Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Jonathan Wilson

“Meu Deus, estou em palco com um Pink Floyd”. Ele é o homem do leme de Father John Misty, o novo 'Gilmour' de Waters e um grande cantautor

Jonathan Wilson, que este ano lançou o aplaudido “Rare Birds” e recentemente esteve em Portugal como guitarrista e vocalista de Roger Waters, deu uma entrevista à BLITZ, na qual revelou que deve tocar por cá no próximo ano

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Nascido há 43 anos numa pequena cidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, Jonathan Wilson chegou a Los Angeles ainda adolescente e, desde então, é na grande meca californiana que tem firmado o seu nome enquanto produtor (foi o 'homem do leme' nos três primeiros discos de Father John Misty), solicitado músico de sessão (participou no último disco de Roger Waters, com quem também anda na estrada, tocando guitarra e cantando as partes de David Gilmour no repertório dos Pink Floyd interpretado pelo músico britânico) e cantor-compositor de mérito próprio. Depois de uma abençoada estreia, em 2011, com “Gentle Spirit”, Jonathan Wilson lançou, dois anos depois, “Fanfare”, e este ano “Rare Birds”, com o qual está a conquistar um novo público, como contou à BLITZ.

Em 2018 andará em digressão como guitarrista e vocalista de Roger Waters e também a solo, promovendo o seu último disco. Como têm corrido os concertos?
Muito bem. Ando em digressão há nove semanas. Comecei com os meus concertos, que depois desaguaram na digressão do Roger Waters.

E só regressará a casa perto do Natal, certo?
Sim, regresso a Los Angeles a 17 de dezembro, se não me engano. Vou passar 2018 numa digressão permanente.

Em relação aos concertos com Roger Waters, há grandes diferenças na forma como o público reage aos concertos, sobretudo aos momentos mais políticos, nos Estados Unidos e na Europa?
Uma coisa que notei é que, em algumas das canções novas, nos Estados Unidos, as pessoas saem para irem buscar cerveja, porque pensam: “isto não são as canções antigas dos Pink Floyd que eu conheço, mas o que é isto?”. Na Europa, as pessoas ficam lá o tempo todo, respeitam o concerto na sua totalidade. É uma treta, os americanos serem assim, mas são.

Em palco com Roger Waters em Lisboa, a 19 de maio

Em palco com Roger Waters em Lisboa, a 19 de maio

Rita Carmo

Quanto aos seus próprios concertos: sente que, com as canções do novo disco, “Rare Birds”, está a conquistar um público diferente?
Sem dúvida! Este álbum é diferente e talvez tenha atraído fãs diferentes. Já não estão ali à espera de ver só o tipo acústico, folky. Estão ali porque ouviram uma canção como ‘Over The Midnight’, que tem um som muito mais expansivo e moderno. Tenho reparado que agora tenho mais gente a ver os meus concertos, o que é ótimo.

E tem alguma canção favorita?

A primeira canção do álbum é muito divertida de tocar ao vivo: 'Trafalgar Square'.

A canção que tocou para nós, 'There Is a Light', foi das primeiras que escreveu para este disco?
Não, até foi das últimas! Já tinha o disco quase todo feito e certo dia estava sentado ao piano, no meu estúdio, quando pensei: o que é que ainda não tenho, para este álbum? E o que me faltava era uma canção rápida e animada. Essas canções podem ser as mais difíceis de escrever. A maior parte das pessoas, quando pega na guitarra, escreve uma balada triste. Mas também queria uma canção que fosse completamente positiva, a 100%. Acabou por me surgir muito rapidamente. Comecei: “there is a light, bla bla bla”, e estava feito. Logo ao primeiro take. O que ouves ali foi a primeira vez que o baterista tentou tocar a canção, e foi incrível. É o baterista que anda connosco em digressão, um dos melhores do planeta Terra. Chama-se Joey Waronker.

Porque chamou “Rare Birds” a este disco?
Foi o primeiro título de que me lembrei, a primeira coisa que me veio à cabeça. Gravei-o no telefone, como mensagem de áudio. E é o título de uma das canções, também. Todo o álbum vive muito de primeiras inspirações - eu dou valor a essas coisas. Tento seguir sempre a primeira inspiração, em vez de estar a escolher uma coisa dentre 15. Esse título foi a primeira coisa que me ocorreu e depois, à medida que fui fazendo o álbum, comecei a perceber o seu significado. Que é: as pessoas que o percebem são as ditas “aves raras”. Espero que seja eu, ou sejas tu.

Ao longo da sua obra, a natureza parece ser uma grande inspiração. Qual o sítio mais impressionante onde já esteve?
Recentemente estive na Nova Zelândia e foi muito especial. É um sítio lindíssimo. Até filmei lá um vídeo e fomos a uma praia de areia negra, com pinguins e sem mais ninguém por perto! É deslumbrante.

Como é passar um ano na estrada?
Ui! É uma grande experiência, sobretudo se juntarmos duas digressões, como eu estou a fazer. É bom poder passar cada dia num país diferente e não ter de conduzir. Podemos andar a passear e é maravilhoso apreciar todas estas culturas. Mas também passamos demasiado tempo naqueles quartos de hotel chunga. E depois lá vamos tocar, o que acaba por representar uma parte pequena do tempo.

