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Angel Olsen a tocar guitarra portuguesa

Angel Olsen dá três concertos em Portugal este mês. E nós recordamos a entrevista em que nos falou de José Afonso e Amália

Atua em Guimarães a 13 de maio e no Teatro da Trindade, em Lisboa, a 14 e 15 (concertos promovidos pela ZDB). Em 2015, a BLITZ falou com ela e descobriu uma fã de dois dos maiores vultos da música portuguesa. Publicamos de novo a entrevista, na íntegra

Em 2014, apanhou toda a gente desprevenida com um carnudo segundo álbum, Burn Your Fire For No Witness, revelador de uma cantora e compositora capaz de mostrar feridas do desamor com calor e intensidade. Vinda de um álbum «despido» que não a destacou na imensidão do cenário «singer songwriting», a norte-americana crescida no Missouri, mas com vida feita em Chicago, honrou à segunda oportunidade a tradição folk americana («Hi-Five», com Lee Hazlewood à espreita), mas também a eletricidade felina (os Velvet Underground sentidos em «High & Wild») - razões para desejarmos ardentemente voltar a vê-la.

É grande admiradora de José Afonso, uma influência algo inesperada. O que é que nele encontra de cativante?
Há uns anos fiquei obcecada pelas canções e pelo valor da sua obra. O primeiro contacto foi com «A Morte Saiu À Rua». Mais tarde, comprei alguns álbuns. O que mais me impressionou foi a quantidade de informação contida nas canções, mantendo-se contudo uma voz sólida e poderosa. «Canção de Embalar» e «Filhos da Madrugada», esta tão desafiadora e otimista, são outras canções que acertaram em cheio no meu coração.

Conhece as letras?
Percebi que ele era uma pessoa política. Algumas letras exprimem pensamentos semelhantes aos de Bob Dylan. Para mim, se uma canção é para ser cantada deve possuir substância. As minhas canções favoritas são as mais ousadas.

Em 2011, atuou em Portugal com Bonnie Prince Billy. O que recorda desses concertos?
Tenho pena de não termos ficado mais tempo! Em Lisboa, tocámos duas horas e depois o Sérgio [Hydalgo, programador de música da Galeria Zé dos Bois] levou-nos a uma casa de fados. Talvez as pessoas que lá trabalhavam não estivessem à espera de tantos estrangeiros, espero não as ter aborrecido. Foi uma madrugada inspiradora de que não me esquecerei tão cedo.

Entretanto, correu mundo por conta própria. Quão alienadora é a vida de estrada?
Quando estou na estrada, sinto-me longe dos que deixei em casa. Quando estou em casa, sinto falta da minha banda. Não é só uma questão de «estas são as minhas canções» ou «esta é a minha música»; estamos todos a aprender a crescer ao mesmo tempo, da mesma maneira. [No regresso], é difícil explicar a uma pessoa amada que sentiste falta dela, mas que precisas de uns dias para ti. É um ajustamento necessário para que fique tudo como dantes. No início, alguns amigos ficaram preocupados com as digressões constantes e fizeram questão de me dizer que gostaram daquela canção ou que aquele vídeo era estranho. Ou que temeram que me vendesse e me tornasse uma pessoa ignóbil. Trabalhar na música não é tão fácil como algumas pessoas pensam, e ter feito aquele vídeo mau deu, mesmo assim, muito trabalho. Infelizmente.

Sente a pressão de superar o disco que a tornou conhecida?
Preciso de algo que me impressione verdadeiramente de outra forma, qual será o motivo de o partilhar? Sinto que Burn Your Fire... é uma peça especial em si mesma. É difícil dizer se o que vou fazer será melhor, pior ou igual, mas independentemente do que o futuro trouxer, esse foi um ponto de viragem para mim. Não foi só fazer o álbum, foi a mudança que veio com ele, uma mudança que senti fisicamente.

Numa outra entrevista disse que gostaria de ouvir música de outras pessoas, ver filmes e fazer coisas que nada têm a ver consigo. É como se quisesse apaixonar-se outra vez, sem ter a certeza de o conseguir.
Mantive contacto com músicos que conheci em festivais nos últimos meses. Falámos sobre a indústria e partilhamos histórias e falhanços. A opinião pública nunca foi a minha fonte primordial e não quero mudar isso, quero ter relações verdadeiras. Isso e ouvir outras músicas e reencontrar alguma magia depois de horas a dedicar-me às minhas canções, aos meus pensamentos e à minha imagem.

Publicou no Instagram uma foto do Livro do Desassossego, do semi-heterónimo de Fernando Pessoa, Bernardo Soares. Já o leu?
Agora é que me apanhou! Recebi-o de um amigo e folheei-o, apenas. Ler diários é algo que obriga a um tempo de habituação. Mas meti na cabeça que tenho de acabá-lo antes de voltar a Portugal. De momento, estou a braços com o último livro de Elena Ferrante, a minha autora contemporânea favorita.

{ Amália na voz }

Interessada na descoberta de preciosidades de outros tempos, Angel Olsen assume o espírito de garimpeira: «estou sempre à procura de música, particularmente de coisas antigas. Foi assim que descobri Françoise Hardy, Connie Francis, Dalida, Chavela Vargas, Mina e, mais tarde, Amália». Amália Rodrigues? «Sim, quando me disseram que uma das minhas canções soava a "Barco Negro". Sei que ela representa muito [para a cultura portuguesa], mas a mim interessou-me sobretudo a voz dela, a ferramenta que estava a usar».

Originalmente publicado na BLITZ de setembro de 2015

Angel Olsen atua no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, a 13 de maio, e no Teatro da Trindade, em Lisboa, a 14 e 15 do mesmo mês (concertos ZDB).