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Lily Allen

Sem papas na língua, Lily Allen fala-nos de quando tentou ser Miley Cyrus, do “ambiente horrível” do pós-Brexit e do novo “No Shame”

Em entrevista à BLITZ, a artista britânica queixou-se da invasão de privacidade dos tabloides britânicos. E falou também sobre a amizade que mantém com Mark Ronson e da falta de impacto que o movimento #MeToo tem no mundo da música

Depois de quatro anos sem música nova, Lily Allen regressou recentemente aos álbuns com “No Shame”, prometendo, também, para breve uma autobiografia que garante ser “chocante e brutal”. Em entrevista à BLITZ, a artista britânica falou sobre as novas canções, mas também do contraste entre este novo disco e o antecessor, “Sheezus”, de 2014, no qual assume ter tentado “ser a Miley Cyrus”. Sem vergonha nem papas na língua, Allen discorre também sobre a influência que a maternidade e o final do seu casamento tiveram nas canções de “No Shame” e assuntos como o Reino Unido pós-Brexit, a relação de amizade que mantém com Mark Ronson – com quem trabalhou no primeiro álbum e que voltou agora a chamar para produzir alguns dos novos temas –, o movimento #MeToo e a perseguição de que diz ser alvo por parte dos tabloides britânicos.

Este novo álbum chama-se “No Shame” porque nunca teve vergonha de nada ou porque desenvolveu essa capacidade recentemente?
É mais a segunda hipótese. Acho que desenvolvi essa capacidade… Sou alvo do escrutínio dos tabloides aqui no Reino Unido e mesmo que não diga nada as pessoas escrevem histórias sobre os detalhes mais íntimos da minha vida, geralmente de uma forma que não corresponde à verdade. Este álbum fala sobre isso mesmo. Quero reescrever e reivindicar a minha narrativa, tanto as partes boas como as más fases. Não é, portanto, um retrato polido e perfeito da minha vida, até penso que é difícil de ouvir em certos momentos

E aproveitou a oportunidade, com este álbum, para se livrar de algum peso que tem nos ombros?
Sim! A música sempre representou isso para mim. Sinto-me uma privilegiada por ter a oportunidade de ir para estúdio fazer música. É uma espécie de escape, uma forma de conseguir deitar cá para fora as dificuldades e as coisas boas que me acontecem na vida.

Quão ligadas estão estas canções à autobiografia que se prepara para publicar?
As duas coisas surgiram mais ou menos na mesma altura, mas já tinha muito do álbum feito quando comecei a escrever o livro. Estão relacionados em certas partes, mas o livro cobre os últimos 15 anos e este álbum apenas os últimos quatro.

A capa de "No Shame", novo álbum de Lily Allen

A capa de "No Shame", novo álbum de Lily Allen

Além de escrever sobre a sua “codependência” e outras lutas internas, diz que quis escrever sobre andar em frente com a sua vida. Este álbum e este livro são uma parte importante desse processo?
Sim, diria que sim. Foram uns quatro anos duros e difíceis. O meu casamento a desintegrar-se e a terminar, ter duas crianças pequenas que não se vão lembrar deste período da vida delas quando forem mais crescidas… Pensei que seria bom documentar tudo para que elas saibam o que se passou. Prefiro que ouçam a música e não descubram o que a mãe andou a fazer através do Google. É importante deixar-lhes ali o que se passou verdadeiramente.

Quatro anos sem editar um novo álbum pareceu-lhe demasiado tempo?
Senti um bocadinho isso, sim. Depois do meu último álbum, foi como se tivéssemos entrado numa nova era. A música que vemos agora no mainstream reflete a forma como as pessoas estão a consumir música… São tempos interessantes, sem dúvida.

Disse algo que me parece importante quando olhamos para a forma como as coisas se passam neste momento na indústria musical: “a música, para mim, é partilhar coisas que esperamos que criem uma ligação com as pessoas e não algoritmos”. Como vê estas transformações todas na era das redes sociais e dos serviços de streaming, tendo em conta que foi um dos primeiros “produtos” do início de tudo isto, no MySpace?
Sinto que sou uma espécie de exemplo do lado mais autêntico da Internet. Sempre quis apresentar o meu verdadeiro eu e “Sheezus” provou bem o que acontece quando tento fugir da minha autenticidade. Foi um desastre quer a nível pessoal quer a nível comercial. É difícil fingir o que quer que seja na Internet. E isso é interessante. O que acontece nos tops de vendas, neste momento, torna muito óbvio quem são os músicos e os não músicos. É muito óbvio, para mim, quem está a fazer música para o Spotify… As pessoas estão a habituar-se a consumir música desta nova forma [através dos serviços de streaming] e haverá sempre quem tente aproveitar-se e controlar as coisas. Armam-se em espertos em vez de tentarem apenas oferecer um bom produto. Mas é assim que funciona o capitalismo, não é?

Parecia andar um pouco perdida em “Sheezus”… Estava a tentar reencontrar a sua voz, a tentar encontrar-se enquanto artista?
Não penso que estivesse a tentar encontrar a minha voz, só queria passar nas rádios, aparecer nas revistas e ser bem-sucedida, portanto fiz aquilo que pensei ser necessário para atingir tudo isso. E acabei por me esquecer que as pessoas gostam mesmo é de mim e da minha música. Não estava muito parecida comigo naquele álbum e parecia que estava a tentar ser a Miley Cyrus ou outra pessoa qualquer… Não sei. Foi uma coisa estranha… A equipa de pessoas que tinha à minha volta tentou empurrar-me para algo mais polido do que deveria ter sido. Acho que foi o marketing, mais do que qualquer outra coisa. Mas sabe que mais? Foi uma boa experiência, porque me mostrou aquilo que não devo fazer novamente.

