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Kraftwerk em 1978

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Os Kraftwerk nunca estiveram à frente do seu tempo. Nós é que demorámos a chegar ao deles

Há 40 anos, os Kraftwerk apresentaram ao mundo o manifesto que haveria de garantir o espaço dos sintetizadores na música popular e dar origem a um género de forte impacto comercial. “The Man-Machine” continha lições e ideias que permanecem válidas até aos dias de hoje. É tempo de celebrá-lo

Captar o espírito de uma época – e neste texto faz até mais sentido recorrer ao termo zeitgeist – ligando a CNN e fazendo canções que reflitam as problemáticas que envolvem o mundo pode até resultar em gestos pop grandiloquentes (os U2 ou os Muse que o digam), mas nada tem de presciente ou fantasioso, duas qualidades que sempre distinguiram os visionários pop, de Fritz Lang em Metropolis a George Lucas em Star Wars, de Stan Lee em... bem, em praticamente todas as suas criações, de Spiderman a Black Panther, até aos Kraftwerk em The Man-Machine, álbum lançado há exatamente 40 anos e que continua a conter muito mais futuro do que a maior parte da música que hoje lidera as tabelas de vendas.

Quando se estrearam em 1970 com Kraftwerk, trabalho a que sucederam os álbuns Kraftwerk 2 e Ralf und Florian (em 1972 e 1973, respetivamente), Ralf Hutter e Florian Schneider estavam ainda longe de realizar a visão que lhes garantiria a longa carreira e o estatuto revolucionário que justamente lhes pertence. Após o maio de 68, a mais radical juventude alemã não se poupou a esforços para sacudir quaisquer resquícios de passado que a geração dos seus pais lhes tivesse imposto, por um lado, e, por outro, a inventar uma identidade própria que pudesse distanciá-la da cultura das forças ocupantes que se posicionaram na Alemanha dividida em dois blocos após a Segunda Guerra Mundial. A imprensa musical britânica, alinhada com a mentalidade vencedora do maior conflito do século XX, criou o termo krautrock com uma clara intenção de menosprezo, mas a verdade é que a música criada por um conjunto de extraordinárias bandas como os Can, Neu!, Popol Vuh, Ash-Ra Tempel, Amon Duul II, Cluster ou Tangerine Dream se afirmou pela sua profunda originalidade e rigorosa qualidade técnica, com polos criativos como Berlim ou Colónia e Dusseldorf a atraírem depois músicos britânicos e americanos em busca do caráter distinto que por ali parecia borbulhar. Com David Bowie à cabeça.

À ATENÇÃO DE DAVID BOWIE

Quando Bowie chegou a Dusseldorf para tocar no Philipshalle a 8 de abril de 1976, na digressão de apoio a Station to Station, álbum que tinha sido lançado em janeiro desse mesmo ano, os Kraftwerk marcaram presença. Nessa época, o homem que tinha liderado os Spiders From Mars até ao topo da montanha glam procurava ele mesmo uma nova identidade tentando libertar-se das amarras do rock: “O rock está morto... é uma velha desdentada”, tinha Bowie declarado a Anthony O’Grady em agosto de 1975. David Buckley, autor da biografia Kraftwerk Publikation (Omnibus Press, 2012), cita o arranjador Paul Buckmaster (foi dele o arranjo de cordas de “Space Oddity”, por exemplo) que confirma que durante as sessões de trabalho para a banda sonora de The Man Who Fell To Earth, o filme de Nicolas Roeg, ele mesmo e David Bowie ouviram bastante os álbuns Autobahn e Radio-Activity. Quando preparou a digressão em que embarcaria uns meses depois, Bowie convidou os Kraftwerk para serem a sua banda de suporte.

O grupo recusou o convite, mas isso não os impediu de ficarem fascinados com a mise en scéne do concerto, a luz branca em que Bowie se banhava – muitos fãs referem-se a essas datas como a White Light Tour – e os seus fatos de corte espartano, as camisas brancas, o penteado elegante.Ralf e Florian começaram a reinventar-se com Autobahn, o álbum que lançaram em 1974 e o primeiro registo a contar no seu The Catalogue, a caixa que em 2009 “arrumou” para a posteridade a discografia “relevante” dos Kraftwerk. Com os dois trabalhos seguintes, Radio-Activity (1975) e sobretudo Trans-Europe Express (1977), Ralf, Florian e também já Karl Bartos e Wolfgang Flur, a “formação clássica”, lograram eliminar do seu som os resquícios de free-jazz psicadélico que tinham informado os seus primeiros passos, colocar a tecnologia eletrónica no centro do seu arsenal técnico e traçar os planos para uma nova linguagem musical. David Bowie entendeu o que se estava a procurar fazer ali, mostrou Radio-Activity a Iggy Pop – que haveria de dizer que adormecia nesse tempo a ouvir “Geiger Counter”, o tema de abertura desse álbum – e confessou em entrevista à Rolling Stone que tinha novos objetivos: “O som como textura, mais do que o som como música. Produzir discos de ruído parece-me muito lógico. O meu grupo favorito é alemão e chama-se Kraftwerk – eles tocam música de ruído para ‘aumentar a produtividade’. Gosto dessa ideia”.