Lembra-se de como gravou o seu primeiro álbum a solo, “Gentle Spirit”, de 2011? Tem um ambiente muito próprio...
Foi gravado em várias partes, não resultou de uma sessão única. Fui eu, na minha casa, que era o meu estúdio, em Laurel Canyon. Eu a trabalhar numa canção de cada vez. E assim pude fazer as coisas com tempo e fazer experiências; houve muitas canções que nem sequer aproveitei, mas quando encontrava uma que fosse especial, pensava: esta vai para o disco! Tive oportunidade de acompanhar as canções, de ver onde é que elas aterravam. O tema-título, 'Gentle Spirit', nasceu assim: sentei-me e, sem saber como, ocorreu-me a parte da guitarra. Então peguei no melotron e toquei, sentei-me à bateria e gravei a bateria... Fiz tudo sozinho, sem staff, sem ninguém para me ajudar. Nessa altura, já tinha tido uma banda, já tinha feito muita coisa, e nunca tinha recebido atenção com as minhas próprias canções. Por isso, sabia que a única forma de transcender essa situação e fazer alguma coisa que acabasse a tocar no gira-discos de uma pessoa como tu, do outro lado do mundo, era fazer canções muito boas. Que teriam de ter significado, que teriam de ser a minha cara. E teriam de ter o som de onde eu venho.

Tocar com uma banda como a de Roger Waters e a solo implica um estado de espírito muito diferente? Mesmo quando, nos seus concertos, também toca com outros músicos...
Sim! De momento desempenho ambos os papéis. É divertido, mas tocar em banda acarreta muito menos pressão. Tocas o teu instrumento, cantas um bocadinho e está tudo bem. Mas quando é o teu concerto, está muita coisa em jogo. Quando saí da minha digressão e voltei a esta grande tour [de Roger Waters], ainda demorei uns concertos até me voltar a habituar: “ah sim, agora é assim”.

Sente-se confortável sendo o centro das atenções, nos seus concertos?
Bem, eu não sou aquele tipo sem vergonha e narcisista que muita gente é, nesta posição... alguns dos quais são meus amigos! Mas acho que não faz mal.

É verdade que escreveu a sua primeira canção aos três anos?
Sim, era uma cançãozinha engraçada, que os meus pais ainda têm guardada. Mas era só eu a bater na guitarra. Chamava-se 'Old Jackson'.

Os seus pais ainda vivem na pequena cidade da Carolina do Norte, onde cresceu?
Sim, agora vivem nas montanhas da Carolina do Norte, de onde vem toda aquela cena bluegrass.

Ainda volta lá com frequência?
Sim, uma vez por ano volto a casa. Mas os meus pais vão ver-nos a Hyde Park [em Londres, onde toca com Roger Waters em julho].

Da última vez que falámos, disse que ia viver para o deserto de Joshua Tree. Ainda está a pensar nisso?

Sim! Feito maluco, comprei 12 hectares de areia no deserto. Mas não tem lá nada. Vou ter de construir o meu palácio.

Um palácio como o da capa deste disco novo?

Era fixe! Toda a gente me diz: não faças isso, não podes fazer isso, és maluco! E eu: vamos a isso! (risos)

No seu segundo álbum há uma canção intitulada 'Cecil Taylor', com certeza em honra do pianista... Mas quem é a 'Miriam Montague' deste novo disco?
É uma amiga, uma personagem muito inglesa. Eu andava em digressão e ela foi ver-me tocar. Chama-se Miriam Theodosia Montague III. E eu disse-lhe: com um nome desses, mereces uma canção! Tem uma vibe muito brit, dos anos 60. Começou como brincadeira, mas acabou por dar uma canção bastante fixe.

Participou no último disco de Roger Waters e anda com ele em digressão. Mas ainda dá por si a pensar: “oh meu Deus, estou em palco com um Pink Floyd”?
Muitas vezes! (risos) Mas divertimo-nos muito em palco, todos juntos. Temos um bom ambiente.

Conhece grandes estrelas da música, tendo tocado com elas nas famosas jams de Laurel Canyon... o que o surpreendeu mais nessas figuras?
O que nos une são estas notas [dedilha a guitarra]. Não importa se és muito gigante, icónico ou famoso. Quando começamos a tocar juntos, voltamos ao começo de tudo. Voltamos ao tempo em que éramos adolescentes a tocar guitarra na garagem: esse feeling geralmente ainda está lá, em todos os músicos. E é válido em todos os estilos, idades, países. Já toquei com bateristas berberes no Saara e podemos não conseguir falar uns com os outros, mas podemos fazer jams. A música é mesmo aquela l
inguagem internacional que nos torna todos iguais, independentemente do nosso estatuto ou da nossa fama.

Essa guitarra que trouxe consigo é a sua guitarra favorita?

É uma delas! (dedilha a guitarra) É uma Gibson de 1947. E tem um som muito doce. É a guitarra que uso para tocar no quarto de hotel, não a levo para os concertos.

Pensa vir a Portugal dar algum concerto?
Sim, se tudo correr bem venho cá para o Primavera [Sound, no Porto] do próximo ano.

“Rare Birds”, o terceiro álbum de Jonathan Wilson, está nas lojas. Veja aqui a passagem do norte-americano pela BLITZ, para dar esta entrevista e tocar dois temas ao vivo no nosso terraço.