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'Straight outta Compton', Vince Staples é uma silhueta no anfiteatro do NOS Primavera Sound

Não se deixando fotografar por meios de comunicação social, o californiano foi uma silhueta no grande palco do festival do Porto. Atrás de si, um gigante 'videowall' emula um painel de televisões. O zapping foi uma constante

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Sabemos que não estamos muito longe da zona VIP quando passa por nós um casal liofilizado de calças brancas, cigarros eletrónicos na boca e aquele indisfarçável esgar de "o que é que eu estou aqui a fazer?". Aqui é o "lado de fora", a barbárie festivaleira. O desinteresse da parelha alienígena é inversamente proporcional ao fervor com que, metros adiante, o povo recebe Vince Staples, um dos mais gabados rappers do momento.

Vindo diretamente do Compton, Los Angeles, Staples está longe de ser 'old school'. Tem 24 anos, esteve próximo do coletivo Odd Future, de Tyler The Creator (que vimos ontem por aqui), emancipou-se com o duplo "Summertime '06", em 2015, foi ainda mais longe em 'Big Fish Theory', de 2017, álbum em que o seu rap é embrulhado num aparato eletrónico, vanguardista a espaços, sem medo do house e do tecno - devedor das explorações de Burial e Zomby, mas com uma percussão direta ao osso e um subtexto por vezes industrial.

A sua música é um caleidoscópio: raça, política, sucesso, o eu. Atrás de sim, um painel de emissões televisivas gigante contrasta com a sua silhueta solitária, deambulante no palco. Perto do fim, vemo-lo a agachar-se, enquanto coloca as mãos na cabeça. Momento raro de distensão numa performance com tanto de obsessivo e marcial como de lúdico. 'Blue Suede' é um tratado de tensão, ecoa como uma sirene. Saúda, por fim, os presentes, "thank you for having me" e exorta que repitam com ele 'Yeah Right', uma hora depois de solicitar que 'Get the Fuck Off My Dick'. O povo cerra os olhos e exulta, os VIPs bebem o seu coquetel e desviam o olhar.