Para expressar essa admiração, na abertura dos seus concertos, Bowie mostrava o filme Un Chien Andalou de Luis Buñuel com Radio-Activity a funcionar como banda sonora. Os Kraftwerk devolveram a cortesia quando na letra de Trans-Europe Express citaram os nomes dos seus dois mais famosos fãs: “From station to station, back to Dusseldorf City / Meet Iggy Pop and David Bowie”. Os Kraftwerk, avessos aos mecanismos da fama, podem ter recusado embarcar em digressão com David Bowie, mas certamente não enjeitaram a hipótese de lhe apertar a mão nos bastidores do concerto na sua cidade natal. E Bowie, na sua camisa de corte clássico, gravata fininha e elegância decididamente europeia ofereceu aos Kraftwerk duas ideias claras: a importância da imagem no conjunto da equação estética e a pop como moldura viável para novas paisagens musicais.

Em 1978, com The Man-Machine, os Kraftwerk conseguiram finalmente assinar o manifesto que tinham vindo a apurar nos últimos anos: da capa, inspirada na arte de El Lissitzky, designer que se alinhou com a ideia do construtivismo soviético e da arte ao serviço da revolução, em que surgiram de perfil, com camisas vermelhas e gravatas pretas, como num qualquer poster de propaganda, aos temas em que abordavam as modernas metrópoles, a robótica, o espaço e a moda passando, pois claro, pelo “ruído” a que se referia David Bowie – um kling klang eletrónico que traduzia o fascínio por uma ideia de futuro e que, mais do que qualquer outra obra, influenciou de forma decisiva a geração pós-punk que na Inglaterra de Thatcher procurava ela mesma inventar uma alternativa de futuro, uma pop sintética liberta de guitarras e carregada de base nos seus rostos despidos de emoções. Robóticos.

A capa de "The Man-Machine"

A capa de "The Man-Machine"

Nas páginas da Rolling Stone, na edição de 18 de maio de 1978, Mitchell Schneider escreveu que “ouvir The Man-Machine é como ouvir o telégrafo”, uma simples frase que traduzia de forma perfeita o famoso enunciado de Marshall McLuhan de que o meio é a mensagem. De facto, na cristalização de uma nova abordagem à tecnologia, os Kraftwerk subtraíram definitivamente os sintetizadores ao universo pomposo do rock progressivo e de algum jazz de fusão (géneros que eram parentes próximos, diga-se de passagem) e colocaram-nos ao serviço de uma nova linguagem pop. Nos primeiros sons de “The Robots”, que soam como um claríssimo áudio-logo corporativo, está bem expressa a ideia que animava os Kraftwerk: não a de usar as máquinas num qualquer contexto familiar – o rock, o jazz... -, mas permitir que as máquinas fossem a própria mensagem e “discursassem” livremente, com toda a sua expressividade e toda a sua... sensualidade. Florian Schneider, numa entrevista de 1978 citada em Kraftwerk Publikation não deixava margem para dúvidas: “É uma relação mais sofisticada”, adiantava, referindo-se à ligação homem-máquina explorada no novo álbum, “há uma interação. Uma interação de ambas as partes. A máquina ajuda o homem e o homem admira a máquina. (...) Nós, nós amamos as nossas máquinas. Temos uma relação erótica com elas...” O meio era também, como McLuhan igualmente profetizou, a massagem...

Num momento na história em que a empresa californiana RealDoll se prepara para colocar no mercado os primeiros robôs sexuais (e se não acreditam, espreitem aqui: https://www.realdoll.com/), as declarações de Schneider feitas há 40 anos só devem ser lidas não como manifestação de algum tipo de excentricidade, mas como uma aguda previsão de futuro. Aliás, o que The Man-Machine mais contém são projeções de futuro nas suas seis canções que somam pouco mais de 36 minutos.

Logo no tema de abertura, uma voz moldada por vocoder declara “we’re charging our battery”, questão que está hoje na ordem do dia, quando todos parecemos depender de “power banks” e de cabos para recarregar as nossas extensões tecnológicas. Em “Spacelab” os Kraftwerk fazem uma das suas poucas odes à vida fora da Terra ecoando o então contemporâneo Skylab americano que antecedeu as estações orbitais que as décadas seguintes trouxeram. No título, enunciado uma vez mais através do vocoder, os alemães são ainda mais concretos apontando o espaço como o laboratório do futuro. E nos quase seis minutos de “Spacelab” os Kraftwerk parecem conseguir condensar o melhor da carreira de Jean-Michel Jarre, com uma melodia simples suportada por um pulsar quase disco. “Metropolis” fecha o lado A: trata-se de uma ode à visão de Fritz Lang, o realizador vienense cuja obra de 1927 imaginava uma distopia futura e que traduz a sombria tensão do filme de uma forma muito mais eficaz do que a que Giorgio Moroder, com ajuda de Freddie Mercury e Bonnie Tyler (!!!), assinou quando o filme foi relançado em versão colorida a meio dos anos 80.

