A balada do fim do mundo dos Mogwai no NOS Primavera Sound
10.06.2018 às 14h43
Coube à banda escocesa a ingrata missão de suceder a Nick Cave & The Bad Seeds no maior palco do festival do Porto. Torrentes elétricas instrumentais a condizer com o tempestuoso estado do tempo
Se durante o concerto de Nick Cave & the Bad Seeds, a chuva que caía sobre o cenário mais alargado do NOS Primavera Sound teve os desígnios da bênção, aquela que - enviesadamente e num campo menos povoado - esbarrou nas faces de todos os que ficaram para o concerto final do mesmo espaço confundiu-se com uma provação.
A música dos Mogwai exige compenetração, não cai especialmente bem se apanhada de relance no vaivém entre palcos. À frente, os mais afetos a este rock de combustão lenta - feito de picos e explosões cozinhados parcimoniosamente, mas também de uma verve kraut, motorizada qb. - cerraram os olhos e sentiram a tempestade (elétrica e sobretudo instrumental) mais do que os que se deixaram ficar atrás, entregues a um frio noturno acentuado e aos ditames da precipitação menos miudinha.
Honra seja feita aos quase veteranos escoceses, gente que abraçou o pós-rock nos anos 90 e que soube evoluir para uma música epicamente controlada, não poucas vezes feita de nervo eletrónico (recorde-se o excelente "Rave Tapes", de 2014) e, simultaneamente, capaz das mais belas e delicadas suites panorâmicas (a banda-sonora da série francesa "Les Revenants", de 2013, é um bálsamo). Ao vivo, o som projetado não é ensimesmado nem demasiado íntimo: chega a todos e com volume.
Numa 'setlist' dos Mogwai não poderiam faltar 'Mogwai Fear Satan' ou 'Hunted By a Freak', canções de tempos mais remotos, em que dos de Glasgow se dizia, algo jocosamente, o mesmo dos canadianos Godspeed You Black Emperor: música que vai acima e depois vai abaixo. Em regime festivaleiro, e com a água a acumular-se nas bordas do capuz, preferimos o rock mais vibrante e tenso dos 'later years' que Stuart Braithwaite e companhia também souberam debitar. Ninguém saiu daqui a lamentar-se.
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