Com as sorridentes Breeders viajámos até aos anos 90 no NOS Primavera Sound. E até houve Pixies...
08.06.2018 às 22h17
A banda das irmãs Deal não precisa de muito para cumprir a sua missão: servir de portal para o indie rock da década de 90, aquele barulhinho bom de que às vezes sentimos saudades. No fim de tarde surpreendentemente soalheiro do Porto, o regresso ao passado foi consumado
Há muitos anos, cremos que ainda nos anos 90, os Dandy Warhols cantavam uma música chamada 'Cool as Kim Deal'. Há vinte anos, Kim Deal era assim. Cool. Estávamos nos anos 90, lembremo-nos, e o indie rock era cool. Não é que tenha deixado de ser, ressalve-se, mas o tempo passa, as modas também e a nossa atenção e os nossos interesses divergem.
Em 2012, neste mesmo palco, as Breeders trouxeram o espetáculo de 20º aniversário de "Last Splash", o álbum mais marcante de uma carreira iniciada por Kim Deal enquanto válvula de escape dos Pixies, onde ocupava a posição de baixista 'esmagada' pela veia criativa do 'boss' Black Francis. É o álbum de 'Cannonball', aquela música insidiosa que se tornaria maior do que a banda. No sentido em que, tanto em 1993 como em 2012, quem não sabe quem são as Breeders reconhece o riff abrupto (e depois envolvente) da sua canção mais popular.
Em 2018 o fenómeno é semelhante. A banda vai servindo o seu repertório mais empertigado, de 'No Aloha' a 'Divine Hammer', e a reação do lado de cá é parcimoniosa. Voltamos a pensar que seria melhor vê-las num espaço mais pequeno, só com os fãs 'die hard', do que num fim de tarde ameno em que muitos se sentam, outros conversam, outros tantos refrescam a boca em cerveja ou cidra. A simpatia de Kim Deal é contagiante: a 'coolness' de outrora é agora bonomia, boa disposição e uma gargalhada franca de quem está muito bem na sua pele de cinquentona roqueira, feliz por estar com os seus a dar-nos um pouco de um passado nervoso e vital. Que até passou pela sua 'Gigantic', um dos melhores feitos dos Pixies, cujos méritos, em boa medida, lhe pertencem.
Pena que a atenção dada às vibrantes canções novas não seja maior: 'Wait in the Car' poderia pertencer ao mesmo ramalhete de 'Cannonball' que ninguém daria pela diferença, mas já sabemos que álbuns novos de velhas glórias passam normalmente despercebidos. Sem estrilho, uma forma simpática de terminar a tarde.