O 'circo' rock and roll dos KISS em Oeiras: uma noite para recordar depois de um início para esquecer
11.07.2018 às 12h01
À segunda música, o som desequilibrado, as deficiências técnicas e um arranque constrangedor faziam prever o pior. Mas a banda norte-americana conseguiu dar a volta ao jogo e transformou o seu segundo concerto em Portugal num triunfo pleno de fumo, pirotecnia, aspetos cénicos impressionantes e rock and roll no máximo
Mais de quatro décadas depois de terem lançado o seu álbum de estreia, já não há como negar que os KISS são uma das mais famosas (e bem sucedidas) bandas de rock'n'roll de todos os tempos. A par do conterrâneo Alice Cooper, os músicos nova-iorquinos criaram a resposta americana ao fenómeno glam e, misturando elementos de pop açucarada com riffs pegajosos de hard rock e um grau sensacional de teatralidade, acabaram por afirmar-se como pioneiros do conceito de concerto de estádio como o conhecemos. Apostando numa, à altura, inovadora produção espetacular que se tornou num elemento básico do entretenimento musical, o quarteto liderado por Gene Simmons e Paul Stanley – que são, de há uns anos a esta parte, os dois únicos sobreviventes da formação original do grupo – estabeleceu-se como um fenómeno de massas que vai muito além das canções.
É sabido que, em Portugal, nunca gozaram da mesma popularidade que os transformou em heróis de B.D. nos Estados Unidos, na Escandinávia ou na vizinha Espanha. Só isso justifica o facto de se terem apresentado uma única vez cá, no entretanto desaparecido Pavilhão do Dramático de Cascais e naquele que foi dos primeiros concertos em que se apresentaram sem as suas características pinturas faciais. Pois bem, se nos anos 80 estavam a tentar reinventar-se, os KISS de 2018 são uma proposta substancialmente diferente; mais confortável com o lado kitsch da imagem e das canções, assumidamente nostálgica e pouco preocupada em escrever música nova – o facto de terem gravado dois álbuns nos últimos 18 anos serve para mostrar que a arte da composição desempenha um papel reduzido na sua atual estratégia. Mesmo assim, após uma longa ausência de 35 anos, a curiosidade era grande para sentir o pulso a estes veteranos.
Responsabilidade acrescida, portanto, para os Megadeth – que subiram a palco às 20:30 e tiveram a ingrata tarefa de aquecer os ânimos dos poucos presentes no recinto antes da atracão principal desta primeira noite de The Legends Of Rock, evento que termina esta quarta-feira com uma atuação dos Scorpions. Com muita gente presa numa interminável fila para entrar no Estádio Mário Wilson – o atraso na abertura de portas fez com que quem chegou depois das 20:00 tenha estado em média uns bons três quartos de hora à espera para passar a barragem de seguranças –, a banda de Dave Mustaine deu início à prestação. Com som pujante q.b. a ecoar dentro e fora do recinto, os músicos foram interpretando maioritariamente temas mais antigos, Kiko Loureiro mostrou-se como peixe na água a recriar alguns dos solos mais icónicos de Marty Friedman e os fiéis do thrash acolheram-nos com cantos de aprovação. O destaque da escorreita atuação de quase uma hora vai todo para a reta final, com a muito inteligente sequência composta por 'Symphony Of Destruction', 'Peace Sells' (que contou com a presença da mascote Vic Rattlehead em palco) e 'Holy Wars... The Punishment Due'. Mustaine, com a voz em muito melhor estado do que nos lembrávamos, não se cansou de elogiar o público nacional e, na despedida, largou o já habitual “You’ve been great, we’ve been Megadeth” antes de sair de palco sob uma chuva de aplausos.
Passam cinco minutos das dez da noite quando os KISS sobem, pelo seu próprio pé, a um palco que parece demasiado pequeno para comportar toda a extravagância que se espera da banda norte-americana. Paul Stanley solta um riff da sua guitarra, olha para Gene Simmons na ponta oposta do palco e... Nada. Uns segundos de constrangedor silêncio e ouve-se, por fim, “Alright, Lisbon... You wanted the best, you got the best! The hottest band in the world – KISS!”. Explosões, nuvens de fumo denso e os músicos dão início ao espetáculo com uma versão algo atabalhoada de 'Deuce'. O som desequilibrado, com muito baixo e bateria, mas pouca guitarra, mantém-se ao longo do segundo tema da noite, 'Shout It Out Loud', fazendo temer por instantes o pior. No entanto, mesmo com todas as probabilidades contra eles e tudo a indicar que esta seria uma noite para esquecer, os KISS usam toda a sua experiência para dar a volta ao jogo.
