muito frustrada. Só que uma parte acredita que a mudança vai ser por um lado e uma parte pensa que a outra está arruinando tudo, por escolher outra coisa. Além disso, há o fator alarmante de o Presidente eleito, Jair Bolsonaro, ter ideias muito polémicas e radicais, de teor conservador. Ideias muito próximas do fascismo, de um militar que não está preocupado com as minorias e com a diversidade, que é uma marca do Brasil. Quer armar a população… As pessoas perguntam-se: será que ele vai pôr estas ideias em prática? Porque as coisas que ele diz são bem absurdas, vocês devem ver aqui. E a sua oposição, no segundo turno, foi o Fernando Haddad, um candidato muito bacana de um partido, o PT, que tem princípios bacanas mas que já há algum tempo se está a desmoralizar, por escândalos de corrupção. E a imprensa [amplia] isso e criou-se a imagem de que o PT é a única fonte de corrupção no país. Então, as pessoas topam votar em alguém com ideias fascistas porque o pior de tudo seria o PT. Foi uma pena a eleição [desenrolar-se] entre estes extremos; agora é entender como vai ser. [Bolsonaro] foi eleito democraticamente, vamos ficar atentos e torcer para que o mandato seja cumprido democraticamente, sem ferir nada de democracia ou dos direitos humanos, que pelo que ele diz às vezes parecem estar ameaçados.

O ano está quase a acabar. Quais os seus planos para 2019: escrever canções novas, dar mais concertos?
Depois de eu gravar o “Recomeçar”, fiquei sem canções. Gravei todas as que tinha. Entretanto compus uma nova leva que tem uma unidade e que será o novo disco dos Terno. Já estamos em estúdio a misturar essas músicas, e o disco vai sair no próximo ano. Vou lançar esse disco de Terno, continuo a dar concertos do “Recomeçar”, mas em menos quantidade, e paralelamente tenho músicas que sinto que vão formar um próximo disco a solo. Quando, ainda não visualizo bem.

O “Recomeçar” tocou muita gente de forma íntima. Ainda continua a receber convites para tocar o disco ao vivo...
Sim. E acho que o concerto é uma outra experiência. Embora sejam as mesmas músicas, tento fazer uma coisa ainda mais íntima e crua, [próxima] das canções como elas foram compostas: no silêncio, à noite, no quarto. Nos concertos não há a orquestração do disco, mas está mais forte a parte da solidão, e tem funcionado muito bem. É um show de compositor, que faz sentido continuar.

Em junho tocou uma versão de Jards Macalé, muito intensa...
Sim, a 'Soluços'. Senti que casava com o repertório e é uma música forte, bonita, que me emocionou muito quando eu a vi pela primeira vez, ao vivo. Conheci-a assim, com o Jards Macalé a cantá-la num concerto, nem sequer tinha ouvido a gravação. Tocou-me de maneira forte e senti que lhe diria as coisas que as pessoas me dizem: que me pegou, que não consegui conter a emoção. Quis fazer uma versão, que ficou no repertório do meu concerto.

Em junho usei a comparação a Jeff Buckley para convencer alguém a ir ver o seu concerto. É uma voz de que gosta?
Gosto muito da sua forma de cantar. É curioso, porque depois de lançar o disco as pessoas vieram dizer-me isso, e eu fui ouvir mais ainda. Já conhecia o “Grace”, que é muito lindo e [mostra] o jeito marcante de ele cantar, com uma voz muito impressionante, muito angelical e muito limpa. Mas consegui mergulhar mais quando me mostraram um disco gravado num café, “Live at Sin-é”. Aí identifiquei-me muito: um concerto de guitarra e voz, onde a voz tem um protagonismo total, e prende o nosso interesse, não fica a faltar nada. É mais legal do que com a banda, eu acho. Fico lisonjeado com a comparação, porque ele é da pesada!

Tim Bernardes atua hoje no Tivoli, em Lisboa, às 20h30, no âmbito do festival Super Bock em Stock.