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Aretha Franklin: um talento maior do que a vida, uma voz maior do que a história

Uma vida de permanente consagração. Aretha Louise Franklin merece todo o respeito por que clamou

No princípio era o Verbo, o mesmo que Aretha, nascida em Memphis em 1942, escutava vindo da voz do seu pai, Clarence Franklin, um pastor itinerante que se tornou uma celebridade através da força dos seus sermões - chegou, por exemplo, a acolher Martin Luther King em sua casa. E do Verbo fez-se Aretha Franklin, que começou a cantar na Igreja Batista de New Bethel, onde os seus talentos não passaram despercebidos, logo após a morte da mãe, em 1952. Poucos anos mais tarde, o seu pai acabaria por levá-la numa “digressão” por várias igrejas dos Estados Unidos, e aos 14 anos gravaria o seu primeiro álbum, “Songs of Faith”, tendo Deus ainda no comando.

Mas seria uma outra força a puxá-la: a da pop, em especial aquela entoada por Sam Cooke, a sua maior influência – e paixoneta – durante os primeiros passos da carreira. Uma pop cheia de alma, ou soul, como se preferir. E que a Columbia Records, “casa” para artistas como Miles Davis, Dave Brubeck, Johnny Cash, Tony Bennett e Doris Day estava mais que interessada em vender, recrutando a jovem Aretha em 1960 após ouvir uma maqueta com apenas dois temas. Em setembro desse mesmo ano, 'Today I Sing The Blues' assinalava o nascimento de uma estrela.

Porque Aretha Franklin foi-o, de facto, reluzindo tão alto como qualquer outra, apoiada numa sucessão de excelentes singles – 'Operation Heartbreak', 'One Step Ahead', 'You Made Me Love You' – e outros tantos álbuns. Mas o melhor estava ainda para vir, o momento em que a cantora deixa de ser uma estrela para passar a ser um ícone, um nome indispensável na história da música pop, uma figura digna de panteão. Em 1966, Aretha deixou a Columbia e assinou pela Atlantic, e apenas um ano depois gravou e editou a canção que a catapultaria definitivamente: 'Respect', tema de Otis Redding imortalizado pela voz da sua conterrânea. Porque não era (apenas) uma excelente canção; era um símbolo das lutas feministas e pelos direitos civis dos negros na América, em década de profundas transformações sociais e políticas.

'Respect' chegou ao número um das tabelas de vendas, e foi a chave para o tesouro que é Aretha. Seguiram-se outros tantos temas e álbuns de sucesso, como “I Never Loved a Man the Way I Love You”, o seu primeiro pela Atlantic – e que chegou a disco de ouro. Tudo isto enquanto encontrava espaço para ser mãe (foi-o pela primeira vez aos 12 anos, e pela segunda aos 14, tendo ainda outros dois filhos nascidos em 1964 e 1970), mulher (casou aos 19 anos com Theodore White, divorciando-se em 1969 após um complicado processo de divórcio, com violência doméstica à mistura) e... magra (uma dieta “invulgar” fez com que a cantora perdesse 18kg de uma assentada).

A primeira metade da década de 70 continuou a ser de sucesso para Aretha Franklin, pela vitalidade de singles como 'Spanish Harlem' e álbuns como “Amazing Grace”, um tratado gospel que vendeu mais de dois milhões de cópias e rendeu à cantora um Grammy para Melhor Performance Soul/Gospel em 1973. Mas, após gravar “Hey Now Hey” com Quincy Jones, tudo começou a desmoronar-se; em 1979, a Atlantic diria adeus a Aretha, e vice-versa.

O renascer de Aretha dar-se-ia com a ajuda preciosa de uma juventude que se fez adulta a escutá-la. Em 1985, 'I Knew You Were Waiting For Me' tornou-se num êxito à escala planetária; acompanhou-a, em dueto, um cantor britânico de seu nome George Michael. 'A Deeper Love', em 1993, fê-la entrar pela porta da música eletrónica de dança. E, em 1998, Lauryn Hill produziu 'A Rose Is Still A Rose', uma das suas canções mais conhecidas pós-'Respect'.

Mas estes eram já tempos em que Aretha não precisava de produzir para ser célebre; há muito que o era, há muito que já havia lançado as bases para inúmeros cantores que se lhe seguiram, e que a têm como exemplo. Pelo que as suas atuações na SuperBowl, em 2006, e na cerimónia de tomada de posse de Barack Obama, em 2009, não mais foram que uma mera adenda a uma carreira que é sinónimo, toda ela, de consagração. No ano passado, a norte-americana anunciou a sua “reforma”, 56 anos depois de ter começado a cantar para o mundo; fica ainda por lançar um novo álbum, produzido por Stevie Wonder, conforme revelado na mesma altura. Ela pode tê-lo cantado, mas ninguém mereceu tanto respeito quanto Aretha Franklin.