Stanley faz conversa com o público para ganhar uns minutos, a equipa técnica consegue por fim colocar o enorme ecrã que serve de pano de fundo ao palco a funcionar, o técnico equilibra o som e os músicos arrancam finalmente com uma 'War Machine' em pleno – som cheio, enormes chamas nos ecrãs e uma química inegável entre os quatro músicos. Chegamos ao final do terceiro tema do alinhamento e já temos Stanley a puxar pelo público, que corresponde em pleno, numa das manobras estratégicas habitualmente reservadas para a reta final de um concerto, mas que os KISS usam a cada oportunidade que têm para manter a energia tão alta quanto possível.
Sendo que o mercado do entretenimento rock'n'roll ao estilo de Las Vegas foi há muito maximizado e monetizado pelos próprios KISS, não é propriamente estranho que muitos dos presentes estivessem particularmente interessados no aspeto visual do espetáculo. E com uma certa razão, porque o que apresentaram neste regresso a solo luso revelou-se verdadeiramente impressionante. A produção de palco, apoiada em estruturas hidráulicas, arreios e cabos que lhes permitem sobrevoar parte da plateia, fumo, canhões de confettis, fogo de artifício, luz e pirotecnia a rodos, pode até parecer exagerada, mas assenta como uma luva neste contexto de rock com uma pitada de Grand Guignol. As sirenes no final de «Firehouse», da estreia homónima de 1974, antecedem o momento em que Gene cospe fogo. “Are you having a good time?”, pergunta Stanley, e – logo de seguida – Tommy Thayer canta uma ótima versão de «Shock Me» antes de arrancar com um solo que, verdade seja dita, foi mais uma desculpa para disparar três foguetes da guitarra que outra coisa qualquer. O público, esse, delira; entre o riso e a noção de que o rock também pode ser uma brincadeira de miúdos, «Say Yeah», «I Love It Loud», «Flaming Youth», «Calling Dr. Love» e «Lick It Up» são cantadas em uníssono (foram, afinal, escritas exatamente para isso) e recebidas com aplausos.
Convém dizer que, e isto não é segredo para ninguém, os KISS nunca foram propriamente os músicos mais talentosos do mundo. Também é verdade que alguns dos seus maiores êxitos não envelheceram assim tão bem, mas sempre lhes valeu dominarem a arte da pantomina (enfatizada pela maquilhagem e pelos figurinos) e terem a agudeza de espírito necessária para superarem as deficiências técnicas com espetáculos épicos de rock'n'roll – mais um dos conceitos que eles próprios ajudaram a inventar e cimentar. Talvez por isso, ninguém pareceu muito importado com algumas fragilidades gritantes, de que o melhor exemplo será mesmo o registo vocal de Paul Stanley. Quiçá ciente disso, o músico apostou no seu carisma e, dirigindo-se aos presentes a cada oportunidade, tudo fez para entreter a audiência. Muito à semelhança do comparsa Gene Simmons, o monstro/vilão perfeito para fazer par com a “dama” de Stanley. O baixista não parou de pisar o palco com as suas botas de plataforma e de exibir a sua capa morcego, acabando mesmo por protagonizar um dos momentos mais aplaudidos da noite quando, durante o seu solo, começou a cuspir 'sangue' da boca e 'voou' para uma plataforma onde cantou parte de 'God Of Thunder'.
Recebida com euforia por grande parte dos presentes, 'I Was Made For Loving You' deu início à última parte do concerto e, antes de atacarem 'Love Gun', Stanley 'voa' até à régie perante o delírio da plateia. É nessa mesma plataforma que interpreta também os primeiros acordes do último tema que antecede o encore, 'Black Diamond', juntando-se depois ao resto do grupo em palco sob uma chuva de aplausos. Por esta altura já se tinha tornado óbvio que muita da magia de um espetáculo dos KISS reside nos truques que usam, e que muitos desses truques são o que se espera de uma boys band atual, mas o que os destaca de toda a competição continua a ser a forma como fazem soar os seus instrumentos. No que às canções diz respeito, os músicos mostraram-se tão orgânicos quanto possível durante toda a noite e, durante as cerca de duas horas que estiveram em palco, foi como se nos tivessem metido numa máquina do tempo de volta aos anos 70. Isso tornou-se ainda mais óbvio durante o encore, composto por 'Cold Gin', uma enérgica 'Detroit Rock City' e o final apoteótico com 'Rock And Roll All Nite', que culminou com uma forte chuva de confetes e fogo de artifício a rodos.
Alinhamento
Deuce
Shout It Out Loud
War Machine
Firehouse
Shock Me
Say Yeah
I Love It Loud
Flaming Youth
Calling Dr. Love
Lick It Up
God of Thunder
I Was Made for Lovin' You
Love Gun
Black Diamond
Encore
Cold Gin
Detroit Rock City
Rock and Roll All Nite
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