O lado B de The Man-Machine abre com aquele que é porventura o maior “sucesso” de sempre dos Kraftwerk, “The Model” tema cuja frase “now she’s a big success / I want to meet her again” é não apenas uma aguda crítica aos efeitos da fama sobre as regras da atração universal, mas também uma irónica antevisão do que haveria de suceder com o próprio tema: a edição original não causou qualquer tipo de impacto comercial, mas três anos depois, quando a canção foi incluída como lado B do single “Computer Love” lançado em Inglaterra, os DJs mais influentes, então já devidamente “re-educados” pelo sucesso de bandas como Depeche Mode, Human League, Soft Cell ou Ultravox, descobriram no lado “descartável” do single a verdadeira pérola levando o tema a subir nas tabelas de vendas e proporcionando por conseguinte aos Kraftwerk o primeiro (e único...) número 1 britânico da sua carreira. Agora que a visão dos Kraftwerk se tinha tornado famosa, todos queriam um pedaço...

“Neon Lights” é outro sublime pedaço de pop sintético, mais uma sentida declaração de amor às cidades modernas, que nunca dormem, como a Paris em que o grupo decidiu realizar a apresentação do álbum, alugando o espaço do mítico clube Le Ciel de Paris, no 56º andar da Torre de Montparnasse, para uma festa regada a vodka em que os manequins robóticos que o quarteto haveria de usar neste tipo de apresentações foram estreados, substituindo mesmo o grupo que a dada altura se retirou discretamente para um recatado jantar na La Coupole. O tema soa como a cartilha por onde haveriam de estudar os melhores alunos da classe synth pop dos anos seguintes. E finalmente, há o tema título, “The Man-Machine”, mais um “haiku” melódico de génio absoluto, parcas notas que traduzem na perfeição o futuro que em 1978 estava ainda por cumprir. A máquina como interface para o “super human being” de que nos fala a voz esculpida pelo vocoder. Perfeição absoluta.

Ação de promoção do álbum em Nova Iorque, em 1978

Ação de promoção do álbum em Nova Iorque, em 1978

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Na remasterização de 2009, aquando da edição do massivo The Catalogue que haveria de sustentar as apresentações do grupo agora comandado por Ralf Hutter – com concertos nalguns dos mais famosos museus de arte moderna do mundo, como o MOMA, em Nova Iorque, ou a Tate Modern, em Londres, dedicados a cada um dos oito álbuns aí incluídos –, The Man-Machine soa absolutamente glorioso: uma espécie de tradução aural de aço cromado ou do pulsar de informação através de um cabo de fibra ótica: puro, inadulterado pela passagem do tempo. O álbum foi gravado no estúdio dos próprios Kraftwerk, o famoso e icónico Kling Klang, e misturado no Studio Rudas, pertença do engenheiro de som Joschko Rudas que nesta missão foi ajudado por Leanard Jackson, engenheiro importado da América que no currículo trazia importante trabalho realizado ao lado de Norman Whitfield ao serviço da visão disco sound de projetos como os Rose Royce, Undisputed Truth ou dos muito eletrónicos Nytro que em 1977 lançaram o pesadíssimo “Atomic Funk”. Leanard é o responsável pelo equilíbrio perfeito entre o drama melódico das linhas de sintetizadres e o pulsar metronómico da camada percussiva do álbum a cargo de Bartos e Flur. Desse equilíbrio, nasceu uma nova linguagem. Desse equilíbrio nasceu, efetivamente, o futuro.

“Foi de facto The Man-Machine que me levou até aos Kraftwerk”, relata Gary Numan nas páginas da já citada biografia assinada por David Buckley. “Eles pareciam ser totalmente guiados pela tecnologia. Tudo tinha que ser feito por máquinas. Eu fui muito, mas mesmo muito menos pioneiro do que eles. Eles estavam muito à frente de toda a gente. E muita da gente que se seguiu, eu próprio incluído, limitou-se a tirar algo deles e a acrescentar mais qualquer coisa. Eles foram genuínos pioneiros”.

Florian Schneider em 1978

Florian Schneider em 1978

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The Man-Machine vendeu razoavelmente bem, alcançando o Top 20 na Alemanha e em França, dois importantes mercados, e o Top 10 em Inglaterra, não conseguindo, no entanto, e apesar das elogiosas críticas da imprensa especializada, Rolling Stone incluída, grande impacto nos Estados Unidos. A recusa do grupo em ir em digressão terá tudo que ver com tal facto. Florian e Ralf, já apenas com Karl, preferiram fechar-se no estúdio e preparar o manifesto seguinte que seria o igualmente visionário Computer World, álbum em que incluíram a famosa “Pocket Calculator”, música em que usavam pequenas calculadoras Casio como instrumentos, antecipando em décadas o hoje comum gesto de fazer o mesmo com telemóveis. Os Kraftwerk foram sempre assim: nunca estiveram à frente do seu tempo, nós é que demorámos a chegar ao deles.