E como foi trabalhar novamente com Mark Ronson?
O Mark é como se fosse um irmão para mim. É amigo próximo do meu manager, portanto atuamos muitas vezes como DJs juntos e cruzamo-nos regularmente em Londres. Foi muito normal trabalhar com ele, porque, seja como for, vejo-o uma vez por semana. Por sermos tão próximos e termos uma relação tão forte, é como fazer um álbum com um irmão. Quando ele diz coisas que me irritam, é difícil controlar-me e não gritar com ele, como faço com o meu irmão e a minha irmã. Tenho de pensar duas vezes e agir de forma profissional, porque, geralmente, há outras pessoas na sala. Mas sinto que, por vezes, ele se esquece que me lembro bem de quando ele não era “o” Mark Ronson, produtor de álbuns.

Como surgiu a ideia de colaborar com Ezra Koenig, dos Vampire Weekend?
Estava em Los Angeles com o Mark e o BloodPop [outro dos produtores] e o Ezra, que também conheço há anos, tinha estado a trabalhar em algo com o BloodPop. Encontrámo-nos e dissemos logo ‘vamos fazer alguma coisa juntos’. Foi assim que surgiu essa canção [‘My One’]. Mas também conheço o Ezra há anos. A única pessoa que não conhecia antes era o BloodPop.

É uma pessoa sem problemas em dizer o que pensa, mas lembro-me, por exemplo, de ter sido muito criticada por aquilo que defendeu quando foi a Calais visitar um campo de refugiados. Alguma vez pensa “devia ter ficado de boca fechada”?
Não! Nem pensar nisso! Há pessoas a morrer bem perto de Londres, onde eu estou. É uma loucura pensar que houve pessoas ofendidas por eu ter ido visitar aqueles refugiados, que só estão a tentar refazer as suas vidas. Não sei o que há de errado com as pessoas, são loucas! Mas isso é muito instigado pelos tabloides neste país. O Reino Unido é, historicamente, um lugar muito perverso, se pensarmos no nosso império e na nossa atitude para com os imigrantes. É grotesco. Às vezes, penso em como as minhas atitudes me podem trazer dissabores e que isto ou aquilo que defendo pode afetar o meu ganha-pão negativamente… Mas não são razões suficientes para me impedir de fazer o que seja. Seria uma atitude muito conservadora a ter em relação à humanidade e não é uma filosofia que subscreva, portanto prefiro fazer parte das conversações sobre mudança e sobre como ajudar as pessoas do que ser egoísta e pensar em preservar a minha imagem. Penso que é isso que as pessoas detestam em mim. Não querem pensar nos outros, apenas nelas próprias, e fazem os outros sentirem-se mal quando agem de forma diferente. Vão sempre fazer isso porque são egoístas. Não podes andar para aí a dizer que és um bom cristão quando tens esse tipo de atitude para com pessoas que estão em sofrimento.

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Já sente os efeitos do Brexit no seu dia-a-dia?
Sim! É um ambiente horrível! Há uma postura hostil direcionada a quem não é branco e da classe média neste país. A economia está a sofrer, o mercado do imobiliário a colapsar, o racismo aumentou, a violência está a crescer… Tudo isto são efeitos do Brexit. E é interessante ver os políticos e outras pessoas que apoiaram isto a pedirem passaportes de outros países ou a mudarem-se para França. Devem ter percebido que afinal não é boa ideia. Se não fosse assim, por que razão sairiam daqui?

Por que razão pensa que o movimento #MeToo não teve no mundo da música o impacto que está a ter na indústria cinematográfica?
A indústria musical é um espaço tóxico no que diz respeito a esse tipo de comportamentos de assédio, que foram protegidos ao longo de muitos anos. As pessoas que podem ter estado envolvidas nessas situações há dez anos são agora CEOs de editoras discográficas, portanto não é do interesse delas começar a escavar coisas que aconteceram no passado. Literalmente, são todos culpados. Há isso e também o facto de o álcool estar, muitas vezes, envolvido desde o momento em que a música é escrita até ao momento em que é apresentada ao vivo. É aí que esses comportamentos surgem. E isso, por um lado, permite que os homens se defendam dizendo que estavam bêbedos ou intoxicados e, por outro, impede as mulheres de fazerem queixa porque estavam bêbedas e intoxicadas e não querem que isso sirva para as desacreditar. A própria natureza da indústria musical… Nos filmes e nas séries, os contratos são mais curtos, na música são de 15 anos. Eu ainda estou presa ao mesmo que fiz quando tinha 19 anos e que ainda inclui mais um álbum. É uma indústria tão incestuosa que se alguém se comporta de determinada forma contigo tu vais acabar por te cruzar com essa pessoa novamente. É inevitável. As mulheres não têm uma tarefa fácil, quer seja na assessoria de imprensa, quer sejam responsáveis pela ligação com a televisão ou as rádios… Vejo-as nos mesmos cargos há 10 anos e os seus congéneres homens são agora executivos. As mulheres não parecem subir na pirâmide e os homens sim. Isso tem de mudar. Não me parece que um movimento como o #MeToo possa acontecer na música até essa situação se modificar.

O que quer da música hoje? É o mesmo que queria quando começou a sua carreira?
Não, penso que é diferente. As pessoas já têm uma ideia de quem eu sou, tenham os recursos que tiverem. Se lerem tabloides ou revistas, construíram uma imagem clara daquilo que pensam que sou e espero que alterem essa opinião se ouvirem este álbum, se se cruzarem com estas canções. É, definitivamente, o melhor disco, o mais autêntico e preciso, que poderia ter escrito neste momento particular da minha vida. Não sinto que precise da validação dos outros nem que me digam que é bom, porque sei que é, mas espero mesmo que gostem dele.