Pearl Jam no NOS Alive: era uma vez uma banda com um grande coração
15.07.2018 às 3h17
Dizer que os Pearl Jam são da casa é, por esta altura, um eufemismo. No seu terceiro concerto neste festival, a banda de Seattle veio dar um abraço à família - os seus fãs. E Eddie Vedder trouxe as cábulas em português e o amigo Jack White
Parece-nos ter sido anteontem, mas o último concerto dos Pearl Jam em Portugal, antes do desta noite, aconteceu já há oito anos. Neste mesmo festival, os rapazes de Seattle tinham, na altura, seduzido a multidão de fãs que invariavelmente os seguem, e neste sábado o feitiço, guarnecido com uns pozinhos de saudade, voltou a dar-se. Último dia de festival, penúltimo concerto do serão e muita coisa já nos passou pela cabeça, nomeadamente - será que ainda há bandas que mereçam o respeito, ou o silêncio, de uma grande multidão? Quando, com as suas cábulas e uma garrafa de vinho, Eddie Vedder entra em palco, desfazem-se as dúvidas: os Pearl Jam são essa banda.
Com toda a atividade no recinto em suspenso - não houve outros concertos à hora do dos Pearl Jam -, os veteranos apresentaram-se perante uma multidão digna de um concerto de estádio. Com um atraso de 15 minutos, começaram a tocar no preciso momento em que, ao nosso lado, um espectador exclamou um alarmado "despachem-se que eu vou perder o autocarro para o Alegro!". Mas não houve nada de urgente neste arranque, ao som delicado de 'Low Light', do álbum "Yield" (1997), e de 'Better Man'. Quando a balada de "Vitalogy" (1994) se começou a materializar junto ao rio, o coro dos fãs antecipou-se à própria voz de Eddie Vedder, sozinho com a guitarra elétrica, quase como num dos seus concertos em nome próprio. Começou assim sereno e melodioso, o oitavo concerto dos Pearl Jam em Portugal, com Eddie no papel de bom capitão, rompendo pelo nevoeiro (apenas metafórico, a noite está amena) com a sua voz de muitas luas.
Mas a noite reservaria muitos outros registos, que os Pearl Jam encarnam sem perda de intensidade. Nos regressos ao passado mais remoto - 'Corduroy', 'Even Flow', 'Daughter', 'Jeremy' -, público e banda são um só, num coro de braços no ar e corações ao alto; 'Mind Your Manners' e 'Do The Evolution' retratam com fervor a vertente mais punk da banda; 'Given To Fly' e 'Unthought Know' são canções cheias de ar no peito e vistas largas. Em todo o concerto, além da óbvia rodagem da banda, ressalta a sua honestidade emocional e a forma notável como, com um catálogo tão rico e tão próximo do classic rock, conseguem não cair no saudosismo do "legacy act".
Com o jogo ganho desde o apito inicial, os Pearl Jam não facilitam, e é assim que se constroem carreiras. Se fosse um sacramento católico, este concerto seria não um batismo, nem uma comunhão, mas sim a confirmação (vulgo crisma) - a devoção entre público e banda circula nos dois sentidos e é, também, prova de que, praticando um som de certa forma intemporal, os grandes cabeças de cartaz desta noite conseguiram envelhecer graciosamente (ao contrário, por exemplo, dos Alice in Chains, cujo concerto esta tarde soou algo anacrónico).
Na reta final, Eddie Vedder alternou entre os discursos políticos que antecederam 'Can't Deny Me', dedicada "às mulheres e aos homens que as apoiam", e a emoção derramada em 'Black' ("Olha que ela vai chorar!", troça um homem ao nosso lado, fingindo não estar ele próprio comovido). E ao som do clássico de 1991 o Passeio Marítimo de Algés ouviu um dos mais arrepiantes coros dos últimos anos, com aquele "whyyyyyy can't it be mine" a rimar com milhares de corações outrora partidos.
Não sabemos se o fã do início do concerto conseguiu apanhar o autocarro para o Alegro, mas o encore ainda se prolongaria por cinco temas e algumas surpresas bem gostosas: às versões de 'Imagine', de John Lennon, cantada em uníssono pelo público, e de 'Comfortably Numb', dos Pink Floyd, juntaram-se 'Porch' e, naturalmente, 'Alive' - à qual Eddie Vedder, um autêntico dínamo em palco, se atirou com a pujança dos seus verdes anos, lembrando-nos a forma como Trent Reznor, que curiosamente tem a mesma idade, não acusou cansaço ou enfado no regresso aos seus temas obrigatórios. Ambos os cinquentões se entregam ao momento sem reservas, independentemente de já os terem vivido e oferecido milhares de vezes, e é (também) isso que distingue os homens dos meninos.
Quando muitos dos fãs dariam já o concerto por arrumado, uma derradeira surpresa animou os presentes: Jack White, que terá assistido ao concerto em palco (foi filmado quando os Pearl Jam passaram por 'Seven Nation Army', num dos seus improvisos), foi chamado a juntar-se à banda e tocou guitarra em 'Rockin' in the Free World', o clássico de Neil Young que os Pearl Jam já fizeram um pouquinho seu. Último dia de festival, penúltimo concerto do serão e ainda nos conseguimos emocionar. Em palco, os Pearl Jam com uma frescura que ainda impressiona e Jack White, um dos grandes do rock do novo milénio, dando tudo numa homenagem ao imortal Neil Young, que já agraciou este mesmo palco, através de um tema que é um hino & um manifesto de vida. "Escribe: amazing", ditou-nos o fã de Vigo que nos viu tomar notas. Está escrito.